Análises

Preservar dá lucro

Na ponta do lápis, a comprovação de que para o agricultor vale muito mais a pena preservar os recursos naturais do que remediar os estragos da devastação.

Luiz Eduardo Cheida ·
8 de julho de 2005 · 21 anos atrás

Em seis hectares e com um rio no meio, um produtor rural do Paraná pode receber até R$ 800 ao mês e manter sua propriedade preservada e dentro da lei. Hoje, uma pequena propriedade convencional não rende ao agricultor paranaense R$ 500 mensais, segundo o último senso do IBGE. Não há mágica.

Exemplo: em seis hectares, planta-se a Reserva Legal de 1,2 hectare e a Mata Ciliar, de 1 hectare. Nos outros três hectares, 80% de exóticas e 20% de nativas. O quase 1 hectare restante é para a habitação, circulação e plantio de alimentos de uso familiar. Contando um período de 30 anos, haverá dois ciclos de madeira para corte e renda através do seqüestro de carbono, dentro do Protocolo de Kyoto. Em 30 anos, a renda da madeira será de R$ 200 mil e a renda do seqüestro de carbono, de R$ 45 mil. No total, R$ 245 mil, o equivalente a R$ 800 ao mês. Um incremento médio de 60% sobre os ganhos históricos de propriedades semelhantes.

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No Paraná, 86% das 375 mil propriedades existentes são de até 50 hectares. Falo então, de 322 mil propriedades. Não é pouco. Além disso, a ecologia ensina que, quanto mais equilibrado, mais produtivo é um ecossistema.

Uma propriedade com pouca cobertura vegetal submete-se a ventos mais velozes. Os ventos fortes alteram o regime das chuvas. Com as chuvas alteradas, modificam-se as temperaturas locais. A conseqüência é um microclima absolutamente caótico. Também a pouca cobertura vegetal provoca a erosão. Pelos ventos e pelas chuvas, o precioso solo e seus minerais esvaem-se para dentro das águas. O solo torna-se pobre e o rio fica assoreado. As águas barrentas impedem a entrada da luz solar. No escuro, as plantas aquáticas desaparecem e com elas os peixes herbívoros. Logo depois, os carnívoros.

Na ânsia de recuperar o solo, o agricultor gasta mais dinheiro com fertilizantes. Na tentativa de proteger-se de pragas que sobrevêm com os desequilíbrios, gasta também com agrotóxicos. Não é por acaso que, na região noroeste do estado, já se encontram níveis de nitrato no subsolo 80 vezes maiores do que o máximo permitido! Nestas inimagináveis quantidades, os nitratos podem ser cancerígenos.

Assim, o agricultor perde duas vezes: perde recursos naturais (solo, água, peixes) e quando gasta mais para repor o que se deixou perder. A propriedade produzirá ainda por muitos anos, mas, a que preço? Continuará existindo ainda, mas, por quanto tempo?

Todavia, lucro não é só dinheiro. Ele pode ser também uma maior longevidade. Viver mais e viver bem talvez seja o lucro maior da existência humana. Como, entretanto, manter esta perspectiva em um microclima afetado sob agonizantes nuvens de agrotóxicos e fertilizantes?

Lucra-se também quando se economiza. E pode-se economizar com médicos, exames, remédios, pulverizadores, fertilizantes, agrotóxicos, equipamentos de proteção individual, menos dias de trabalho perdidos, quando se trata de viver no campo sob uma opção diferente. Até porque a economia é causa e conseqüência de uma vida saudável.

Assim, não só por uma visão ambientalista (o que já bastaria), mas até por uma lógica capitalista, preservar dá lucro. Hoje, o Paraná alvoroça-se sob o calor das chamas de uma discussão estéril: a criação de áreas de preservação de florestas, que pretendem garantir pouco do muito que já se foi.

Até quando vamos imaginar que a quebra da safra deste ano e do ano passado é obra do acaso? Já passou da hora de se constatar que devemos recompor parte do original equilíbrio natural do estado, se não quisermos o Paraná somente para agora. Se o Dia Mundial do Ambiente servir para esta reflexão, ele já terá valido a pena. Afinal, queremos o Paraná para hoje e para sempre.

  • Luiz Eduardo Cheida

    Luiz Eduardo Cheida foi secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná.

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