Análises

Quem causa os Incêndios florestais – o tempo seco ou o fósforo aceso?

Os incêndios que consomem as matas brasileiras nesta época do ano não são provocados pelo clima seco, mas por ações humanas ignoradas pela sociedade. É arriscado banalizar o fogo.

Kátia Torres Ribeiro ·
25 de agosto de 2006 · 15 anos atrás

Por que continuamos a afirmar, dia após dia, que os incêndios no Brasil são causados pelo tempo seco? Ou por guimbas de cigarro na beira da estrada? Por que não assumir, logo de uma vez, os incêndios são, na sua maior parte, intencionais, criminosos, provocados por fósforos, isqueiros, velas? Ou então por imprudências e descuidos graves como balões, rojões, queimas de lixo na beira da mata?

Em novembro de 2006 vai acontecer em Mendoza, na Argentina, o segundo congresso sobre incêndios florestais e campestres no Mercosul. O lema do encontro é “O fogo traz muitos danos, a indiferença muito mais”. No Brasil a indiferença ainda é muita. O país todo arde em chamas, a floresta úmida próxima das maravilhosas Cataratas do Iguaçu se inflama, e a população brasileira simplesmente não se importa, ou acredita que o responsável é o calor.

O fogo consome campos, matas, casas e evapora a água nas nascentes. Na Serra do Cipó, Minas Gerais, o incêndio numa nascente com o belo nome de Mãe D´água levou a cachoeira mais visível na região a ficar alguns minutos sem verter água – a comoção durou não mais de uma hora, e todos voltaram a seus afazeres. O fogo destrói em poucas horas grandes esforços de reflorestamento, ou de conservação das matas e das nascentes. O fogo bota a vida de muita gente em risco. Seja das vítimas do fogo – gente, plantas, bichos, plantações-, seja dos combatentes, com número cada vez maior de voluntários, que passam noites do mato, sobem e descem de helicópteros, muitos deles sem seguro, muitas vezes sem os equipamentos mais adequados. E a população brasileira ainda acredita que os incêndios são naturais.

Em parte a responsabilidade é da Academia, de muitos cientistas, que ao dizerem que é natural o fogo no Cerrado, banalizam seus efeitos, e não explicam que incêndios por raios são raros, e mais freqüentes na estação das chuvas. Tampouco explicam que certa área pode queimar naturalmente sim, mas em grandes intervalos de tempo. Ou não fica claro que muitas espécies de cerrado toleram o fogo eventual, mas que a maioria não suporta incêndios anuais, como os que vêm ocorrendo.

Num jornal televisivo noturno, a ‘moça do tempo’ diz, com todo o encanto, ‘que o tempo seco causa incêndios em todo o país’. O apresentador insiste para ver se sai a resposta esperada – ‘Mas quem é o maior responsável pelo fogo, o homem ou o tempo seco?’; E a moça reafirma – ‘É o tempo seco, que causa incêndios em todo o Brasil’.

Digam-me, por favor, como o tempo seco pode ter a capacidade de causar incêndios? Um incêndio, para surgir, precisa de três componentes – combustível, oxigênio e fonte de ignição. Nas áreas naturais, o combustível é a própria vegetação, que quanto mais seca estiver, mais chance tem, de fato, de entrar em combustão, e de gerar um incêndio que se propaga rapidamente. Mas nem mesmo o capim mais seco, no tempo mais quente, é capaz de queimar sem que haja a contribuição de uma fonte de calor concentrado, em geral uma chama.

De onde vem a chama? Do fósforo, do isqueiro, de balões, de rojões. No Parque Nacional da Serra do Cipó e seu entorno encontramos as chamadas “iscas de fogo” – são velas no meio do estrume seco que fazem demorar o aparecimento do fogo, dando tempo de fuga a quem quer um incêndio. Eventualmente ocorrem incêndios causados por relâmpagos, mas ora, é extremamente improvável um relâmpago em plena estação seca. No alto da serra, na estação chuvosa, raios provocam pequenos focos de fogo, logo apagados pela chuva.

Na estação seca, os incêndios nos campos rupestres e em grande parte do Cerrado são sempre causados pela ação humana, e a maior parte é intencional, em geral para provocar a rebrota das capins para o gado, ou para limpeza de terreno. É muito comum ainda ouvir que ao longo das estradas os incêndios são causados por pontas de cigarro. Também não é verdade. Muitas pessoas já tentaram fazer fogo jogando guimbas acesas no capim seco, com muito pouco sucesso. Ao longo das estradas os incêndios são fruto da piromania simples, ou para limpar a beirada de capim alto. O desejo pode ser de segurança – aumentando a visibilidade e evitando emboscadas, mas os resultados colhidos são muitas vezes acidentes terríveis e incêndios em lavouras e áreas naturais.

É fundamental que se saiba, que se diga, que os incêndios são provocados pela ação humana direta, para que as estratégias de prevenção de incêndios sejam condizentes com este quadro. Parece que vivemos num mundo de fantasia – ‘Ah, é? Queimou? Que pena, hein? Por que será? É o homem que bota fogo? Mas que horror!’.

Conversando com produtores rurais na Serra do Cipó fica claro que a aquisição de máquinas é fundamental para reduzir o uso do fogo. O fogo é ferramenta barata, usada quando não se tem mão-de-obra suficiente ou implementos que viabilizem o trabalho. Ou ainda, ‘porque todos sempre fizeram assim’. Uma boa extensão rural tem que buscar meios de reduzir o uso de fogo por meio de mudanças nas práticas e apoio em infra-estrutura, microcrédito. Se o Brasil abriu suas fronteiras a ferro e fogo, se o fogo e o ferro e o gado foram fundamentais para garantir a posse da terra de forma sempre desigual, como dizer que são práticas ancestrais e sustentáveis? Não há sustento para esta idéia.

Sabemos que onde há gado, há fogo, e sem resolver a situação fundiária das Unidades de Conservação não há como retirar gado sem conflitos e injustiças, e o resultado são incêndios certos. Tendo como exemplo mais uma vez a Serra do Cipó, minha área de ação e de pesquisa, a constatação de que a situação fundiária estava resolvida em 90% da área do parque viabilizou a retirada do gado em 2004 sem conflitos explícitos e houve em seguida redução drástica na extensão dos incêndios, que deixaram de começar em seu interior.

Mas há esperanças, visíveis no noticiário que reporta incêndios com maior freqüência, no aumento no número de brigadistas, na ação progressivamente mais competente das brigadas de incêndio, contratadas e voluntárias, nas Unidades de Conservação, no investimento em equipamentos, no aprimoramento e busca de entrosamento das instituições envolvidas na prevenção e combate aos incêndios florestais.

Quem lida com fogo sabe – ele é poderoso, atraente. Dominá-lo gera uma curiosa satisfação. Quem lida com fogo sabe que é preciso não se acostumar com ele – a banalização vem da distância – ou imensa, ou pequena demais. O antídoto é observar o mato crescer, é ter o gosto de ver a vegetação densa retornar após décadas e séculos de fogo. Ela vem sozinha, mesmo sem mudas, sem pás, basta ficar, sem queimar.

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