Análises

O manejo de parques transfronteiriços

Primeiro artigo de série sobre o manejo ecossistêmico através das fronteiras internacionais fala da experiência do Parque Nacional do Alto Tatras, compartilhado pela Polônia e Eslováquia.

Pedro da Cunha e Menezes ·
31 de maio de 2011 · 11 anos atrás
Tratranska Lomnica
Tratranska Lomnica

Na pequena estância de Zakopane, nas fraldas da cadeia de montanhas que serve de fronteira natural entre Eslováquia e Polônia, comemos defronte à indefectível televisão, essa praga que de forma epidêmica é cada vez mais comum em todos os restaurantes mundo afora. Mesmo quando não se entende o idioma, como é meu caso com o polonês, as imagens parecem atrair a atenção como se fossem um imã, em um fenômeno que uma amiga minha batizou com o apropriado nome de “chiclete de olhos”. Detesto. Vou a restaurantes para comer, não para ver novelas, mas dessa vez fiquei interessado em um comercial. Na tela, um sujeito está carregando umas toras de pinus em uma trilha. De repente a câmara muda de plano e focaliza esse mesmo camarada construindo uma ponte de madeira sobre um córrego de águas límpidas. Quando termina o trabalho, começa a pintar uma seta de sinalização. Interrompe a tarefa, enxuga o suor do rosto, e abre uma garrafa de água mineral. Nesse momento um grupo de jovens excursionistas atravessa sorridente a pinguela que acabou de fixar sobre o rio. Sorridentes eles se congratulam com o operário. Não percebi nada do que foi conversado, mas compreendi que o herói do anúncio era o cara que fazia a manutenção de uma trilha em algum Parque Nacional polaco. Que inveja!

O sentimento só aumentou no dia seguinte, quando fui caminhar no Parque Nacional do Alto Tatras. Descobri que o amor pela natureza é característico dessa parte da Polônia. Todos os anos, os 21.164 hectares do Alto Tatras atraem três milhões de excursionistas, que têm à sua disposição uma malha de trilhas com 245 quilômetros de extensão. Ali os caminhos impressionam pela boa sinalização, drenagem, muros de arrimo, corrimãos, e pequenas obras de engenharia como pontes, degraus, bancos e abrigos, todos muito bonitos e integrados à paisagem que os cerca.

Embora já esteja nos Cárpatos, Tatras é uma cadeia de montanhas com características alpinas, que abriga seis picos acima dos dois mil metros de altitude. Sua espinha dorsal corre por 26 quilômetros e divide as bacias que drenam para os mares Báltico e Negro. Quatro quintos de sua área estão na Eslováquia, enquanto os 20% restantes localizam-se em território polonês. Em Tatras há dois Parques nacionais contíguos, embora cortados por uma fronteira internacional. São manejados em estreita coordenação. Sua criação remonta a 1925, quando Polônia e a então Tcheco-eslováquia assinaram o Protocolo da Cracóvia, destinado a resolver pequenas disputas de limites remanescentes da Primeira Guerra Mundial. A implementação do acordo, contudo, só se iniciou após a Segunda Grande Guerra: o Parque de Tatras foi criado em 1949 em território da atual Eslováquia, enquanto a contraparte polonesa só foi implantada em 1954, embora sua criação tenha sido decretada em 19371. Por estranho que pareça, exceto pela existência de um Plano de Ação Comum anual, elaborado em conjunto desde 1991, não há nenhum outro documento posterior ao Protocolo que regule a cooperação entre as unidades de conservação2. Ali o manejo é coordenado de maneira informal por meio de reuniões regulares entre os administradores, pesquisadores e demais funcionários técnicos, bem como pelo intercâmbio de documentos.

Parece funcionar muito bem. Em visita aos dois lados do Tatras, ((o))eco verificou uma cooperação profícua através da fronteira. Pavol Majko, diretor do parque eslovaco, que tem 73.800 hectares e recebe três milhões e meio de visitantes por ano, informou que coordena com seu homólogo polonês as políticas de manejo. A cooperação objetiva alinhar, sobretudo ações que impactam a fauna e flora. Busca-se evitar que aconteça ali algo semelhante ao que está se passando na região vizinha, onde o parque nacional polonês de Magusrki, está tendo dificuldade em avançar com um programa de proteção aos lobos. Não há unidade de conservação contígua a Maguski do lado eslovaco da fronteira. Assim, os lobos protegidos em um país atravessam a linha política traçada pelos humanos e vão caçar ovelhas na Eslováquia. Acabam abatidos pelas espingardas dos pastores. Como reconhece Pavol Majko, “não é possível falar em manejo ecossistêmico sem levar em consideração o descompasso legislativo entre os países. Sem coordenação não vamos avançar”.

No momento, está em curso um projeto comum de monitoramento da população de ursos no Maciço. Cientistas estão colocando coleiras com GPS nos animais para monitorar seus movimentos vinte e quatro horas por dia. Entre os objetivos do projeto está mapear o tamanho da área frequentada pelos animais e quão próximo eles vivem ou se aproximam de trilhas e assentamentos humanos. Também há interesse em saber o quanto eles se movimentam através da fronteira. Trata-se de informação importante não apenas do ponto de vista da conservação, mas também do planejamento turístico. Hoje, apesar dos encontros frequentes entre os respectivos diretores, a sinalização, folheteria e mapas de trilhas ainda retratam apenas cada um dos Parques, parecendo ignorar a existência de um único ecossistema que atravessa as fronteiras nacionais. Na sala da direção do Tratas eslovaco há um enorme mapa do parque nacional. Só retrata o lado da Eslováquia, havendo um grande espaço branco onde deveria figurar o lado da montanha localizado sob a soberania de Varsóvia. Segundo Pavol Majko, desconfianças militares mútuas impediram durante anos a elaboração de um mapa único com a mesma base de dados.

Agora é objetivo de ambos os Parques resolver esse problema e, em cima do novo mapa, fazer um planejamento integrado da malha de trilhas, direcionando o turismo para áreas onde provocará menos impacto. Para isso é importante reconhecer que, embora Tatras seja composto por dois parques nacionais submetidos a legislações e soberanias diferentes, para a Natureza e os ursos, é apenas uma única montanha. Caso não haja planejamento coordenado qualquer esforço para salvar os ursos poderá ser vão.

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1 Em 1992, ambos os parques foram designados conjuntamente como Reserva da Biosfera.
2 Christian du Saussay. Transfrontier Parks. Unasylva: An International Review of Forestry and Forest Products. Roma: FAO, vol. 32 nº 127, 1980.

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