A escassez de água no semiárido impulsiona a busca por alternativas para conter impactos da seca em comunidades rurais. No interior da Paraíba, uma tecnologia de dessalinização movida à energia solar amplia o acesso à água potável e transforma a rotina de famílias afetadas pela escassez de abastecimento.
Nas comunidades rurais de Queimadas, município da região de Campina Grande, a escassez de água sempre foi muito mais do que gráficos em relatórios oficiais. O acesso à água sempre exigiu esforço coletivo. Famílias inteiras percorriam longas distâncias sob o sol forte para garantir o mínimo necessário à sobrevivência.
Em muitos casos, eram quilômetros de caminhada até açudes, barreiros e cacimbas – reservatórios escavados na terra ou em leitos de rios secos para obter água –, onde o recurso nem sempre era adequado ao consumo.
“Aqui o sofrimento era grande, porque a gente carregava água de longe”, lembra Severina Marinho, moradora da zona rural de Queimadas. “A gente saía cedinho de casa, umas 5h da manhã, e chegava horas depois com uma água com gostinho de terra, mas estamos aqui vivos, né?”.
Essa realidade era compartilhada entre vizinhos, parentes e gerações inteiras. Conforme o agricultor Severino de Sousa, também de Queimadas, eram até 4h de viagem para pegar água, de muito longe. “A gente ficava em dúvida, sem saber o que ia fazer. Se ia estudar, se ia pra roça. Era aquela correria”, lembra.
Foi nesse contexto que cresceu Wanderley Silva, hoje doutorando na linha de pesquisa em dessalinização solar na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Sua trajetória mistura vivência pessoal e atuação profissional.

O envolvimento de Silva com o tema começou ainda em 2013, quando ingressou no curso de Agroecologia, em Lagoa Seca, na Região Metropolitana de Campina Grande, e passou a integrar iniciativas voltadas à convivência com o semiárido.
Mesmo após a conclusão da graduação, em 2017, o pesquisador manteve o vínculo com o projeto e ampliou sua atuação ao entrar na associação dos profissionais em agroecologia, com o objetivo de captar incentivos públicos e privados para expandir a construção de dessalinizadores.
A estratégia deu resultado. Com recursos obtidos junto ao Instituto Federal da Paraíba (IFPB), foram construídas 35 unidades. Já, por meio de editais bancários, foram viabilizadas 70 unidades em Caraúbas e outras 50 em sítios de Santa Luzia. Além disso, o grupo passou a ser contratado por empresas privadas.

A partir da iniciativa, a região onde mora a família de Wanderley começou a experimentar mudanças concretas em seu cotidiano. O que antes era marcado pela incerteza quanto ao acesso à água passou gradualmente a incorporar uma alternativa mais segura e acessível.
“Agora mudou muito. Meu filho, junto com o pessoal da universidade, trouxeram esse projeto para cá e facilitou muito a vida da gente”, afirma Luiza, mãe de Wanderley. “Esse projeto é para a comunidade. Se por acaso precisarem, está aí a água para eles usarem”.
O equipamento utiliza a energia solar para transformar água salobra em água potável por meio de um processo de destilação simples e eficiente. Na prática, o calor do sol aquece e evapora a água. Em seguida, o vapor se condensa em uma superfície de vidro, e a água é coletada, livre de sal e impurezas, pronta para o consumo.

Alçando voo
A experiência em Queimadas não ficou isolada. A tecnologia já alcançou mais de 200 famílias em municípios paraibanos como Remígio, São Vicente do Seridó, Cubatí, Pedra Lavrada, Caraúbas, Monteiro, Camalaú, Santa Luzia, Soledade, Cuité, Campina Grande e Caturité.
Mesmo com o aumento no custo de produção, que passou de cerca de R$ 3 mil para até R$ 5 mil por unidade, o equipamento ainda é mais acessível do que alternativas, como sistemas de “osmose reversa”, outro processo de filtragem de água, que podem chegar a R$ 50 mil.
O projeto também ultrapassou as fronteiras da Paraíba e passou a alcançar outras regiões do Nordeste. Em estados como Ceará e Pernambuco, Silva e outros estudantes passaram a atuar diretamente na capacitação de comunidades, compartilhando o conhecimento adquirido no desenvolvimento do dessalinizador.
Mais do que levar o equipamento pronto, a proposta se baseia na formação prática dos moradores, que aprendem não apenas a construir, mas também a realizar a manutenção do sistema, garantindo seu funcionamento contínuo.
Um dos territórios que receberam a capacitação foi uma comunidade quilombola no município de Capoeiras, onde essa abordagem já começa a apresentar resultados concretos no cotidiano dos moradores.
A extensionista Célia Holanda, do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), que acompanha a implementação do projeto na região, destaca que a escolha do local não foi aleatória, mas sim baseada na urgência da situação enfrentada pelos moradores. “A necessidade de água determinou a localização do dessalinizador”.
Ela também chama a atenção para o contexto mais amplo dessas comunidades, frequentemente marcadas pela ausência de políticas públicas estruturantes. Ainda assim, ressalta a capacidade de adaptação local.
“É uma região que naturalmente tem uma carência especial de políticas públicas e de atenção em geral, mas, mesmo sem tantos fomentos externos, consegue encontrar formas de se desenvolver e se adaptar.”

Caminho das pedras
Apesar da aparente simplicidade, o desenvolvimento do dessalinizador exigiu uma série de testes e adaptações até alcançar um modelo funcional e durável para as condições do semiárido.
“Passamos por várias técnicas e materiais até chegarmos ao modelo atual. Usamos vidro, lona e cimento, pois o alumínio e o cimento que usávamos inicialmente eram corroídos pelo sal”, explica Wanderley.
Ao longo desse processo, o conhecimento técnico se somou ao saber popular. A contribuição de um agricultor local, que sugeriu o uso da lona, foi fundamental para aprimorar o equipamento, tornando-o mais resistente às condições climáticas e mais eficiente no dia a dia das famílias que passaram a utilizá-lo.
Hoje, a casa da família de Wanderley deixou de ser apenas uma residência e passou a ser um ponto de referência na comunidade. Mais do que o acesso à água em si, o local passou a simbolizar uma mudança concreta na vida das pessoas ao redor, hoje, possibilitadas a viver com menos incertezas.
A presença do dessalinizador alterou rotinas, reduziu esforços e deu um novo significado a algo antes escasso e difícil de obter.
“Agora a gente está usando água dessalinizada. Ela vem do poço, tira o sal nas casinhas, aí desce para a caixa para a gente beber”, relata Luiza. A percepção da qualidade da água também evidencia essa transformação. “É muito boa, muito boa mesmo, muito docinha, bem docinha mesmo”.
Na prática, o dessalinizador não elimina todos os desafios, mas oferece uma alternativa concreta, especialmente nos períodos de seca mais severa.
“No verão, é a água dele que salva”, resume Marinho. A manutenção é simples e acessível, o que garante autonomia às famílias. “Limpa só o chão mesmo, porque as casinhas e as lonas quem limpa é meu filho. Depois, tiro todo o sal e limpo a caixa”, conta.
Escassez disseminada
A previsão da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) para 2026 não é animadora, pois o país deve enfrentar um dos anos mais desafiadores na gestão de seus recursos hídricos.
Isso pode afetar especialmente regiões do Nordeste, em áreas do semiárido historicamente marcadas por longas estiagens onde a escassez de água não é um evento pontual, mas uma condição recorrente que atravessa gerações. Estados como a Paraíba concentram diversos desses territórios, onde a irregularidade das chuvas e a limitação de infraestrutura tornam o acesso à água um desafio constante.
Quando traduzimos os números da escassez para a vida das pessoas, ela deixa de ser apenas estatística. Na prática, isso significa tempo perdido, desgaste físico constante e limitações severas na realização de atividades básicas do dia a dia, como cozinhar, tomar banho ou manter a casa.
Ao longo dos anos, o acesso a políticas públicas voltadas para regiões com dificuldades hídricas nem sempre esteve garantido, nem chegou de forma contínua às populações que mais precisavam. Em muitos períodos, as comunidades rurais ficaram à margem de investimentos estruturantes, dependendo de soluções emergenciais e de iniciativas locais para enfrentar a falta d’água.
No início deste ano, as poucas chuvas agravaram ainda mais esse cenário e levaram 41 municípios paraibanos a adotar racionamento. A medida impactou não apenas o abastecimento doméstico, mas também as atividades econômicas essenciais à sobrevivência de muitas famílias.
Dados da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa) revelam a dimensão do problema. Cerca de 100 dos 132 açudes monitorados no estado operavam com menos da metade da capacidade. Desses, 9 já estavam secos, enquanto outros 39 atingiam níveis considerados críticos, com menos de 10% do volume total.
Nesse contexto e em regiões onde a água sempre esteve associada à espera, ao esforço e à incerteza, o dessalinizador solar passou a alterar o cotidiano das famílias. A tecnologia não elimina todos os desafios da seca, mas oferece a possibilidade de acessar água potável perto de casa, algo que, por muito tempo, esteve distante de muitas pessoas.
Esta reportagem foi produzida através da Bolsa Reportagem Vandré Fonseca de Jornalismo Ambiental, concedida pelo ((o))eco com apoio da Fundação Amazônia Sustentável e Fundação Grupo Boticário.
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