Análises

Nigéria x Argentina: sustentabilidade aos olhos de 2 jornalistas

As paixões nacionalistas, incluindo a sagrada seleção de futebol, ficam para trás quando o que está em jogo é o futuro do planeta

Armsfree Ajanaku ·
29 de junho de 2012 · 14 anos atrás
Arte: Paulo André Vieira.

“Eu acho que você é meu companheiro de quarto”, disse Lucas Viano.

Sua voz era amigável e confiante. Mas assim que ele me disse que era da Argentina, lembranças desagradáveis ​​inundaram minha mente. Eram lembranças de partidas de futebol perdidas, todas religiosamente assistidas na Nigéria, de onde eu venho.

Em Lucas, vi os rostos de grandes jogadores argentinos, incluindo o lendário Diego Armando Maradona e o inimitável Lionel Messi. Estes nomes fizeram os nigerianos perderem noites de sono, e chorarem sempre que a equipe nigeriana, conhecida como as Super Águias, enfrentou os argentinos na Copa do Mundo. A rivalidade de futebol entre a Nigéria e Argentina é tão feroz que às vezes beira a inimizade.




Entretanto,  no Rio de Janeiro, onde a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável ocorreu, Lucas e eu colocamos a rivalidade de lado para nos concentrarmos nas questões do desenvolvimento sustentável. Cobrindo a conferência como jornalistas da bolsa Internews/O Eco, nós dividimos um quarto em um hotel no Centro do Rio. Isso implicou que tínhamos de nos entender para tornar a estadia agradável.

Nossa relação correu bem e acompanhamos e escrevemos sobre a Rio+20 no contexto de nossas próprias angústias. Embora, como jornalistas, devêssemos ser neutros e objetivos nas nossas matérias, éramos sobrepujados pelo sentimento de que a cúpula era sobre nós e nosso planeta. Como tal, seguimos as negociações com ceticismo e com a percepção de que os políticos não seriam capazes de acordar sobre “o futuro que precisamos”.

Nossos temores se confirmaram quando surgiu o documento final  fraco e aguado. Era, porém, aquele que permitiu os negociadores baterem o martelo. Vimos como os representantes das mulheres, crianças e jovens, bem como os grupos da sociedade civil se opuseram ao documento. Estava ali o sentimento de que a diplomacia multilateral tornou-se o cemitério das grandes esperanças. Aceitando-se a argumentação que a delegação brasileira usou para angariar apoio ao texto, a conclusão é de que os políticos sentados na sala de negociação foram vítimas das expectativas do resto do mundo.

“Através dele aprendi que, na Argentina, a última rodada de expansão da soja avançou sobre mais terras agricultáveis, e que há metas agressivas para continuar a expandir a área de cultivo em função da demanda de exportações para a China.”

Lucas me contou, com medo nos olhos, sobre o problema duplo da poluição e do desmatamento urbano que a Argentina enfrenta. Através dele aprendi que, na Argentina, a última rodada de expansão da soja avançou sobre mais terras agricultáveis, e que há metas agressivas para continuar a expandir a área de cultivo em função da demanda de exportações para a China. Fui informado que esse movimento tem impactos extensos sobre o meio ambiente.

“O desmatamento no meu país é pior do que o desmatamento na Amazônia porque a Argentina é um país agrícola e, por isso, o desmatamento causa mais dano. Não vi nada sobre o assunto no texto da Rio +20”, disse ele.

Seus lamentos sobre o desmatamento ressaltam as semelhanças entre Argentina e Nigéria neste problema específico. Na Nigéria, mais de 70% da cobertura florestal desapareceu. Vazamentos de petróleo devastadores combinados a horrendos incêndios em poços de gás deixaram, especialmente no Delta do Níger, o meio ambiente em um estado lastimável. De novo, errei ao pensar que era só na Nigéria que maus políticos conspiraram para destruir o “futuro que queremos”.

“Os políticos do meu país,  acredito, quase todos, não se preocupam com questões ambientais”, angustiou-se meu colega argentino. “Mas acredito que as pessoas na Argentina se importam com o meio ambiente. Ano após ano, a pressão dos argentinos está obrigando os políticos a tomarem decisões para proteger a natureza”, continuou.

Por outro lado, houve uma percepção de que um progresso fenomenal aconteceu fora das salas da travada negociação oficial. Mesmo os críticos mais ferozes das ONGs e de movimentos da sociedade civil conseguiram respirar um ar fresco e otimista. Eles lembraram que havia um consolo, a Rio +20 deveria ser vista como uma reunião de pessoas, onde, através de comunidades e empresas, um grande número de compromissos voluntários foi gerado. Eles serão monitorados para garantir que se realizem.

“Na Nigéria, mais de 70% da cobertura florestal desapareceu.”

Também aos olhos de Lucas, a maior parte do que foi triunfo não teve nada a ver com as 49 páginas de intenções opacas do texto oficial.

“Nas reuniões paralelas, prefeitos das cidades [da Argentina] estão prometendo melhorar os sistemas de transporte para aumentar a eficiência no uso de energia, e também no tratamento de lixo… Tudo isso está acontecendo fora do conferência principal”.  Ele disse que o setor privado e os governos de cidades e províncias estão mais interessados, estão mostrando mais vontade e coragem para lidar com os problemas que o planeta enfrenta.

Enquanto nos preparávamos para deixar a Rio+20, desejei o melhor ao Lucas e à Argentina na exploração dos caminhos para inventar o futuro que seu país precisa. Cheguei a esquecer de falar da vitória da Nigéria sobre a Argentina, em 1996, nas Olimpíadas de Atlanta. Rezei fervorosamente para que a humanidade reúna a coragem para superar os perigos enfrentados pelo planeta Terra.

 

A página (o)eco Rio+20
http://www.oeco.com.br/rio20

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