Análises

Quando leões búlgaros, siberianos e mexicanos caminhavam pela Terra

Pensamos no leão como bicho africano. Na verdade, esta é a região onde o homem não o exterminou, pois seu reino já foi muito mais extenso.

Fabio Olmos ·
5 de novembro de 2013 · 8 anos atrás

Um grupo de leoas ruma para um pântano da área de Ndutu, na Tanzânia, onde irão emboscar seu jantar.
Um grupo de leoas ruma para um pântano da área de Ndutu, na Tanzânia, onde irão emboscar seu jantar.

Há não muito tempo a cena desta foto podia ser vista na Espanha, na Grécia, na Turquia, na Palestina, toda a região que hoje chamamos Oriente Médio, no Paquistão e boa parte da Índia. E se recuássemos uns poucos milhares de anos, também veríamos leões em boa parte da Europa, Ásia, e na América, do Alasca até o México e, parece, o Peru. Além, é claro, da África.


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Os fósseis mais antigos de leões foram encontrados na África, onde a espécie surgiu entre 1 milhão e 800 mil anos atrás. Leões emigraram para os continentes vizinhos e Panthera leo fossilis é o primeiro leão registrado na Europa, onde foi encontrado em sítios italianos datando de 700 mil anos atrás. Este é o leão ancestral do qual evoluiu o famoso leão das cavernas P. leo spelaea e o leão americano P. leo atrox, linhagens irmãs distintas daquela dos leões que ficaram na África.

Restos do leão das cavernas são encontrados da Península Ibérica e Ilhas Britânicas à Alemanha, Sibéria, Yakutia e Turkestão. Leões aparecem em esculturas de 40 mil anos encontradas na Alemanha e em pinturas rupestres espetaculares, como as da espetacular caverna de Chauvet, que têm 32 mil anos. Estas mostram leões que não tinham jubas (como acontece com algumas populações africanas) e caçavam em grupos.

Leões das cavernas eram no mínimo tão grandes quanto os maiores leões atuais (que chegam a 250 kg, embora um comedor de homens sul-africano tenha chegado a 315 kg). Considera-se que os leões das cavernas eram 8-10% maiores que os maiores leões atuais, e análises isotópicas de exemplares europeus mostram que se alimentavam basicamente de renas e filhotes de ursos.

Uma população de P. l. spelaea colonizou o que é hoje o Yukon e o Alasca, já na América, onde persistiu até 11.900 anos atrás. Dados genéticos sugerem que leões eurasiáticos deram origem ao leão americano, pois os que foram “fazer” a América acabaram isolados pelo avanço das geleiras durante a penúltima glaciação (cerca de 300 mil anos atrás).

Estes gatos da idade do gelo eram 20-25% maiores que a média dos leões atuais, pesando 250 a 350 kg e atingindo 1,2 metros nos ombros. Eles surgem no registro fóssil ao sul do Alasca a partir de 125 mil anos, ocorrendo em praticamente toda a América do Norte (a parte que não estava sob as geleiras) até Chiapas, no México. O fóssil mais recente de leão americano, proveniente de Edmonton (Canadá) foi datado de 11.300 anos atrás. Fósseis de Talara, no noroeste do Peru, talvez representem uma população sul-americana de leões.

No início do Holoceno (que começou há 11.700 anos) ainda havia populações de leões no norte da Espanha, na Ucrânia e sudeste da Europa. Heródoto, o pai da História, informa que em 480 AC, durante a guerra entre persas e gregos (retratada de forma nada realista no filme 300), leões atacavam os camelos das caravanas de abastecimento do exército persa “nunca molestando nem as pessoas ou qualquer outro animal”. Ele ainda diz que esta região da Trácia (hoje Bulgária) era a única onde leões sobreviviam e que ali também viviam os gigantescos auroques, os ancestrais do nanico gado doméstico. Leões caçando auroques deveriam proporcionar um show à parte.

Os leões não duraram muito na Europa depois disso (os auroques sobreviveram na Polônia até 1627), Aristóteles, em 300 AC, dizia que eram raros e pelo ano 100 AC estavam extintos. A última população de leões mais ou menos europeus sobreviveu no Cáucaso até o século 10.

Os dados genéticos mostram que os leões africanos e asiáticos divergiram entre si há cerca de 200 mil anos, menos tempo do que os leões das cavernas e os americanos, e, parece, não há uma conexão genética forte entre os grandes leões da idade do gelo e os leões da África e do sul da Ásia. Claro que novos dados podem mudar isso.

Os leões asiáticos são considerados uma forma distinta (Panthera leo persica), tanto morfológica quanto genética. São os leões retratados por sucessivas civilizações no Crescente Fértil e que aparecem em mitos caros à nossa cultura, originalmente ocorrendo da Turquia e Palestina ao norte da Índia.

Extinção pela mão humana

“Leões, onças-pintadas e outros grandes predadores que estão em permanente conflito com a segurança de humanos e seu precioso gado dependem de grandes áreas protegidas, públicas ou privadas, para sua sobrevivência.”
 
 

Leões foram extintos na Palestina durante a Idade Média; os que viviam na Turquia e Síria sobreviveram até o século 19, talvez mesmo início do século 20. Os últimos leões que viviam no Irã foram mortos em 1963. Os leões que viviam no norte e centro da Índia foram quase eliminados no final do século 19 por britânicos coloniais e nobres locais sedentos de sangue, o P. leo persica só sobrevivendo até os dias de hoje porquê o então Nawab de Junagarh salvou os últimos 12 exemplares na sua reserva privada, que mais tarde se tornou o Parque Nacional Gir, em Gujarat.

A população sobrevivente cresceu para 411 em 2010 graças a medidas de conservação que incluíram a remoção de vilas inteiras de povos nativos que mantinham seu gado na reserva. No Brasil provavelmente transformariam o parque nacional em APA ou reserva extrativista e o leão estaria extinto. No entanto a situação está longe de ser positiva e leões continuam a morrer afogados em poços, eletrocutados e envenenados, já que o parque é pequeno e mais de 100 gatos vivem fora dele em uma região cheia de gente. Um projeto de translocação visando estabelecer uma segunda população no Palpur-Kuno Wildlife Sanctuary em Madhya Pradesh foi proposto há muito tempo e o local foi objeto de reintroduções de espécies-presa e remoção de pessoas para que pudesse receber os leões.

O governo de Gujarat, numa mostra de bairrismo estúpido, resistiu o quanto pôde ao envio de leões para outro estado e foi necessária uma ordem da Suprema Corte indiana em abril de 2013 para que o projeto desatolasse, mas, até agora, nenhum leão mudou de estado.

Talvez devêssemos apelar ao Supremo Tribunal Federal para que os planos de conservação de espécies ameaçadas produzidos pelo ICMBio sejam implementados para valer.

Além do leão asiático, há outras 7 formas reconhecidas de leões africanos, todas identificadas a partir de marcadores genéticos. Muitas estão em situação precária. Os grandes leões do norte da África, entre o Marrocos e o Egito (“leões da Barbária”), são geneticamente mais próximos dos asiáticos do que seus primos do sul, mas só sobrevivem em cativeiro. Os leões da África Ocidental sobrevivem em populações isoladas, algumas minúsculas, em poucos parques.

Na verdade a situação do rei dos animais é muito ruim. De talvez 400 mil leões vivendo na África em 1950, hoje se estima que restem 37 mil gatos em 67 populações que ocupam 17% da sua distribuição histórica. De grande mamífero com maior distribuição depois de Homo sapiens, hoje, o Panthera leo é uma espécie vulnerável à extinção.

As causas desse declínio desastroso são evidentes. Há gente demais que compete com os leões (e outros predadores) por comida e espaço, que os matam por razões culturais muito discutíveis (como “iniciações de guerreiros, amuletos e “remédios”) e que têm cães que transmitem doenças como a cinomose. Uma visita a países como a Nigéria, onde a população quadruplicou em 50 anos ou a Tanzânia, onde áreas naturais são ocupadas por uma população crescente de pastores e seu gado, que matam qualquer predador que apareça, mostram que o futuro dos leões é precário.

Humanos sempre foram má notícia para os leões. Não há muita dúvida sobre o que exterminou os leões europeus, asiáticos e africanos, ao mesmo tempo a mão humana pode perfeitamente estar implicada no fim do leão das cavernas eurasiático e do leão americano. Afinal, eles sobreviveram a várias transições climáticas violentas, só sumindo depois que nós nos tornamos evidentes no registro arqueológico.

Leões, onças-pintadas e outros grandes predadores que estão em permanente conflito com a segurança de humanos e seu precioso gado dependem de grandes áreas protegidas, públicas ou privadas, para sua sobrevivência. Não há futuro para esses grandes predadores fora das unidades de conservação, pois são incapazes de conviver com agrupamentos humanos e exatamente por isso tornam o mundo muito mais interessante. A opção são os museus e os zoológicos de um mundo domesticado.

 

 

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  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia.

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