Análises

Situação política e interesses estrangeiros ameaçam o Guaíba, no Rio Grande do Sul

Nova fábrica de celulose que poderá agravar a poluição do Guaíba (RS) tem a simpatia de políticos gaúchos de vários partidos

Joel Henrique Ellwanger ·
26 de junho de 2026

O rio Guaíba ficou conhecido em todo o Brasil durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul (RS) em 2024. O Guaíba foi o receptor das cheias provenientes dos rios de sua bacia hidrográfica, e a elevação de seu nível contribuiu para as inundações de Porto Alegre, causando o caos socioambiental amplamente registrado pela mídia nacional e internacional.

O Guaíba recebe a água de outros importantes rios do RS, como o Jacuí, Caí, Gravataí, Taquari-Antas e o dos Sinos. A partir dessa confluência, a água segue para a Laguna dos Patos e, posteriormente, deságua no oceano Atlântico. Esse fluxo complexo faz com que esse corpo hídrico receba poluentes aquáticos, como os resíduos de pesticidas, das mais diversas regiões do estado produtoras de monoculturas como soja, arroz e tabaco. 

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Outro importante fator que contribui para a poluição do Guaíba é o descarte de efluentes não tratados provenientes de Porto Alegre, uma capital com população estimada em 1,39 milhão de habitantes e que trata apenas 60% de seu esgoto doméstico. A fábrica CMPC Celulose Riograndense, instalada à beira do Guaíba, no município de mesmo nome, também libera diariamente 154,4 milhões de litros de efluentes no rio. Além da contaminação por poluentes orgânicos e pesticidas, o Guaíba já apresentou quantidades significativas de metais tóxicos, microplásticos e resíduos de medicamentos.

A poluição do Guaíba é alarmante, contrastando com a bela paisagem que o rio proporciona a Porto Alegre por meio de sua orla amplamente frequentada para atividades turísticas e de recreação, principalmente aos finais de semana. É possível que muitos frequentadores da orla do Guaíba, incluindo pescadores artesanais, pouco saibam sobre a péssima qualidade de sua água.

O Rio Guaíba recebe água e poluentes de vários outros rios do Rio Grande do Sul. Na foto à esquerda, é possível ver um curso d’água da bacia hidrográfica do Guaíba rodeado por extensas áreas de monocultura, uma importante fonte de poluição dos rios gaúchos. A foto à direita mostra a integração do Guaíba com a cidade de Porto Alegre, além de parcela de algumas de suas ilhas. O Guaíba recebe parte dos efluentes gerados pela Região Metropolitana de Porto Alegre e também é utilizado para captação de água destinada ao abastecimento público. Fotos: Alexandre Copês.

Durante a semana, a orla do Guaíba é amplamente utilizada pela população de Porto Alegre para atividades físicas e de recreação. Durante os finais de semana, o local se torna um importante ponto turístico para observação do pôr do sol, atividades gastronômicas, culturais e passeios de barco. É provável que uma parcela significativa dos frequentadores da orla do Guaíba desconheça a gravidade da poluição ambiental que ocorre no local.

Também é provável que grande parte da população da região metropolitana de Porto Alegre se surpreenda ao saber que a água distribuída para consumo humano é captada no Guaíba, o mesmo corpo d’água no qual grande parte do esgoto urbano é descartado sem tratamento. É importante ressaltar que as técnicas de tratamento utilizadas para tornar a água segura do ponto de vista físico, químico e biológico não têm capacidade de remover completamente muitos poluentes emergentes, como resíduos de medicamentos e pesticidas. Os impactos crônicos das misturas desses resíduos sobre a saúde humana são difíceis de avaliar. 

A fauna que tem o Guaíba como habitat também sofre impactos negativos provenientes da poluição. Um robusto conjunto de evidências científicas indica que poluentes químicos como metais e pesticidas causam prejuízos para o comportamento e reprodução de aves, peixes e outros grupos faunísticos. Como consequência, a poluição desse sistema aquático contribui para a perda da biodiversidade da região. Além da poluição química, o acúmulo de lixo plástico na orla do Guaíba prejudica diferentes espécies, além de comprometer a qualidade estética do local, impactando também o turismo e o bem viver. 

Pouco tem sido feito pelo poder público para melhorar a qualidade da água do Guaíba e reduzir a poluição. A deficiência no tratamento de esgoto em Porto Alegre agrava-se a cada ano e outras fontes poluidoras crescem na medida em que o mercado imobiliário aumenta a quantidade de projetos no entorno do Guaíba. Essa situação já preocupante pode ficar ainda pior. 

Um novo projeto da empresa chilena CMPC (Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões), a mesma responsável pela Celulose Riograndense, já em operação, tem o potencial de piorar significativamente a poluição do Guaíba. Em resumo, esse corpo hídrico já recebe pressões simultâneas da agricultura, do saneamento precário e da atividade industrial, situação que poderá se agravar com novos empreendimentos.

Ironia e conivência: o Projeto Natureza e o alinhamento dos políticos gaúchos aos interesses do capital estrangeiro

Na avaliação de diversos grupos ambientalistas, uma das maiores ameaças para a qualidade da água do Guaíba atende ironicamente pelo nome de “Projeto Natureza”, da CMPC, que pretende expandir suas operações no RS com a instalação de uma nova fábrica no município de Barra do Ribeiro. O investimento nesta fábrica está estimado em R$ 27 bilhões e prevê o descarte diário de 242 milhões de litros de rejeitos no Guaíba, que representa uma quantidade de efluentes acima daquela despejada no mesmo corpo d’água por toda a população de Porto Alegre. 

Se o empreendimento se concretizar, o Guaíba receberá diariamente cargas adicionais de fósforo, nitrogênio amoniacal e outros compostos químicos associados à produção de celulose, ampliando a pressão sobre um sistema aquático que já sofre com múltiplas fontes de poluição. Mais do que agravar a poluição do rio, a expansão da produção de celulose no estado poderá aumentar os “desertos verdes” formados pela silvicultura que toma cada vez mais espaço do bioma Pampa. 

Os possíveis impactos do projeto também têm repercussões no debate político gaúcho. Além de ser amplamente criticado por parcelas da sociedade civil, comunidades tradicionais e Indígenas, acadêmicos e organizações ambientalistas do RS, o licenciamento ambiental do Projeto Natureza está sendo questionado pelo Ministério Público Federal

Na direção oposta, conforme recentemente documentado pelo jornal Sul21, o atual governador do RS, Eduardo Leite (PSD), e os principais pré-candidatos ao governo do Estado, Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB), Marcelo Maranata (PSDB) e Juliana Brizola (PDT), apoiada por PT, PSOL e outros partidos do campo progressista, manifestaram posicionamentos favoráveis ao empreendimento. Rejane Oliveira, do PSTU, é contra o projeto. Na esfera municipal, o prefeito de Barra do Ribeiro também apontou apoio ao projeto.

O discurso do “desenvolvimento econômico associado à sustentabilidade” é novamente usado pelos pré-candidatos favoráveis ao projeto como desculpa para colocar o capital à frente da preservação ambiental e da qualidade de vida atrelada a uma existência em um ambiente equilibrado. Esse discurso minimiza evidências científicas sobre os impactos ambientais da expansão da produção de celulose. No RS, assim como na esfera federal, o poder público coloca-se cada vez mais submisso aos interesses dos grandes empresários e das mega indústrias.

Até quando o Guaíba aguenta o atual modelo de desenvolvimento?

A atual conivência do poder público e pré-candidatos ao governo do RS com o Projeto Natureza indica um forte alinhamento a um modelo de desenvolvimento ultrapassado e capitalista, que não respeita os limites ecológicos do ambiente local e planetário. Além disso, a concepção de que o Guaíba suporta receber uma carga crescente de poluentes está errada. 

A preocupação com prejuízos cada vez maiores para os animais que vivem no Guaíba e com a qualidade da água distribuída para a população da região metropolitana de Porto Alegre deve se sobrepor aos interesses estrangeiros de empresas como a CMPC. A saúde humana, animal e ambiental deve ser o maior interesse da população gaúcha e é responsabilidade do Estado garantir que esse direito seja atendido de forma soberana por meio da geração de empregos e oportunidades que não degradem o meio ambiente.

A população do RS deve pressionar os políticos para que a proteção do Guaíba e a preservação da qualidade da água se tornem prioridades efetivas. A atual crise ecológica evidencia os limites do capitalismo como modelo de organização social e reforça a necessidade de buscar alternativas mais compatíveis com a preservação ambiental.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Joel Henrique Ellwanger

    Biólogo, nutricionista, doutor em ciências e pesquisador em nível de pós-doutorado no Departamento de Genética da UFRGS.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
14 de maio de 2019

Grupo protesta contra instalação de mina de carvão próxima a Porto Alegre

Manifestantes protestam contra projeto de instalação de uma mina a céu aberto às margens do rio Jacuí, entre os municípios de Eldorado do Sul e Charqueadas, na Região Metropolitana

Reportagens
14 de fevereiro de 2021

Porto Alegre flexibiliza legislação ambiental e aprova licenciamento por adesão

Câmara dos Vereadores permitiu a flexibilização do licenciamento e do plano diretor para permitir construção em área ambientalmente sensível na capital gaúcha

Salada Verde
4 de dezembro de 2023

Crise climática e futuro das cidades são pauta de festival em Porto Alegre

Festival Cidade das Ideias promovido pelo Matinal vai reunir especialistas para abordar o papel da cidade no combate às mudanças climáticas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.