Há pouco mais de dois anos, o estado do Rio Grande do Sul era abatido por eventos climáticos sem precedentes. As enchentes que atingiram o Vale do Taquari entre 2023 e 2024 afetaram cerca de 95% das cidades gaúchas, e mais de 80 mil casas foram destruídas.
A partir da tragédia climática experimentada pelo estado, pesquisadores brasileiros fundamentaram novo conceito para áreas de destruição extrema em casos de enchentes. Formalizado enquanto Zona de Arraste, esta nova categoria de análise seria utilizada para identificar setores onde a força da natureza transforma uma inundação em um fenômeno de alta capacidade destrutiva.
A proposta foi apresentada em uma Nota Técnica disponível online. O trabalho é assinado por cientistas vinculados à Universidade do Vale do Taquari (Univates), à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
De acordo com os autores, a ideia de uma nova categorização surgiu da necessidade de compreender um fenômeno que se repetiu em diferentes municípios atingidos pelas enchentes. Durante os levantamentos de campo realizados após os desastres, a equipe observou que áreas submetidas ao mesmo evento hidrológico apresentavam consequências distintas.
Os pesquisadores recordam que em algumas localidades, a água avançava sobre ruas e edificações, o que provocou danos materiais e interrupções temporárias das atividades urbanas. Já em outros pontos, a correnteza possuía energia suficiente para arrancar casas de suas fundações, destruir pontes, remover pavimentações, provocar erosão intensa das margens e alterar permanentemente a configuração da paisagem.
A necessidade de apresentar uma nova categoria surge a partir do entendimento de que apenas o volume de água não seria capaz de explicar o impacto das enchentes. Assim, a Zona de Arraste é definida como o subconjunto das áreas inundáveis onde a energia hidráulica alcança níveis capazes de produzir erosão severa, destruição estrutural, deslocamento de edificações, fragmentação da paisagem e elevado risco à vida humana.
Os pesquisadores observam, entretanto, que a formalização da Zona de Arraste representa apenas uma etapa inicial de um processo mais amplo de consolidação científica. Novos estudos estão em desenvolvimento para aprofundar os critérios de delimitação da categoria, incluindo modelagem hidrodinâmica bidimensional, validações estatísticas, análises quantitativas e aperfeiçoamento dos parâmetros operacionais utilizados nos mapeamentos.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Da crítica ao modelo de desenvolvimento às enchentes no Rio Grande do Sul
Desde 1971, Francisco Milanez milita na Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural e dela retira a explicação para a mudança no clima que ainda vitima seu estado →
Chuvas no Rio Grande do Sul: o que as águas barrentas que tudo arrastam sinalizam?
Perda de vegetação nativa, desmonte de políticas públicas ambientais e crise climática potencializam os efeitos das enchentes e colocam em xeque o modelo de desenvolvimento gaúcho →
“A conta chegou. E não chega só no Rio Grande do Sul”, crava ambientalista
Em conversa sobre o Pampa, Juliano Bueno falou sobre o desafio de conservação em um estado quase todo antropizado. Discussão sobre biomas marcou 2º dia do seminário organizado pelo IDS →
