Em outras terras, ou aqui mesmo, mas em outros tempos, é provável que documentaristas e telejornais estivessem agora metidos numa disputa pelo direito de mostrar em primeira mão a história que a catarinense Miriam Prochnow tem para contar. Mas, sendo o país o que é neste momento, foi ela mesma que apurou, escreveu, narrou, legendou e musicou pessoalmente os 14 minutos do filme “Barra Grande”.
E assim está mais uma vez em cartaz aquela hidrelétrica que cravou no rio Pelotas uma barragem com 190 metros de altura, com um relatório de impacto ambiental onde se omitia o estrago que a represa faria em florestas de araucária e campos naturais, na fronteira do Rio Grande do Sul. A novela tem saído neste site desde setembro quando a fraude, levada à Justiça pela própria Miriam e outras ONGs ambientais, veio à tona.
E ainda não tem fim à vista, graças à sua teimosia. Além do filme, Miriam Prochnow lança esta semana oito mil exemplares de um livro de 130 páginas sobre a usina de Barra Grande, com notícias e documentos sobre o processo – inclusive a reprodução de artigos e reportagens publicadas em O Eco, modéstia à parte. Vem a tempo de pegar a reunião, marcada para esta semana, em que o Ibama, o Ministério Público Federal, o Ministério do Meio Ambiente e o das Minas e Energia fazem nova rodada de discussões sobre a licença de operação da hidelétrica.
Com ela, começa de uma vez por todas o alagamento “das últimas e preciosas manchas de mata de araucária na região”, diz o vídeo . E daí? Daí que, quando isso acontecer, se acontecer, ao longo de 100 quilômetros do rio Pelotas irá por água abaixo “um vale verde, muito verde”, encaixado entre os dois estados. Nesse caso, como os meios de comunicação deram pouca trela a essa história toda, serão raridades iconográficas as imagens desse documentário amador, fotografado por um cinegrafista que meses atrás foi apanhado em casa no interior de Santa Catarina, posto com câmera e tudo no banco traseiro de um Corsa cheio de gente e levado às pressas para registrar o vôo de helicóptero que avaliou as terras condenadas pela represa. Ali estão provavelmente as únicas lembranças de uma paisagem rara, quase extinta no país, onde está confinada a 2% do território nacional. Os brasileiros estão perdendo a mata de araucária sem exercer sequer o direito de se despedir dela antes do fim.
Só isso bastaria para tornar recomendável, senão obrigatória, a exibição do vídeo de Miriam Prochnow numa grande emissora de TV. Ele não deixa de ser um filme de catástrofe. Mas ninguém espere prodígios técnicos nem efeitos especiais dessa produção da Apremavi, a ONG de Miriam Prochnow, nascida de um pacto ambiental com pequenos agricultores da serra catarinense e instalada numa casa de madeira no canto do terreno da família. Imperdível, nele, é o trabalho que as grandes emissoras de televisão não quiseram fazer. Por exemplo, descer o rio para ver o que existe em suas bordas. Ou filmar a fauna e a flora da região.
Na sua modéstia, são imagens que um dia talvez sirvam para ilustrar cursos de jornalismo, em aulas sobre o que os meios de comunicação não andavam fazendo em 2005. Sem elas, é conversa fiada dizer que cabe a opinião pública decidir, sabe-se lá em que instância, se prefere a energia elétrica a uma floresta nativa de araucárias. Antes, ela precisa ver o que os engenheiros acharam melhor esconder seis anos atrás no relatório de impacto ambiental, quando tiraram do Ibama a licença para começar a obra. Depois, sim, dá para resolver, como diz Miriam, “se o custo do progresso tem que ser tão alto”.
O vídeo sobre Barra Grande está disponível para download no site da Apremavi, em arquivo .wmv.
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