Reportagens

A grande jornada das aves migratórias – e dos pesquisadores que lutam para conservá-las

Minidocumentário dirigido pelo fotógrafo Adriano Gambarini apresenta trabalho de monitoramento e defesa das aves migratórias que aterrissam no litoral brasileiro

Duda Menegassi ·
23 de julho de 2026

Como uma nuvem com vida própria, um bando de aves executa a coreografia do seu balé aéreo acima da linha da costa antes de aterrissar na areia. O espetáculo coroa o êxito de uma viagem hercúlea que esses habitantes temporários do litoral brasileiro fazem todos os anos entre os hemisférios norte e sul. A chegada dessas aves no país desencadeia outro trabalho, igualmente árduo: o monitoramento, a pesquisa e os esforços de conservação destes animais. Essa dupla missão, no ar e em terra, é a trama que move o minidocumentário “A Grande Jornada”, dirigido pelo fotógrafo de natureza Adriano Gambarini, que apresenta o Projeto Aves Migratórias, realizado pela ONG Aquasis – Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos.

A organização, que atua há 32 anos, nasceu em berço cearense e voltada para os peixes-bois-marinhos. Com a atenção já na costa, passou a trabalhar também para garantir a conservação de outros personagens litorâneos ameaçados: as aves migratórias, dando origem ao projeto, em 2003.

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Desde 2010, a ONG faz o anilhamento das aves que aterrissam no litoral do Ceará em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave/ICMBio). O trabalho permite identificar e monitorar as espécies, e mapear sua rota mundo afora, algo essencial para coordenar os esforços de conservação e pesquisa internacionalmente.

Em 2023, com a nova fase do projeto, a Aquasis expandiu sua atuação do nordeste para a margem equatorial brasileira, indo até o Amapá, com foco no Parque Nacional do Cabo Orange, que abriga uma das maiores e bem preservadas faixas de manguezais do Brasil, parada para milhares de aves migratórias anualmente.

Filmar no parque, localizado no município de Oiapoque, no extremo norte do país, foi uma prova da persistência. O fotógrafo teve que superar o desafio de acesso e do clima, e encarar uma logística intensa para documentar as aves em um dos ambientes menos perturbados do litoral brasileiro.

“A equipe do ICMBio e ornitólogos parceiros da Aquasis deram a dica que é, basicamente, ir até lá, encalhar a voadeira e ficar esperando as aves. E na medida em que encalhamos e a maré foi baixando, as aves foram acompanhando e chegaram bem próximas ao barco”, detalha o fotógrafo. 

A estratégia, porém, nem sempre saiu como planejada. “Num dos dias que nós encalhamos, a maré demorou para subir e ficamos umas 16 horas encalhados. Saímos de lá de noite, fomos chegar na cidade às 2 horas da manhã e todo mundo desesperado porque ainda não tínhamos voltado”, lembra.

Durante as filmagens, que ocorreram em fevereiro deste ano, ainda na época de chuvas, Gambarini teve que lidar ainda com tempestades frequentes. “Eu não sabia, por causa das chuvas, se no dia seguinte conseguiria filmar. Tive que trabalhar com três equipamentos ao mesmo tempo e voltar de lá com o máximo de imagens possível”, conta.

O esforço, porém, valeu a pena. A gravação do documentário gerou registros inéditos para o Cabo Orange, com duas espécies de aves fotografadas pela primeira vez no parque nacional: o vira-pedras (Arenaria interpres) e a batuíra-de-bando (Charadrius semipalmatus).

Depois do Amapá, o fotógrafo seguiu direto para o Ceará, mais especificamente para o município de Icapuí, onde está o Banco dos Cajuais. O lugar é um dos principais pontos de parada para as aves migratórias, parte da Área de Proteção Ambiental (APA) do Manguezal da Barra Grande, e reconhecido como sítio de importância regional da Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (que são as aves costeiras).

O filme reúne imagens de bandos em voo, áreas de alimentação, manguezais, praias, o dia a dia dos pesquisadores, reuniões com o poder público, iniciativas de geração de renda e a realização de atividades educativas nas comunidades que dividem o território com as aves. Se o Cabo Orange mostrava uma área vasta, isolada e pristina, no Ceará a conservação é construída junto ao cotidiano de pescadores, artesãos, comerciantes, estudantes, turistas e gestores municipais.

“Hoje não se faz conservação sem trabalhar com o social. Na verdade, são as comunidades que fazem a conservação; nós atuamos como facilitadores, mas quem de fato conserva são elas”, destaca Rafael Becker, analista de planejamento da Aquasis. Ele explica que as espécies fazem parte do dia a dia das comunidades. Os pescadores, por exemplo, sabem que quando há um grupo de aves reunido no horizonte, é lá que estão os peixes. “E as aves abrem as portas para nos aproximarmos deles e dialogarmos”, complementa.

Para fortalecer esse trabalho comunitário, a organização construiu um centro de visitantes em Icapuí, inaugurado em 2022, onde investe na formação de jovens, na sensibilização de moradores e visitantes, e estimula o turismo de observação de aves.

O centro possui ainda uma lojinha, onde são vendidos produtos feitos por artesãos locais relacionados à fauna nativa. Essa parceria, que dura três anos, já reverteu R$ 65 mil para os artistas locais, detalha Becker. “A única coisa que a gente faz é expor, dar um espaço para eles exporem essas peças, e todo o recurso que entra ali, devolvemos 100% para eles”, acrescenta.

Além disso, a organização desenvolveu o selo “Amigos do Maçarico”, destinado a comerciantes e empreendimentos turísticos que adotam boas práticas ambientais, como o descarte correto do lixo e cuidados com a praia.

Espécies guarda-chuva da costa brasileira

Na rota das aves migratórias que saem de países como Canadá e Estados Unidos, e seguem ao sul, até a Patagônia argentina ou chilena, o Brasil é uma parada estratégica para as aves descansarem e se alimentarem antes de seguir viagem. Por isso, cuidar delas em solo brasileiro e garantir a proteção do habitat que elas necessitam é fundamental.

O curta apresenta aves ameaçadas de extinção, como uma das subespécies do maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus rufa), o maçarico-de-costas-brancas (Limnodromus griseus), o maçarico-rasteirinho (Calidris pusilla) e o maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus).

“São espécies guarda-chuva. Quando a gente trabalha com elas, as outras espécies e o ambiente em que vivem também são conservados”, resume Becker.

Proteger essas aves é uma luta de resistência contra as pressões que ameaçam toda a biodiversidade costeira: expansão urbana, especulação imobiliária, poluição marinha, circulação irrestrita de veículos nas praias, turismo desordenado, construção de salinas, eólicas em terra e offshore, e linhas de transmissão, para citar as principais.

Num litoral tão turístico e cobiçado quanto o cearense, isso exige diálogo e negociação constante com os atores locais. Numa das penínsulas do Banco dos Cajuais, por exemplo, a Aquasis negociou com bugueiros locais e desviou o trajeto dos veículos para evitar que eles atravessassem um dos pontos de nidificação da batuíra-bicuda.  

“Um carro passando ali pode destruir vários ninhos. A ideia não é dizer que nada pode, mas ordenar o uso e encontrar uma rota que permita a atividade sem atravessar a área de reprodução”, explica Becker.

No caso dos parques eólicos e das linhas de transmissão, a equipe reúne dados e dialoga com órgãos fiscalizadores para defender medidas que reduzam riscos de colisão e mantenham corredores de passagem. “É muito difícil, mas, de alguma forma, tentamos minimizar esses impactos”, afirma.

O esforço, porém, não é apenas local, uma vez que essas aves não possuem endereço fixo e dependem de uma colaboração internacional para entendê-las e protegê-las.

“Quando a gente pensa nessas aves migratórias, precisa considerar que estudamos apenas uma parte da jornada delas, aqui no litoral brasileiro. Toda a parte de reprodução ocorre em outros locais e também é muito importante”, afirma o analista da Aquasis. Para isso, a ONG mantém parcerias com outros países, como Estados Unidos, para coleta de dados e monitoramento.

Pesquisadores da Aquasis monitoram todo o litoral do Ceará, com atenção especial para áreas de ninhos de aves. Foto: Adriano Gambarini

As rotas que conectam seres e destinos

A produção do documentário, com 17 minutos de duração, é também um convite para imersão dos espectador nessa migração e nesses personagens sazonais do litoral brasileiro. Em vez do ritmo acelerado das redes sociais, o filme optou por planos mais longos, contemplativos e pelo movimento natural dos bandos. “Quando você vai para uma área dessa pra observar aves, você tem que ficar lá. Como diretor, pude pensar no tempo da natureza: o tempo de olhar, observar e ver a ave em seu comportamento, em seus hábitos e nos movimentos que realiza”, explica Gambarini.

Para o fotógrafo, o trabalho reforça a conexão não apenas entre países e pontos de parada dessas aves ao longo do ano, mas entre todos os seres, desde os pequenos invertebrados enterrados no sedimento lodoso que alimenta as aves, até nós, seres humanos. 

“Não importa se é uma ave super ameaçada ou um bichinho no fundo da lama. Tenho prazer em documentar porque sei que está tudo costurado. Tudo está conectado”, afirma Gambarini.

As aves tornam visível essa conexão. Praias, manguezais e planícies de maré em diferentes países pertencem a um mesmo habitat fundamental para esses animais de vida andarilha. E para acompanhá-las, a conservação também precisa acontecer de forma integrada, transfronteiriça, indo do pesquisador até as comunidades e toda a sociedade civil. Para ajudar nessa sensibilização, Gambarini convida todos, com as belas imagens do documentário, a voarem junto com as aves no litoral brasileiro.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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