Como tudo na história do Brasil está acontecendo agora pela primeira vez, já não se faz nem invasão de terra como antigamente. Ou não haveria um papel timbrado como o que pousou, em outubro do ano passado, no expediente da 31ª Delegacia da Polícia Civil de Planaltina, no Distrito Federal.
Vinha assinado duplamente. No alto da página, por um certo Movimento Independente dos Trabalhadores Agrários, com sede “provisória” na Quadra 25, casa 39, do Setor Leste da cidade satélite do Gama. E, embaixo, por seu presidente Moacyr Fagundes, que deixava para contato seu celular número 61 9998-3466. O documento pedia, “mui respeitosamente”, ao “Ilmo. Sr. Dr.” delegado José Adão Resende, licença para instalar 120 famílias à beira da rodovia 250, “junto ao córrego Quati”. Informava que o Mitra estava de olho na fazenda Mestre D’Armas. E entregava que o acampamento estaria sob as ordens de Jerônimo Ausente Silva, “RG nº 420.798-SSP/DF”.
Contratempo e dissabores
Tudo nos conformes, com o “intuito de evitar qualquer contratempo ou dissabores”. De quebra, apresentando-se ao delegado, o Mitra esclarecia: “Somos ordeiros, pacíficos e cumpridores das leis que regem nosso país e, por assim sermos, somos desconhecidos”. A 31ª DPC protocolou o aviso sob o número 2622. E o mandou aos administradores da fazenda.
A Mestre d’Armas é um canteiro de projetos que dão muito trabalho mas, vistos pelos olhos da reforma agrária, parecem improdutivos. Tem viveiros para devolver ao Cerrado árvores nativas que vão sumindo rapidamente dos arredores de Brasília, desde que a Capital da República afundou seu horizonte num labirinto sem fim de favelas. Ganhou pomares de fruteiras típicas da região, para atrair pássaros o mais cedo possível e, no futuro, quem sabe, empresas interessadas em engarrafar sucos industrialmente. Cercou a vegatação original com talhões de espécies exóticas, recuperando áreas desgastadas pela imprevidência agrícola. E aprendeu a zelar por suas nascentes de água mineral. Jorra das fontes uma água tão leve que saiu da análise com um diploma que a classifica como ideal para a perfumaria.
Por trás desse programa estava um tarimbado fotógrafo de natureza, autor de livros que ajudaram a propor ou consolidar reservas em Fernando de Noronha, no Arquipélago de Abrolhos e no Atol das Rocas. Até na boca poluída da Baía de Guanabara ele comseguiu provar, com o veterano mergulhador Arduino Colasanti, que as ilhas Cagarras escondem um tesouro de vida submarina. Todos os parques marinhos brasileiros passaram, antes, pelas lentes de Carlos Secchin. Mas ele ultimamente pendurou as nadadeiras para cuidar do Cerrado.
Ali, Secchin está em busca de uma receita para explorar como se deve uma terra ao mesmo tempo exuberante e cansada. Espera que brote por lá um centro de ecoturismo ou “de educação ambiental, e por aí vai”. Ele não é de falar muito. Tem quase 40 anos de prática em lidar com assuntos que requerem fôlego, paciência e silêncio.
Pacíficos e ordeiros
Não é à-toa que sua história levou tanto tempo para subir à tona. Dias depois do comunicado à delegacia, o Mitra armou suas barracas. Embora “pacíficos e ordeiros”, ao roçar o terreno seus líderes descumpriram pelo menos uma das “leis que regem nosso país”. Derrubar Cerrado, para começo de conversa, é crime. Mas eles, pelo menos, desmontaram o rancho ao ouvir do delegado que seriam processados por invasão de propriedade.
O Mitra saiu. Mas, assim que virou as costas, vieram em seu rastro fiscais do Ibama, farejando denúncias contra a fazenda. Deram-lhe duas multas. As infrações foram, no caso, revolver a terra de uma encosta, para conter erosões, e limpar um pequeno lago, para desassoreá-lo. Ela recorreu. Mas sua defesa hiberna no Ibama há mais de três meses. Enquanto aguarda a resposta, a fazenda parou, sob embargo. Veterano contador de histórias sobre problemas ambientais alheios, desta vez Secchin custou a perceber que tinha nas mãos uma notícia. “Isso deve estar acontecendo por aí de montão”, ele alega.
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