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Não há mais retorno, mas como seguimos em frente?

Embora os recifes localizados dentro dessas áreas protegidas não estejam imunes ao aquecimento dos oceanos, há evidências de que a mortalidade tende a ser menor em regiões bem conservadas

11 de junho de 2026
  • Rede Ressoa

    A Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano.

  • Luciana Xavier

    Pesquisadora, mulher e cidadã engajada com a sustentabilidade do Oceano. Formada em oceanografia, tem especialização em gestão e conservação costeira em marinha, com foco em abordagens participativas, inclusivas e dialógicas para compreender e transformar a relação das pessoas com o Oceano e promover sua sustentabilidade.

No mês do Oceano, a terceira Avaliação Global do Oceano vem para reforçar que a sustentabilidade oceânica depende tanto de mudanças ecológicas quanto de transformações na governança, na equidade e na inclusão social. Alguns ecossistemas já estão em condições críticas e demandam ações urgentes para que consigamos seguir em frente.

Ano após ano, o mundo registra eventos de branqueamento que ameaçam a resiliência dos corais. Esses dados são alarmantes por si só, mas a preocupação cresce ainda mais quando entendemos que eles são indicativos de um caminha que ameaça a saúde planetária e a sobrevivência da nossa espécie.

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Em outubro de 2026, quando o Brasil se preparava para a o 30º Encontro das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas para a Crise Climática, o relatório Pontos de Virada Global (Global Tipping Points 2025) soou o alerta de que a temperatura do planeta está rapidamente chegando a níveis críticos que podem gerar mudanças drásticas e irreversíveis do sistema climático. Dentre seus achados, um dado alarmante: há fortes indícios de que os recifes de coral de águas quentes já ultrapassaram um dos primeiros pontos de não retorno. Agora, em junho de 2026, a publicação da terceira Avaliação Global do Oceano (Third Worl Ocean Assessment) reforça esse achado, mostrando que os corais vêm sofrendo perdas e redução de suas funções ecológicas essenciais mundialmente.

Os pontos de não retorno climático indicam mudanças profundas e irreversíveis dos sistemas naturais. Eles incluem o colapso dos sistemas de recifes de coral, o derretimento das calotas polares, o degelo do permafrost, a mudança dos padrões de circulação profunda do oceano e o declínio da Amazônia, que podem acontecer se a temperatura da terra continuar aumentando. Mais do que pontos isolados, o fato do sistema planetário ser interligado pode gerar uma reação em cadeia na qual superar um ponto força que os demais fiquem mais próximos de seus limites.

No caso dos recifes de coral, os estudos indicam que a degradação é uma realidade em curso. Entre 2023 e 2025 foram registrados os maiores eventos de branqueamento. Segundo o relatório, com o planeta alcançando aproximadamente 1,4 °C de aquecimento, os recifes de coral de águas quentes já ultrapassaram seu limite térmico de sobrevivência de cerca de 1,2 °C. Isso significa que muitos recifes já estão perdendo sua resiliência, sua capacidade de recuperação após eventos extremos de calor. Com projeções climáticas indicando um aquecimento superior a 2 °C até o fim do século, grande parte dos recifes tropicais do planeta pode desaparecer quase completamente nas próximas décadas.

Por que a preocupação com os corais?

Os ecossistemas de corais tropicais são ecossistemas extremamente produtivos que prestam serviços ecossistêmicos essenciais para a vida no planeta e para a humanidade. Além de contribuir para a qualidade da água, ciclagem de nutriente e regulação climática, eles sustentam diretamente um quarto de todas as espécies marinhas, abrigam uma imensa biodiversidade e servem de berçário para inúmeras espécies. Os recifes de corais também atuam como barreiras naturais que protegem a costa contra erosão, reduzem a força de ondas, ressacas e tempestades; geram milhões de empregos ao redor do mundo, sustentando atividades de pesca, turismo e recreação.

Esses ecossistemas estão entre os mais valiosos do planeta. Globalmente, são o bioma com o maior valor de serviços ecossistêmicos por hectare, estimado em cerca de US$ 87 mil por hectare por ano (Brander et al., 2024). No Brasil, que abriga os únicos recifes de coral do Atlântico Sul, a estimativa é de que os recifes do Nordeste fornecem aproximadamente R$ 160 bilhões em serviços de proteção costeira e movimentam cerca de R$ 7 bilhões por ano em atividades ligadas ao turismo (Fundação Grupo Boticário, 2024). 

A importância dos ecossistemas de corais vai além da dimensão ecológica, eles garantem segurança alimentar, sustentam economias costeiras, modos de vida tradicionais e culturas profundamente conectadas ao oceano. Assim, a mortalidade dos recifes de corais preocupa cientistas, ambientalistas e comunidades costeiras que dependem deles para seu sustento e manutenção de seus modos de vida.

Branqueamento dos corais: o chiado da panela de pressão

O branqueamento dos corais acontece quando eles sofrem estresse extremo, principalmente pelo aumento da temperatura da água do mar, e expulsam pequenas algas fotossintéticas, responsáveis por fornecer grande parte da energia e das cores dos corais por meio da fotossíntese. Sem essas algas, os corais ficam esbranquiçados e enfraquecidos, com menos energia para crescer, se reproduzir e resistir a doenças. Se a temperatura da água do mar voltar ao “normal” rapidamente, os corais podem se recuperar. Mas, quando o calor extremo dura muito tempo ou acontece repetidamente, muitos acabam morrendo.

Eventos extremos de branqueamento de corais vêm sendo registrados no Brasil desde 2019 e têm se repetido nos últimos anos, incluindo episódios de mortalidade em massa observados em 2023 e 2024. Segundo o pesquisador Miguel Mies, chefe do Laboratório de Recifes de Corais e Mudanças Climáticas (Larc) do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador do Projeto Coral Vivo1, os eventos mais severos têm se concentrado na porção Norte-Nordeste da costa brasileira.

“A gente viu um padrão muito interessante. A porção Norte-Nordeste foi a que mais sofreu, mostrando-se uma área bastante sensível, enquanto a região mais próxima do Sudeste, que já tem uma diversidade muito mais baixa, resistiu muito bem, apesar de um estresse térmico bem intenso”, afirma o pesquisador.

Os corais brasileiros se distribuem por cerca de 3 mil quilômetros da costa do país, desde o Maranhão até o sul da Bahia. Essa ampla distribuição latitudinal é uma característica singular do Brasil e pode favorecer a resiliência desses ecossistemas, já que os recifes respondem de formas diferentes às pressões ambientais e alguns têm demonstrado maior resistência ao aumento da temperatura do oceano. Segundo Miguel Mies, os recifes localizados em latitudes mais altas, próximos ao Sudeste, apesar de apresentarem menor diversidade de espécies, vivem em condições mais “marginais”, como águas mais frias e maior sedimentação, o que pode ter favorecido ao longo do tempo a sobrevivência de comunidades mais resistentes.

Parna de Abrolhos é região visitada anualmente por baleias em processo de reprodução. Crédito: Instituto Baleia Jubarte.

Um outro fator que pode contribuir para a resiliência dos corais brasileiros é a existência de 21 Unidades de Conservação federais, estaduais e municipais que protegem parte desses ambientes. Essas unidades ajudam a reduzir pressões locais sobre os recifes, como pesca predatória, poluição, turismo desordenado e degradação costeira. E considerando as projeções climáticas para os próximos anos, toda a ajuda será necessária.

Dados da Organização Meteorológica Mundial (WMO) apontam que 2025 esteve entre os três anos mais quentes já registrados no planeta. No mesmo período, segundo o Boletim da Temperatura do Oceano (Ocean Temperature Bulletin 2025) também mostra que 2025 foi o terceiro ano mais quente para os oceanos desde 1993, com 81% do oceano global com temperaturas acima da média e 89% afetado por ao menos uma onda de calor marinha. Essas ondas de calor marinhas, períodos de temperaturas anormalmente elevadas por pelo menos cinco dias consecutivos, são uma ameaça crescente para ecossistemas marinhos, incluindo os recifes de coral.

É hora de fomentar pontos de virada positivos

Junto a outras ações, as unidades de conservação podem contribuir com “pontos de virada positivos”, processos em que pequenas mudanças iniciais desencadeiam e aceleram transformações maiores e sistêmicas em direção à sustentabilidade. Reduzir emissões, acelerar a transição energética, ampliar áreas protegidas e diminuir pressões locais sobre os recifes podem criar condições para que parte desses ecossistemas ainda consiga resistir e se recuperar nas próximas décadas.

Segundo Miguel Mies, fortalecer as Unidades de Conservação é uma das ações mais urgentes para ampliar a proteção dos corais brasileiros. Embora os recifes localizados dentro dessas áreas protegidas não estejam imunes ao aquecimento dos oceanos, há evidências de que a mortalidade tende a ser menor em regiões bem conservadas, justamente porque estão menos expostas a impactos locais como poluição, sobrepesca e turismo desordenado. O pesquisador também destaca que a proteção dos recifes depende de um esforço global para avançar nas políticas de combate às mudanças climáticas e reduzir as emissões de gases de efeito estufa, principal causa do aquecimento oceânico.

O relatório Pontos de Virada Globais e a Avaliação Global do Oceano destacam a importância de mudanças sociais e de ações integradas em múltiplas escalas e setores, com destaque para o nível local. Quando novas formas de pensar, consumir e se mobilizar ganham escala, elas podem acelerar políticas climáticas, pressionar governos e empresas e fortalecer ações coletivas que impulsionam transformações ambientais em larga escala. As ações fomentadas pela COP, como o Mutirão Global, fornecem caminhos para isso, mas não podem parar por aí. Acelerar a implementação de políticas públicas e campanhas que promovam essas mudanças e protejam os ecossistemas marinhos. Ainda há muito a proteger, restaurar e transformar, e os recifes de coral lembram que agir agora pode fazer a diferença entre perda irreversível e futuro possível.

Para saber mais

Lenton, T. M. et al. (eds), (2025). The Global Tipping Points Report 2025. University of Exeter, Exeter, UK. ©The Global Tipping Points Report 2025, University of Exeter, UK

Brander, L. M. et al. (2024). Economic values for ecosystem services: A global synthesis and way forward. Ecosystem Services, 66, 101606. https://doi.org/10.1016/j.ecoser.2024.101606 Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza (2024). Oceano sem mistérios: desvendando os recifes de corais.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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