Até o fim do século 19, praia era literalmente programa de índio. E de escravos. As casas dos aristocratas brasileiros eram construídas de costas para o oceano. O mar era visto apenas como depósito de lixo. Aos poucos, sempre por influência dos hábitos adotados pelos países que ficam acima da linha do Equador, ir à praia virou um programa cool.
Nos últimos 100 anos, muita coisa mudou. A praia virou uma extensão da casa da maioria dos cariocas, entrou para o repertório de programas disputados. Inspirou a moda, ditou padrões de beleza e comportamento, seduziu poetas, foi cenário de cenas de amor e divertiu criancinhas. Porém, cada vez mais vai confirmando sua reputação de depósito de lixo.
A começar pela poluição visual. A quantidade de informações é assustadora. Os quiosques invadiram a areia, tomando o espaço dos vendedores ambulantes, que hoje, gritam jingles super criativos para garantir seu espaço no mercado. As pessoas brigam por meio metro quadrado e se espremem na areia. Para chegar até a beira do mar é preciso passar por um verdadeiro corredor polonês. Não tropeçar em nenhum cidadão estirado ao sol, não pisar no piquenique de nenhuma família, desviar de bolinhas de frescobol, enfim, “respeitar o próximo” que, na maioria das vezes, não parece nem estar aí para respeitar alguém.
A cada domingo de verão, as praias do Rio recebem aproximadamente 900 mil pessoas. É uma multidão superior a toda a população carioca em 1900, quando Copacabana era uma distante vila de pescadores e ir à praia era um passeio exótico. Acontece que praias não se reproduzem de acordo com a demanda. A quantidade de lixo gerada por essa massa é motivo de preocupação para quem se importa com o tempo de vida útil da extensão da casa dos cariocas.
Os problemas causados pelo acúmulo de resíduos sólidos, em especial plásticos, são preocupantes. A diversão mais barata do país, custa caro. Fora o que se gasta para limpar as praias num final de domingo, o lixo traz riscos para a fauna marinha. Garrafas e outros recipientes podem aprisionar pequenos animais marinhos. Plástico e isopor podem ser confundidos com alimento e ingeridos por peixes, aves ou mamíferos, que quase sempre morrem, em geral por obstrução do aparelho digestivo.
A fauna humana também é vítima de sua própria displicência. De acordo com a Comlurb, o que mais ameaça a saúde dos banhistas, além das línguas negras, que são aqueles extravasamentos de águas poluídas que se acumulam na areia, é a presença de animais nas praias. Os cachorros, levados por seus donos, usam a areia da praia como toalete. As pombas, que chegam até lá sozinhas, buscam restos de alimentos deixados por quem freqüenta o local. As conseqüências da areia poluída são doenças de pele, como micoses, a conjuntivite e verminoses.
No entanto, para a maioria dos freqüentadores da praia, o que importa é a estética. Se toda a sujeira estiver enterrada debaixo da areia e os animais marinhos (já mortos) não estiverem boiando, tá tudo certo. Se não der para esconder a sujeira debaixo do tapete, o bando migra para as praias mais selvagens. Afinal, 300 garis limpam, duas vezes por dia, as 73 praias cariocas, da Ilha do Governador e Paquetá até a Barra de Guaratiba, todos os dias da semana.
A reserva biológica do Recreio dos Bandeirantes, por exemplo, de reservada só tem o nome. Nos finais de semana ensolarados, a “visitação” é avassaladora e descontrolada. A maior preocupação da prefeitura é facilitar o acesso da população e organizar o estacionamento pago dos carros. Afinal, privar o carioca de destruir o quintal de sua própria casa é uma tarefa árdua. Como diria Millôr Fernandes, desde que você não tome banho de mar, não beba, não coma, não olhe, ocasionalmente não respire – e não pense! – a poluição ambiental entre nós é perfeitamente suportável.
Leia também
Perigos explícitos e dissimulados da má política ambiental do Brasil
pressões corporativas frequentemente distorcem processos democráticos, transformando interesses privados em decisões públicas formalmente legitimadas →
Transparência falha: 40% dos dados ambientais não estavam acessíveis em 2025
Das informações ambientais disponibilizadas, 38% estavam em formato inadequado e 62% desatualizadas, mostra estudo do Observatório do Código Florestal e ICV →
O Carnaval é termômetro para medir nossos avanços no enfrentamento da crise climática
Os impactos da crise climática já são um problema do presente. Medidas políticas eficazes de prevenção aos eventos climáticos extremos não podem ser improvisadas às vésperas das festividades →






