Colunas

Sujeira embaixo do tapete

Políticos não gostam de lidar com o problema do lixo. Mas em Nápoles, impasse sobre destino dos resíduos gera revolta popular que pode comprometer o primeiro-ministro da Itália.

15 de janeiro de 2008 · 18 anos atrás

Lixo é um assunto desagradável, políticos e imprensa não gostam muito de lidar com o tema, e os alertas dos especialistas muitas vezes passam em branco. Mas empurrar a sujeira para baixo do tapete é um expediente arriscado, como têm mostrado as imagens recentes da cidade italiana de Nápoles. Depois de mais de duas semanas sem coleta de lixo, a cidade, uma das mais importantes da Itália, se tornou um verdadeiro caos. O lixo amontoado nas ruas se tornou uma ameaça à saúde pública. Escolas cancelaram as aulas. Moradores incendiaram o lixo, e ergueram barricadas no meio da rua para evitar a reabertura de um aterro sanitário fechado dez anos atrás. O exército foi chamado para restaurar a ordem, mas a crise continua (um vídeo com imagens da crise pode ser visto aqui). Outras regiões do país começam a receber o lixo de Nápoles, com resultados previsíveis.

O mais estranho é imaginar uma grande cidade em um país desenvolvido convivendo com uma crise destas dimensões por quatorze anos. Mesmo com os devidos descontos para a qualidade da governança na Itália — país que tem mais similaridades com o Brasil do que os italianos geralmente gostam de admitir — quando a coleta de lixo entra em colapso, a vida civilizada é posta em risco. Não tem sido fácil, no entanto, procurar as razões para essa falha. A imprensa italiana e as agências de notícias falam em falhas do governo, em planos de reforma bloqueados por juízes, e em possível influência da camorra. A solução preferida pelo governo italiano — o processamento do lixo em incineradores com aproveitamento da energia gerada na queima — não avança. Os incineradores — termovalorizzatori em italiano — provocam intensa polêmica, e sua entrada em operação está atrasada em dez anos.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Com os aterros sanitários da região de Nápoles lotados e incineradores fora de operação, um dos expedientes que têm sido usados pelo governo é a exportação de lixo, enviado por via ferroviária para processamento na Alemanha. Não surpreende, portanto, que a imprensa alemã esteja dedicando bastante atenção ao assunto, e que um dos melhores relatos do que está acontecendo seja do Der Spiegel – felizmente disponível em inglês. O correspondente do semanário alemão consegue, ao menos, produzir uma narrativa coerente. O que não é pouco nesse contexto.

Segundo ele, o problema básico é de incompetência ou desinteresse por parte dos políticos responsáveis pela administração da região — políticos de esquerda, alinhados com o governo do primeiro-ministro Romano Prodi, que preferem cantar as belezas de Salerno, Pompéia e Amalfi a discutir o problema. As tentativas de reabrir um aterro fechado 10 anos atrás criam resistência, levando à formação de uma espécie de guerrilha urbana, talvez com apoio da Camorra. Os contratos de limpeza urbana são entregues a consórcios de empreiteiras que repassam o serviço a pequenas empresas, provavelmente controladas pelo crime organizado.

A sobrevivência política de Romano Prodi está ligada ao drama do lixo. Ele recentemente deu ao ex-chefe de polícia Gianni de Gennaro 120 dias para achar uma solução para o problema e pediu às outras regiões da Itália que recebam parte do lixo napolitano. Ele não será o primeiro a assumir essa tarefa ingrata. Quem sai lucrando, por enquanto, é a empresa alemã que leva o lixo embora, em segredo. E quem sai perdendo é a população de Nápoles.

Talvez seja cedo para tirar grandes conclusões desse deprimente episódio. Mas vale a pena ponderar artigo da escritora Elena Ferrante, no New York Times desta terça, 15 de janeiro: “Essa cidade, um milhão de pessoas, segue em frente. O que deixa as pessoas com raiva […] é a aquiescência geral de Nápoles, o hábito de sobreviver na ineficiência e desordem. Crime, nesta cidade, se tornou um destino; tem o poder daquelas coisas que são bem conhecidas mas a respeito das quais não há nada a fazer.”

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
25 de abril de 2026

O dia em que a ciência lotou um teatro

Lançamento de um painel científico global que contará com mais de 400 pesquisadores para acelerar saída dos combustíveis fósseis teve risos, aplausos e plateia atenta

Salada Verde
24 de abril de 2026

Clima avança no papel, mas estados falham na execução, aponta estudo

Anuário mostra que, apesar de progressos, desigualdades entre estados, gargalos institucionais e falta de adaptação ampliam riscos e prejuízos diante de eventos extremos

Notícias
24 de abril de 2026

Conferência sobre fim dos fósseis aposta em “coalizão de ação” fora da ONU

Fora do formato das COPs, encontro aposta em coalizão de países para avançar na implementação da agenda climática

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.