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A distância entre saber e agir

No Congresso Mundial de Conservação, a NASA apresentou um software capaz de detectar até pequenos desmatamentos. Mas o problema do Brasil não é saber, é agir.

26 de novembro de 2004 · 19 anos atrás

Escrevo diretamente de Bangkok, onde participo do III Congresso Mundial de Conservação da Natureza. Fui convidado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para ajudar na coordenação de um grande seminário sobre Unidades de Conservação Urbanas. Finalmente a UICN se dá conta de que 50% da população mundial vive em aglomerados de prédios e favelas. Sem o apoio dessas pessoas, seus votos, sua opinião e sua pressão política, nenhum sistema de unidades de conservação ao redor do mundo tem chances de sobreviver. Afinal, em uma democracia, votos são o motor das decisões governamentais e parlamentares.

No seminário estão reunidos especialistas da África do Sul, Austrália, Inglaterra, Estados Unidos e Índia, para mencionar apenas alguns países. Minha função é assegurar um debate produtivo que desemboque em ações práticas, tais como o desenvolvimento de novas políticas de manejo específicas para Parques Urbanos e o estabelecimento de uma rede de informações e treinamento entre essas unidades citadinas.

De certa maneira, coordenar este trabalho tem sido uma prisão, pois limita o tempo disponível para assistir a outros seminários e conferências, que são muitos e bastante interessantes. Dentre os que consegui escapulir para ver estava um sobre softwares para processamento de imagens de satélite. A conferência ministrada pelo Professor Gary Geller, funcionário da NASA (http://asterweb.jpl.nasa.gov/paa), mostrava como é possível acompanhar, dia a dia, a evolução do desmatamento em áreas remotíssimas e dificílimas de fiscalizar por métodos mais tradicionais.

Para ilustrar sua palestra, Geller mostrou fotos de um Parque Nacional nos confins do Laos. Em 1975, junto às bordas do Parque, havia uma pequena vila cujas roças e pastos estendiam-se ao seu redor, sem contudo varar os limites da Unidade de Conservação. À medida que Geller começou a sobrepor fotos da mesma região em datas cada vez mais recentes, foi possível ver com clareza impressionante o lento e inexorável espraiamento da agricultura em direção ao Parque, que acabou tendo grande área do seu platô principal ocupada pelo cultivo agrícola. Geller avançou então para demonstrar, de maneira muito clara, como é possível detectar até mesmo pequenas áreas desmatadas, com dimensões de meio a um hectare, completamente cercadas de mata, cuja visualização por uma equipe de fiscais no campo seria quase impossível.

À minha volta, muitos profissionais de parques tomavam notas e indagavam o que fazer para obter essas informações diretamente da NASA. Não fui um destes. Mantive-me impassível, com a mente a vagar por terras tupiniquins. Adoraria poder ser um entusiasta do sistema de detecção do Professor Geller, mas acho que o Brasil ainda está em um estágio mais básico.

Nosso problema não é saber, é agir. O relatório do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, publicado pelo jornal O Globo, reconhece que há “uma baixa capacidade de implementação das atividades (…) os órgãos têm concentrado suas ações em iniciativas de planejamento e organização interna”. Mas o problema não se resume à longínqua Amazônia. Em Itatiaia, Parque Nacional mais antigo do Brasil, um fiscal do Ibama declarou ao Globo, em 13 de setembro de 2004, que o fogo que naquele momento lambia a parte alta do Parque havia sido “provocado por empregados de fazendas que colocam o gado novo para pastar ali. Só com multa e apreensão de animais acabaríamos com isso. Mas faltam fiscais e carro para o trabalho”.

Tenho minhas dúvidas, contudo, se mais fiscais e carros resolveriam alguma coisa. Na Floresta da Tijuca, em pleno coração do Rio de Janeiro, quem vai ao Corcovado de automóvel, logo após entrar na área do Parque Nacional, passa bem em frente à sede do Grupamento de Defesa Ambiental da Guarda Municipal, alojado em bela casa histórica no lado esquerdo da estrada do Redentor. Estrada acima, escassos 200 metros após o muro branco que protege o quartel da Guarda, foi recentemente desbastado um pequeno trecho de mata em regeneração. Era imperioso fazê-lo para criar a vaga onde hoje estaciona um automóvel. O motorista se deu ao trabalho de despejar um cimentinho entre o meio-fio e a estrada para facilitar a subida de seu veículo à recém-criada vaga. Não é preciso de satélite algum para se dar conta do descalabro. Passam por ali, todos os dias, dois ou três carros do Grupamento Ambiental da Guarda Municipal, igual número de viaturas do Ibama e, no mínimo, duas patrulhas da Polícia Militar. Ou seja, contando as três esferas de Governo são, por baixo, 240 oportunidades mensais de ver o óbvio. Mesmo assim, a garagem feita às expensas da mata continua lá.

Nem todos os casos são tão fáceis de detectar quanto o da estrada do Redentor. Às vezes, não é possível ver com tanta obviedade o uso indevido das áreas de proteção ambiental, cuja conservação é paga com impostos públicos. Este é o caso de um terreno na rua Senador Simonsen, localizada no nobre bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Ali, a degradação está escondida atrás de um muro fechado por hermético portão verde. Trata-se de área situada no que se costumava chamar de Floresta Protetora da União, contíngua ao Parque Nacional da Tijuca, da qual deveria ser continuação natural, mas, infelizmente, não é. Há ali cachorros, gatos e gente, muita gente. Quem esteve lá recentemente garante que o número de casas já chega a 23. Denúncia, feita em meados do ano 2000, sobre esta ocupação, gerou expediente do Parque Nacional da Tijuca para a gerência do Ibama solicitando abertura de processo e tomada de providências. É possível, efetivamente, que um processo tenha sido aberto. O que continua fechado é o portão que protege as 23 casas, seus gatos e cachorros, do indiscreto olho do cidadão. Nele está pendurada uma placa que informa: “Ibama – Governo Federal”. De fato, ao tocar a campainha, descobre-se que ali vivem funcionários e familiares do nosso órgão maior de proteção e fiscalização do meio ambiente.

Espero, de todo o coração, que o Laos faça bom uso das imagens de satélite geradas pela NASA. Realmente, elas são muito informativas.

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