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Poluição de quatro patas

Os habitantes de São Joaquim, na Califórnia, enfrentam sérios problemas de saúde por causa da poluição do ar. As vacas leiteiras são as maiores responsáveis.

30 de setembro de 2005 · 20 anos atrás
  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

Nos acostumamos a pensar em indústrias convencionais como poluidoras e o campo como vítima ou refúgio. Ocorre que, hoje, o campo busca a intensidade e a produtividade de uma fábrica. Não é a toa que a palavra indústria é usada cada vez mais como sinônimo de ramo ou atividade. A agropecuária moderna é uma indústria. E com suas máquinas, fertilizantes, agrotóxicos e rebanhos confinados, polui cada vez mais.

O município de São Joaquim, na Califórnia, é um lugar tranqüilo, sede de uma região onde prosperam criações de gado leiteiro. Mas, nos últimos seis anos, foi o campeão em poluição do ar nos EUA, rivalizando com as metrópoles Los Angeles e Houston. Parte da situação é explicada por duas largas highways que cruzam a região. A geografia também não ajuda. São Joaquim fica num vale formado pelas montanhas da Sierra Nevada e a cordilheira da costa.

A surpresa é que, possivelmente, as 2,5 milhões de vacas locais poluem mais que os carros. Na estimativa das autoridades, cada vaca emite o equivalente a 9 kg de poluentes por ano. Os produtores retrucam dizendo que esse número não tem boa base científica. O debate ficou conhecido como fart science, ou, vamos dizer, ciência da flatulência, o que é uma injustiça com as vacas. Na realidade, elas liberam os gases metano, metanol e etanol durante parte essencial do seu processo digestivo: a ruminação da comida. Esses gases se misturam com outros poluentes formando smog, uma névoa escura e suja que estamos acostumados a ver e respirar nas grandes cidades e distritos industriais.

O caso acabou parando nas mãos de um pesquisador da Universidade da Califórnia. Ele colocou oito animais dentro de uma eco-bolha, estrutura de aparência espacial, totalmente fechada e dotada de instrumentos de medição muito precisos (veja a foto). As vacas passaram dois dias lá. Os resultados iniciais surpreenderam por mostrar que a maior parte do problema é causado durante o processo de digestão, e não pelos dejetos dos bichos. Quando as vacas eram retiradas do ambiente, as emissões se reduziam a menos da metade.

Os moradores de São Joaquim estão bastante mobilizados em torno do assunto, já que o município tem um índice de asma três vezes maior que a média nacional. Uma em cada seis crianças é vítima da doença. Eles formaram grupos como a Associação dos Residentes Irritados, cujo líder declarou: “Nossos pulmões estão sendo usados como subsídios agrícolas”.

Por outro motivo, o Brasil também precisa estar atento à questão. O metano é um dos gases causadores do efeito estufa. Apesar da sua produção mundial ser menor que o dióxido de carbono, ele é 20 vezes mais potente. O rebanho bovino nacional é de 195 milhões de cabeças, gerador de 10 milhões de toneladas de metano, no período entre 1990 e 1994. O que equivale à poluição do setor energético, segundo a Embrapa.

O caso de São Joaquim é apenas um exemplo da poluição que a agropecuária moderna pode causar. Entre os animais, não só o gado, mas grandes criações de suínos e frangos são problemáticas. Na Carolina do Norte, estado com maior produção de suínos, a cada ano se produzem 2,5 toneladas de excrementos por habitante. Na agricultura, os resíduos do uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos acabam contaminando o lençol freático, rios e baías. O uso de fertilizantes nos EUA cresceu 30 vezes desde 1940. Mas, medido por hectare, americanos perdem para os europeus, que usam 50% mais, e para os japoneses, que usam o dobro.

A expansão agrícola com técnicas primitivas, como a que é praticada largamente na África, acaba exaurindo o solo e levando ao desmatamento de áreas vizinhas. Já os efeitos da agricultura moderna não são sentidos pelos próprios agricultores. Eles protegem a capacidade de suas terras com o uso de fertilizantes. E repassam a conta para a sociedade na forma de mais poluição.

Pastos e plantações tomam hoje 26% das terras do mundo. Metade da quantidade acumulada de fertilizantes usados até hoje foi aplicada desde 1984. Tudo indica que a poluição gerada na agropecuária é séria, mas as soluções não virão logo. A percepção do assunto é recente e faltam estudos que mensurem com precisão o tamanho do problema. O público ainda tem uma visão romântica da atividade. E, freqüentemente, os produtores são politicamente influentes. Eles resistirão a regulações ambientais, que vão lhes custar milhões em equipamentos de controle e perda de produtividade. Também não será popular apoiar medidas que tornem a comida mais cara.

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