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King Kong atrai turistas e não balas

Projeto de cunho turístico e comunitário desenvolvido por jovem de Ruanda, na África, reduz em 60% a caça a gorilas. Iniciativa foi premiada pela International Union for Conservation of Nature.

26 de setembro de 2008 · 17 anos atrás
  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

A vida dos gorilas das montanhas de Ruanda, na África, não é fácil. Estão ameaçados de extinção por perdas de habitat, doenças (epidemias de Ébola) e por caçadores. Por isso, está sendo comemorado o sucesso de um projeto de ecoturismo que fez com que os habitantes locais passassem de algozes a protetores dos animais.

A iniciativa deu a seu criador, Edwin Sabuhoro, o prêmio Jovem Ambientalista de 2008, concedido pela International Union for Conservation of Nature (IUCN). Ele criou a Rwanda Eco-Tours, cuja posse é 100% comunitária. Conseguiu, assim, criar uma fonte de receita para a população, que reduziu a caça ilegal em 60%. A idéia foi a aplicação de sua tese de mestrado, realizado na Universidade de Kent, na Inglaterra.

Ao contrário da mera proibição da caça, a abordagem de Sabuhoro criou um direito de propriedade comunitário sobre os gorilas, que, antes, eram vistos como recurso comum e fonte de alimentação. É quase lei em Economia que esse tipo de situação leva à extinção ou exaustão de qualquer tipo de vida ou riqueza natural. Com a formação da empresa, os gorilas se tornaram um patrimônio que rende juros.

Na década de 1990, foi implantado um projeto semelhante no Zimbábue, o Campfire (Communal Areas Management Programme for Indigenous Resources).  Ao contrário do mito, animais selvagens são comumente vistos como perigo, problema, comida, ou os três juntos. Elefantes, em particular, adoram pisar em plantações e, às vezes, em gente, com resultados letais.

A iniciativa fez com que a preservação do grande mamífero ganhasse a simpatia dos nativos, cobrando dos estrangeiros pela caça e organizando o ecoturismo. A tentativa anterior, de meramente proibir a caça, tornou-a apenas ilegal, decuplicando o preço do marfim. Tentativas de preservação baseadas somente em políticas de “comando e controle” costumam fracassar se não levarem em conta incentivos locais.

A comunicação do gorila

Voltando ao início, gorilas e chipanzés são os primatas mais parecidos com o Homem. Curiosamente, os primeiros são classificados em duas espécies – Oriental e Ocidental. Vivem entre 40 e 50 anos. Sua altura pode chegar a mais de um metro e oitenta e o peso a 250 quilos. Mesmo com todo esse tamanho, são herbívoros, e, como é preciso um bocado de vegetais para sustentar um corpo desses, passam a maior parte do tempo se alimentando. Habitam algumas poucas áreas da África. Uma parte vive na planície e outra na região montanhosa conhecida como Vulcões de Virunga, que bordeja meia dúzia de países.

No entanto, os gorilas das montanhas só resistem em áreas do Congo, Uganda e Ruanda. Lá foi morta, por humanos, a pesquisadora Dian Fossey, precursora e ícone da proteção dos gorilas. São bastante inteligentes. Já foram vistos usando gravetos para medir a profundidade de um lago (antes de atravessá-lo), pedaços de madeira como ponte e pedras para quebrar nozes. Também costumam ser tímidos e, a não ser quando acuados, fogem quando esbarram com humanos.

A mais famosa das gorilas é Koko, de 35 anos, domesticada e treinada por Penny Patterson, uma loiríssima pesquisadora americana. Consta que o relacionamento de três décadas entre as duas é o maior estudo já conduzido de comunicação entre espécies. Koko se expressa por mais de cem sinais na linguagem de surdo-mudo e atende a um vocabulário em inglês ainda mais extenso. Confira vídeo aqui.

Assim, fica demonstrado, King Kong é bonachão, amigável e vegetariano. Até gosta de louras, para amizade, mas os machos preferem mulheres peludas de mais de 100 quilos. Vaidoso, em vez de briga, prefere ser admirado.

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