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A gritaria dos indecentes

É bom que todos conheçam a Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). É para lá que vai boa parte do dinheiro público que financia a destruição do nosso meio ambiente.

21 de agosto de 2009 · 13 anos atrás
  • José Truda Palazzo, Jr.

    José Truda é jardineiro, escritor, consultor em meio ambiente especializado em conservação marinha e tratados internacionais, e indignado.

Nas duas oportunidades anteriores de falar aos amigos d´O ECO recentemente, abordei aqui algumas razões que me fazem crer que o atual des-governo imperial de Lulla Roussef – esse organismo eleitoreiro geneticamente modificado – vem trabalhando ativamente para a desconstrução ambiental do Brasil, amparado, sobretudo, no cúmplice e criminoso silêncio do dito “movimento” ambientalista, cooptado ideológica ou financeiramente para fingir que não ouve os gritos de êxtase dos destruidores da Natureza brasileira e seus bedéis brasilienses, ao conquistar cada vez mais espaço para suas depredações irreversíveis enquanto a população flutua ao sabor da bolsa-esmola e dos escândalos-pizza sazonais.

Esses gritos, entretanto, merecem registro, para que as ovelhas vendidas não se façam de coitadinhas e finjam que não sabiam, como faz o Grande Pai Iletrado em seu palácio com relação a mais escrachada corrupção que grassa em sua gestão desde o primeiro dia.

Pouca gente neste país, menos ainda os que lidam na área ambiental fora dos acarpetados corredores palacianos, conhece a sigla Abdib. Mas deveria. Ela é a poderosíssima Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base, que congrega o que há de mais poderoso em empreiteiras, empresas de energia e transporte, que são clientes do dinheiro público para suas obras faraônicas, e expressam não necessariamente o que há de melhor em mentalidade ambiental. Isso fica muito claro pelas expressões de trogloditismo de seus membros, constantes de uma premiada matéria jornalística de Amália Safatle na Revista Carta Capital, em dezembro de 2003 que todo brasileiro medianamente interessado no tema ambiental deveria ler.  São extremamente competentes em atuar junto ao “pudê” cangaceiro que se instalou em Brasília, neste e em outros governos.

Não é de hoje que o incesto da Abdib com o governo do PT é evidente. Em 07 de abril de 2003 o grupo se gabava publicamente, no jornal O Estado de São Paulo, de “retomar o programa de aproximação de seus associados com o governo federal. Dias 8 e 9 está levando uma delegação para Brasília, para contatos com os ministros José Dirceu, Roberto Amaral, Luiz Furlan e Tarso Genro e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha”. Já em junho de 2005 a Abdib “aplaudia” publicamente a indicação da Primeira-Ministra Dilma Roussef para mandar em Lulla e abrir as portas do Planalto para os interesses das grandes empreiteiras.

Claro, como Ministra das Minas e Energia, seu contato com os grandes empreiteiros já era corriqueiro, a ponto dela anunciar investimentos públicos em energia em seminários da própria Abdib como se esta fosse “da casa” para o governo, e sua assunção a Primeira-Ministra foi motivo de estourar champanhe para o setor. Uma breve mirada à atuação da Casa Civil no tema ambiental mostra claramente que a aposta nela valeu, e como.

Legitima a posição dos empresários em tentar se apossar da política pública que mais lhe convém – assim foi na História do Brasil inteira. O que não é legítimo, nem tolerável, é que os empregados que pusemos em Brasília a nos representar passem a atuar como lobistas dessa minoria endinheirada, cujo compromisso com o país e seu futuro tende a zero.

Mas assim vem sendo feito, não apenas no desmonte visível da gestão ambiental pública, mas também no desate de uma campanha de verborréia presidencial contra a conservação da Natureza. Enquanto o braço Rousseff do híbrido palaciano se movimenta discretamente governo adentro para assegurar os interesses dos empreiteiros, pressionando por obras destruidoras como as hidrelétricas da Amazônia, exigindo “celeridade” do licenciamento ambiental, e atolando na casa Civil a criação de novas áreas naturais protegidas, o ramo Lulla da campanha transformou seus palanques interioranos (a regra, pelo medo que ele tem de aparecer em grandes cidades de eleitorado mais esclarecido) em palco de bobagens nunca antes ditas contra a gestão ambiental.

Essas formas de atuação se completam, de um lado moldando o Estado à vontade dos grandes empreiteiros e concessionários, de outro predispondo o eleitorado ignaro e clientelado à bolsa-esmola contra tudo o que se refira a meio ambiente, assim abrindo caminho para que a Primeira-Ministra idolatrada pela Abdib perpetue, em 2010, o reinado da destruição ambiental.

Senão vejamos. A impaciência de Lulla com a questão ambiental vinha já de longe, como ilustra bem o ataque histérico que teve na primeira Conferência Nacional de Meio Ambiente, em novembro de 2003, ao ver protestos de participantes não-amansados, contra os rumos da política de biossegurança. Não se sabe se alicerçado somente no amasiamento político de sua Primeira-Ministra e candidata presidencial com a Abdib, ou também na sua evidente incapacidade intelectual de compreender os temas de gestão ambiental, o Einstein de Garanhuns calhou de mais recentemente fazer-se de porta-voz desse atraso mental de boa parte do empresariado tupiniquim.

Em abril deste ano, começou ele a bobajada atacando um grupo da fauna silvestre mais conhecido pela sua importância ecológica e como indicador de qualidade ambiental.  Disse no Acre: “A gente está fazendo um grande viaduto no Rio Grande do Sul, ligando a BR-101, que vai trazer muita gente da Argentina para o Brasil e muita gente do Brasil para a Argentina. Esse túnel tem mil e poucos metros, e encontraram do lado do túnel uma perereca. Todo mundo aqui sabe o que é uma perereca. Pois bem, aí resolveram fazer um estudo para saber se aquela perereca estava em extinção. Aí teve que contratar gente para procurar perereca, e procure perereca, e procure perereca… Sabem quantos meses demorou para descobrir que a perereca não estava em extinção? Sete meses, a obra parada. Eu espero que aqui no Acre não apareça nenhuma perereca na ponte do Rio Juruá. Não é possível.”

Seria muito querer que o Iletrado Mandatário Imperial entendesse que, como notou a jornalista d´O Globo Juliana Rangel em matéria de 1º de maio, pelo menos quatro espécies ameaçadas de anfíbios foram localizadas em locais atingidos pelas obras da rodovia. Uma delas, o sapo narigudo de barriga vermelha (Melanophryniscus macrogranulosus), não era vista há mais de 30 anos.

Ao vangloriar-se da atuação da Primeira-Ministra na “agilização” dos processos de hidrelétricas faraônicas defendidos pela tribo das indústrias de base, Lulla discorreu em 23 de junho passado, requentando um discurso semelhante de 2007: “E eu lembro como se fosse hoje, a Dilma participou quando nós fomos aprovar o projeto da hidrelétrica do Rio Madeira, Santo Antônio e Juruá… Jirau. A briga, vocês não queiram imaginar, não queiram imaginar o que nós perdemos de meses discutindo os grãos de areia que estavam no fundo do rio. Não queiram imaginar. Precisamos contratar o melhor professor do mundo nessa matéria, que era um indiano que veio dos Estados Unidos, me entregou um pote de areia de fundo do mar para mostrar como é que a areia corria, que não ia fazer isso, que não ia fazer aquilo. Quando nós resolvemos o problema da areia, me chega outro e diz dos peixes, que tinha muito bagre e que os bagrinhos não iam conseguir nadar, para represar lá nos Andes, aquele negócio todo. Eu me comprometi, quando deixar a Presidência, comprar uma canoa, pegar os bagrinhos, colocar na canoa, levar do outro lado e trazê-los de volta. Não, não.”

Não parou por aí a sapiência presidencial. “Nós, aqui no Brasil, apenas proibimos. E vocês já viram aquelas plaquinhas nas gramas: é proibido pisar? É uma provocação para a gente pisar. É uma provocação.” Ou seja, dane-se a lei; se um semi-analfabeto achar que ela deve ser descumprida, e ele tiver poder para isso, dane-se a lei ambiental. É essa prepotência presidencial, criminosa em sua essência, que permite aos escroques de outros níveis dos governos petistas, como os que protegem as prestadoras de serviço público na Bahia, atropelar a conservação da biodiversidade mesmo onde ela é protegida por lei, como no caso da grilagem da Reserva Particular de Patrimônio Natural do Sr. Norberto Hess para passagem, ilegal, de linha de transmissão . Ponto para os trogloditas da “infra-estrutura e indústrias de base”, num caso que tende a se repetir nos próximos meses, à medida que Lulla Roussef tenta acelerar a pau e corda o “pogreço” artificial e eleitoreiro que em sua visão garantirá os votos para 2010.

Poderíamos seguir elencando o besteirol brasiliense com outros atores da tropa de choque anti-ambiental de Lulla Roussef: Edson Lobão, Reinold Stephanes e outros serviçais do lobby dos milionários interesses do “agronegócio”, da “infra-estrutura” e das “indústrias de base” de Pindorama. Mas o importante não é isso, e sim nos darmos conta de que há, comandado pela senha pública da verborréia presidencial, um esquemão no governo para agilizar o atraque dos poderosos sobre os recursos naturais do Brasil, transformar licenciamento em carimbada-relâmpago e fazer obras para inglês ver até a eleição presidencial de 2010. Provavelmente o esquemão continuará, tamanha a cumplicidade da dita “sociedade civil organizada” com o lullismo.

Mas que não se diga que o silêncio dos indecentes não-governamentais, que alimenta a gritaria palaciana anti-Natureza dos indecentes governamentais, foi unânime. Nós, loucos e poucos, seguiremos gritando, para nosso azar pessoal, mas registro da História e, esperamos, reversão desse quadro pornográfico de cumplicidade. Algum dia.

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