Colunas

Áreas ou prefeitos de risco?

Chuva de verão é sinônimo de desabamento e morte. Prefeitos que permitem favelas nas encostas para garantir votos deveriam ser processados por homicídio doloso.

27 de janeiro de 2005 · 17 anos atrás
  • José Truda Palazzo, Jr.

    José Truda é jardineiro, escritor, consultor em meio ambiente especializado em conservação marinha e tratados internacionais, e indignado.

Tsunami é brincadeira para quem tem a classe política com que o Papai do Céu nos brindou. Basta ver as manchetes deste verão sobre os muitos mortos e outros tantos desabrigados nos desabamentos de favelas e nas invasões de “áreas de risco” das cidades brasileiras. Em todas essas cidades, os prefeitos deveriam estar sendo processados por homicídio doloso (com intenção de matar).

Sim, porque inicialmente o que nos ocorre é que a culpa é só daqueles miseráveis inconseqüentes que se encarrapitam nas encostas mais íngremes com as suas asquerosas malocas amontoadas e, quando vem a inevitável chuva de verão, todos nós sabemos que vão rolar morro abaixo. Na verdade, o processo é não apenas tolerado, mas muitas vezes estimulado por essa máfia eleitoreira que se convencionou chamar, que boniteza social, de administrações municipais.

As encostas dos morros e áreas de corrida natural das águas pluviais não são somente o pior lugar para construir casas de materiais vagabundos. São também um dos melhores lugares para manter áreas verdes de preservação permanente nos meios urbanos. São áreas originalmente constituídas de matas nativas cuja composição de espécies é adaptada justamente a segurar as rochas e a terra em graus de inclinação que nenhuma construção humana simples agüenta. A trama de raízes das árvores, cipós, bromélias e plantas herbáceas diversas da mata de encostas, aliada à capacidade do dossel de vegetação e da camada de matéria orgânica (folhas secas, galhos mortos, húmus produzido pela decomposição) de reter, absorver e reduzir a velocidade das águas das chuvas, assegura que as rochas e a terra continuem exatamente onde estavam antes de chegarem as invasões toleradas.

Chega, então, o primeiro sem-casa e olha para aquela “área abandonada” e resolve queimar e arrancar o “mato inútil” (que, muitas vezes, também serve de depósito de lixo clandestino) da encosta e ali instalar o seu barraco, sua mulher do momento e seus vinte filhos. Outros logo se seguem, aproveitando a falta de chuvas, e se instalam por ali mesmo, até estar montada a nova favela na encosta desnuda do morro, esperando a previsível e inevitável enxurrada de verão que os fará a todos, além de miseráveis, reféns da “defesa civil” assistencialista e eleitoreira do Prefeito.

Pois é apenas isso que o seu Prefeito vê ao deixar correr solta a depredação e invasão das encostas antes verdes dos morros: uma penca de novos eleitores, fáceis de conquistar com miçangas e bobagens prometidas, como todos os eleitores analfabetos ou quase, mas mais ainda: a partir da próxima chuvarada, dependentes das migalhas dadas com banda de música e manchetes aos “flagelados”, que aí sim, eternamente gratos pela esmola que supõem vir do Prefeito, eternamente votantes do alcaide irresponsável, canalha e omisso, mas facilmente reelegível ou pior, “deputável” na próxima rodada.

Nestas últimas tragédias, o governo federal teve a decência de anunciar (se vai cumprir não sei, mas espero) que não pagará a reconstrução de casas nas áreas de risco. Afinal uma voz de lucidez nessa sucessão de tragédias toleradas e fabricadas. Mas não tenho dúvidas de que os prefeitos, ao invés de repovoar as encostas com espécies de árvores e outras plantas capazes de sustar os desabamentos – aroeiras, pitangueiras, bromélias de grande captação de água e raízes que tecem escoras, trepadeiras nativas de cobertura rápida e outras – ajudarão novamente a plantar malocas de pobres eleitores.

Está, portanto, mais do que na hora de o Ministério Público passar a processar criminalmente os prefeitos por homicídio, cada vez que morrer um favelado de área de risco em locais onde a prefeitura nada fez para removê-lo. Ponha-se um político na cadeia para valer, e as alegações surradas e safadas de “pobrema sossial” que são usadas para evitar o cumprimento da lei e a proteção das encostas florestadas contra a favelização sumirão como cabo eleitoral de perdedor. Ou não? Sugiro experimentar. Neste ou no próximo verão, não importa – enquanto formos coniventes, a devastação das encostas sempre provocará mortes. Só que o culpado principal seguirá escondido não num barraco, mas num gabinete com ar condicionado a pleno… e para cujo funcionamento perdulário querem acabar com a legislação ambiental, mas isso já é outra história.

Leia também

Notícias
21 de janeiro de 2022

Em discurso de pré-candidatura, Ciro Gomes defende economia de baixo carbono

Durante a Convenção Nacional do PDT, o pré-candidato diz que a pauta ambiental é um instrumento de proteção dos ecossistemas e uma oportunidade de investimento

Análises
21 de janeiro de 2022

O Agro quer seguro rural, mas precisa mesmo é do Código Florestal

Sem cumprir as leis ambientais e sofrendo com mudanças climáticas, lideranças do Agro se mobilizam para ampliar o seguro rural com dinheiro público. Rios e florestas seguem em agonia. Moro já aderiu

Reportagens
21 de janeiro de 2022

Brasil registra recorde de extremos de chuva no início do verão

Entre 1º e 31 de dezembro de 2021, a equipe técnica do Cemaden emitiu 516 alertas de risco de desastres, como deslizamentos, inundações e enxurradas, para os 1.058 municípios monitorados

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta