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Calor extremo: o alerta da Europa e os riscos no Brasil

Diferentemente de enchentes, as ondas de calor nem sempre produzem imagens imediatas de destruição. Seus efeitos aparecem nos prontos-socorros, nas residências superaquecidas

29 de junho de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

O calor extremo representa emergência para a saúde pública. A onda de calor que atingiu a Europa em 2026 deve ser lida pelo Brasil como um alerta institucional grave.

Não se trata apenas de episódio climático excepcional, nem de tragédia distante. A França, Espanha, Reino Unido, Itália e outros países europeus já antecipam uma realidade que também ameaça cidades brasileiras: o calor extremo tornou-se uma emergência de saúde pública, educacional, urbana, econômica e social.

Na França, a onda de calor provocou cerca de mil mortes em apenas três dias. A maioria das vítimas eram pessoas idosas, especialmente acima de 65 anos. As ambulâncias não conseguiam atender a demanda. Hospitais receberam mais pacientes com hipertermia, desidratação, insuficiência cardiovascular, agravamento de doenças respiratórias, renais e metabólicas. Esse é o dado central: o calor mata.

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Escolas precisaram fechar ou alterar horários. Transportes, redes elétricas e serviços públicos foram pressionados por temperaturas para as quais a infraestrutura não foi planejada. Sistemas de infraestrutura que dependem de refrigeração hídrica foram paralisados.

Diferentemente de enchentes, deslizamentos ou incêndios, as ondas de calor nem sempre produzem imagens imediatas de destruição. Seus efeitos aparecem nos prontos-socorros, nas casas de idosos, nas residências superaquecidas, nas escolas sem ventilação, na exposição de trabalhadores ao calor, nas periferias impermeabilizadas e nos corpos que não conseguem se recuperar durante noites cada vez mais quentes.

O calor extremo aumenta risco de infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal aguda, crises respiratórias, desidratação severa, distúrbios hidroeletrolíticos, complicações da diabetes, agravamento de doenças neurológicas e transtornos de saúde mental. Muitas mortes associadas ao calor não aparecem oficialmente como mortes “por calor”. São registradas como eventos cardiovasculares, respiratórios ou renais precipitados pelo estresse térmico. Isso torna a tragédia ainda mais invisível.

A Organização Mundial da Saúde estima que, entre 2000 e 2019, ocorreram aproximadamente 489 mil mortes relacionadas ao calor por ano no mundo.

O Lancet Countdown, Lancet Countdown: Tracking Progress on Health and Climate Change, por sua vez, aponta crescimento expressivo da mortalidade associada ao calor nas últimas décadas. Esses números revelam que a crise climática já se transformou em uma epidemia silenciosa.

No Brasil, essa realidade exige uma mudança imediata de postura da administração pública.

Ondas de calor precisam ser incorporadas aos sistemas de vigilância em saúde, à defesa civil, aos serviços de assistência social, aos planos diretores, às políticas habitacionais, aos programas de arborização urbana, às normas de construção, à gestão escolar e ao planejamento hospitalar.

As escolas são um dos pontos mais sensíveis dessa agenda. Crianças submetidas a salas superaquecidas têm sua saúde e sua aprendizagem prejudicadas. O calor reduz a concentração, compromete a memória de trabalho, aumenta a fadiga, provoca irritabilidade, eleva o absenteísmo e dificulta o desempenho cognitivo. Não se aprende bem em uma sala de aula que funciona como uma estufa. Não se ensina bem em ambientes termicamente insalubres.

Escolas não equipadas com ar condicionado são afetadas durante ocorrência de ondas de calor, cada vez mais frequentes. Acima, sala de aula da escola estadual Eliza Rachel Macedo de Souza, na zona leste de São Paulo. Crédito: Zanone Fraissat/Folhapress

A adaptação climática das escolas deve, portanto, ser tratada como política educacional prioritária. Ventilação cruzada, sombreamento, arborização dos pátios, isolamento térmico, telhados adequados, materiais refletivos, áreas verdes e climatização eficiente não são luxo. São condições mínimas para assegurar saúde, permanência escolar e igualdade de aprendizagem.

O mesmo vale para hospitais, unidades básicas de saúde, creches, instituições de longa permanência para idosos, terminais de transporte, moradias populares e equipamentos públicos.

Grande parte da infraestrutura brasileira foi construída para um clima que já não existe. Permanecer inerte diante dessa mudança é transferir para a população o custo da omissão estatal. Esse custo é elevado.

O custo da inação aparece no aumento das internações hospitalares, na sobrecarga do SUS, no crescimento da mortalidade evitável, na perda de produtividade, no aumento dos afastamentos do trabalho, no maior consumo de energia, na interrupção de aulas, na deterioração da infraestrutura urbana e no agravamento das desigualdades sociais.

Trabalhadores da construção civil, da agricultura, da limpeza urbana, da logística, do transporte e de serviços ao ar livre são diretamente afetados. O calor reduz a capacidade física, aumenta o risco de acidentes, exige pausas mais frequentes e diminui a produtividade.

A Organização Internacional do Trabalho já alertou que o estresse térmico tende a produzir perdas expressivas de horas de trabalho no mundo, especialmente em países tropicais e setores expostos.

A inação também custa caro às cidades. Superfícies impermeáveis, ausência de arborização, telhados escuros, excesso de concreto e expansão urbana sem planejamento intensificam ilhas de calor. Isso eleva a temperatura local, aumenta a demanda por energia, pressiona redes elétricas, piora a qualidade do ar e amplia riscos sanitários.

A arborização urbana precisa deixar de ser tratada apenas em seu aspecto estético. Árvores são infraestrutura ambiental, de saúde pública. Áreas verdes reduzem temperatura, melhoram a qualidade do ar, favorecem infiltração da água, reduzem enchentes, oferecem sombra e protegem populações vulneráveis.

A experiência europeia demonstra outro ponto essencial: existe limite para a adaptação. Sem mitigação forte, isto é, sem redução consistente das emissões de gases de efeito estufa e contenção do aquecimento global, a adaptação pode se tornar progressivamente insuficiente. Cidades podem arborizar, escolas podem ser reformadas, hospitais podem criar protocolos, mas, se o aquecimento continuar avançando sem controle, os impactos crescerão mais rápido do que a capacidade de resposta da sociedade.

Mitigação e adaptação são inseparáveis. Quanto mais se reduz o aquecimento, maior é a chance de adaptação bem-sucedida. Quanto mais se adia a redução das emissões, maior será o custo humano, econômico e fiscal da adaptação.

No Brasil, essa agenda tem fundamento constitucional. O direito à saúde, à educação, à vida, à dignidade humana e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado impõe ao Estado o dever de prevenir riscos conhecidos e cientificamente demonstrados. A omissão diante de ondas de calor previsíveis não é apenas falha administrativa. Pode representar violação dos deveres constitucionais de proteção da população.

A administração pública tem obrigação de agir antes de tragédias previsíveis. Isso significa criar planos municipais e estaduais de resposta a ondas de calor, com sistemas de alerta precoce, protocolos hospitalares, busca ativa de idosos isolados, proteção a pessoas em situação de rua, adaptação das escolas, distribuição de água, abertura de refúgios climáticos, revisão de horários de trabalho e aula, ampliação da arborização urbana e monitoramento epidemiológico da mortalidade e da morbidade associadas ao calor.

Também é necessário incorporar o risco climático aos orçamentos públicos. Adaptar cidades custa dinheiro. Mas não adaptar custa mais. Custa em vidas, em internações, em perdas educacionais, em queda de produtividade, em danos à infraestrutura, em judicialização e em sofrimento social.

A Europa está mostrando que o calor extremo é capaz de paralisar sistemas públicos e infraestrutura convencional. O Brasil, mais quente por sua natureza equatorial-tropical, com desigualdades mais profundas, periferias menos arborizadas, moradias mais vulneráveis e infraestrutura pública insuficiente, não pode esperar o colapso para agir.

A pergunta que se impõe às autoridades brasileiras é simples: quantas mortes serão necessárias para que o calor extremo seja tratado como emergência de saúde pública?

O Brasil precisa de uma política nacional de adaptação climática urbana, articulada com Estados e municípios, com financiamento permanente, metas verificáveis e prioridade para crianças, idosos, trabalhadores expostos e populações vulneráveis. Planos retóricos e anúncios cosméticos, ou qualquer outra falácia administrativa do faz-de-conta-que-faz que sustentou discursos fáceis na COP30 devem ser avaliados com a lucidez de controle social. As intervenções reais são urgentes.  

O custo da prevenção é alto, mas o custo da omissão é incomparavelmente maior. Governar em tempos de crise climática significa proteger vidas antes que o desastre aconteça. Significa compreender que escolas, hospitais, moradias, ruas, praças, transportes e redes de energia precisam ser redesenhados para um clima que já mudou.

A adaptação climática torna-se, cada vez mais, política de sobrevivência, exigência sanitária, obrigação educacional, decisão econômica racional e dever constitucional.

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