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O recado das urnas para a floresta

Os brasileiros votaram pedindo menor custo de vida e maior segurança. Por que a Amazônia é vital para os eleitos satisfazerem essas demandas

20 de outubro de 2026

Os eleitores brasileiros passaram um recado claro nas urnas no ciclo eleitoral do país. Independente de suas escolhas para os cargos em disputa, as duas principais pautas eram custo de vida e segurança. De um lado, os brasileiros expressaram claramente que estão preocupados com a inflação, com sua capacidade de comprar bens e serviços para manter a qualidade de vida para si e para sua família. E por outro lado, os brasileiros também manifestaram sem sombra de dúvidas que estão preocupados com a escalada de violência, com o crescimento do poder das quadrilhas, do crime organizado em geral, desorganizando a liberdade de ir e vir das pessoas e ameaçando a sensação de bem-estar também de cada uma de suas famílias. Isso significa que todos os políticos eleitos devem ter isso em mente. Eles assumem sabendo que têm um mandato para entregar capacidade de compra e sensação de segurança aos brasileiros.

Para poder entregar isso, presidente, governadores, deputados federais, deputados estaduais e senadores têm um grande aliado: a floresta brasileira. A floresta brasileira é a infraestrutura que nos garante capacidade de produção de energia e alimentos com condições favoráveis para segurar a escalada da inflação e evitar momentos de escassez. A defesa da floresta brasileira também está associada ao combate ao crime organizado. Atacar o crime ambiental ajuda a enfraquecer as outras formas de crime, que acabam ameaçando as vidas das pessoas em todo o país, inclusive nos grandes centros urbanos do Sul, Sudeste e Nordeste.

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Vamos começar pela relação entre a manutenção da floresta e dos serviços que ela presta à produção de alimentos, a oferta de comida abundante para o nosso prato e a manutenção dos preços sob controle. Essa conexão passa pelos chamados rios voadores, grandes correntes de vapor d’água que se formam a partir da umidade liberada pelas árvores e são transportadas pelos ventos para outras regiões do Brasil. A floresta amazônica funciona, então, como uma grande fonte de umidade para as precipitações que abastecem áreas agrícolas do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul. Desse regime climático dependem culturas como soja, milho, feijão e café, essenciais à alimentação dos brasileiros. Com o desmatamento, menos vapor chega à atmosfera, o que pode diminuir o volume de chuva e tornar sua distribuição mais irregular. Neste cenário de imprevisibilidade, os agricultores precisam investir em adaptação climática, como por exemplo irrigação, plantio direto, monitoramento meteorológico e bioinsumos. Com juros altos, crédito caro e margens apertadas, esse investimento custa caro e a crise do clima acaba por cobrar duas vezes, primeiro de quem planta, depois de quem compra. 

O feijão é um exemplo dos impactos da instabilidade climática na produção de alimentos. A irregularidade das chuvas prejudicou as duas primeiras safras de 2026, e a produção foi estimada em 2,97 milhões de toneladas, a menor em quatro anos. A disponibilidade interna, ou seja, a quantidade de feijão disponível para abastecer o mercado brasileiro, é a mais baixa em uma década. Até maio, o preço do feijão carioca pago ao produtor acumulava alta de 85% a 90%.

A chegada do El Niño também preocupa. O fenômeno climático natural aquece as águas do Oceano Pacífico e altera o regime de chuvas no Brasil. Previsto para atingir seu pico entre outubro e dezembro deste ano, o  El Niño deve coincidir com o período de plantio da soja. Se a semeadura atrasar, haverá menos tempo para plantar o milho safrinha, cultivado após a colheita da soja. Essas mudanças podem reduzir a produção de grãos, pressionar os preços dos alimentos e contribuir ainda mais para o aumento da inflação. Acontece que a massa de cobertura florestal no país em geral e nas proximidades das regiões de plantio em particular atua como um atenuador das discrepâncias climáticas. A floresta equilibra o clima local. Reduz os extremos de seca e calor. Por isso, ela protege contra eventos como o El Niño. 

O segundo papel importante da floresta para manter a inflação sob controle está na conta de energia. Um estudo do projeto Amazônia 2030 e do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), mostrou que a derrubada da floresta já gera prejuízos anuais bilionários, sobretudo no setor elétrico. Em números, o desmatamento já faz as duas maiores hidrelétricas do país, Itaipu e Belo Monte, perderem cerca de 3.800 gigawatt-hora de capacidade de geração por ano, o que representa mais de R$ 1 bilhão em receita. É energia suficiente para abastecer todo o estado de Rondônia, por exemplo. Com menor geração hidrelétrica,  a geração de energia passa a depender de fontes mais caras, como as termelétricas. Essa conta chega até o consumidor, que vê suas despesas essenciais subirem mais rápido que o seu salário. 

No mês passado, o IPCA, indicador oficial da inflação no Brasil, subiu 0,82%. Em 12 meses, a alta chegou a 4,58%, acima do teto da meta, de 4,5%. Os preços dos alimentos e das bebidas avançaram 0,83%, interrompendo três meses consecutivos de queda. Quando o supermercado fica mais caro, as famílias de menor renda têm mais dificuldade para colocar comida de verdade na mesa. Por isso, proteger a floresta é tão importante. Manter a floresta em pé significa cuidar da nossa fábrica de chuvas e garantir as condições necessárias para produzir alimentos de forma sustentável e acessível à população, fortalecendo a segurança alimentar e combatendo a fome. 

Finalmente, existe a relação entre o crime ambiental e a crise nacional de segurança pública. A violência não é uma novidade nos estados amazônicos, mas um alicerce dos inúmeros processos históricos de ocupação da região. A dinâmica do crime local, porém, mudou conforme o tempo. Hoje, o crime organizado representa uma das maiores ameaças à Amazônia e ao país. As facções ficam no território, articulando crimes ambientais, grilagem de terras, narcotráfico e tráfico de armas. Com sua importância estratégica como rota central de drogas e conexão transnacional, a Amazônia virou um grande hub logístico do crime organizado. 

Um outro estudo do projeto Amazônia 2030 prova isso. Até meados dos anos 2000, os homicídios na região estavam mais associados à exploração ilegal de madeira. Nos anos seguintes, ganharam força os conflitos ligados à grilagem de terras e à mineração ilegal de ouro. A partir da segunda metade da década de 2010, sobretudo após 2018, as facções ligadas ao tráfico de drogas passaram a ocupar um papel central. Os dados são claros. O percentual de mortes associadas à presença de facções criminosas na Amazônia Legal saltou de 29% até 2017 para 56% entre 2018 e 2023. Ou seja, em poucos anos, a proporção quase dobrou.

Os autores deste estudo alertam sobre tratar políticas ambientais eficazes como políticas de segurança pública. De forma prática, investir em fiscalização ambiental significa investir em estabilidade institucional, redução de homicídios e desenvolvimento sustentável. Onde o Estado avança, o crime organizado recua e, por conseguinte, enfraquece. Políticas de monitoramento, comando e controle têm potencial para interromper ciclos de violência rural e consolidar amparo estatal em áreas historicamente vulneráveis e, por conta disso, fortalecer operações coordenadas entre órgãos ambientais, forças policiais e estruturas locais de governança é o primeiro passo. Por isso, proteger a floresta é também proteger vidas.

Mais claro, impossível. A floresta precisa estar no centro dos planos dos governos federal e estaduais. E ela também deve estar na cabeça dos legisladores. Ela será a maior – e melhor – aliada dos seus mandatos. E não importa o espectro político, mantê-la em pé é um ativo de sobrevivência e qualidade de vida. A crise do clima já está associada a riscos fiscais – e isso põe o próximo governo em risco. As contas públicas precisam fechar e a dos brasileiros também. Vamos nos voltar às florestas.

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