O Eco+ | Edição #288 | abril/2026
19 de abril de 2026
Ao ver a notícia sobre o nome de uma nova planta da Caatinga homenagear a arqueóloga Niède Guidon, pesquisadora que colocou a Serra da Capivara, no Piauí, nos holofotes acadêmicos do mundo todo, o fotógrafo Adriano Gambarini relembra a vez, em 2002, quando foi contratado para produzir um livro sobre o local e teve a experiência de conhecê-lo junto com Niède. “Certo dia, quando Niède já sabia do meu envolvimento na documentação sistemática de projetos de pesquisa com onças-pintadas, levou-me a um sítio arqueológico não aberto a visitação. Minha empolgação em cruzar a Caatinga seca para alcançar um lugar onde só arqueólogos tinham acesso, era enorme. Horas de carro e mais um tanto de caminhada e lá chegamos num pequeno abrigo de pedra. Discreta na penumbra, encontramos uma pintura rupestre representando uma verdadeira caçada: uma pequena onça expondo as unhas, com as orelhas arredondadas, cercada por dezenas de pequenas figuras humanas carregando lanças. Me transportei no tempo e imaginei aquele momento. Percebi a exata percepção das dimensões da cena que o ‘artista’ quis representar: o tamanho do animal perto da figura diminuta dos caçadores. E porque não dizer o respeito ao grande predador que aqueles homens já tinham”, escreveu.
A criação de uma área protegida no norte de Minas Gerais foi comemorada pelo governo federal em Campo Grande (MS), no final de março. “Alia justiça social, conservação e foi construída com a participação direta das comunidades geraizeiras”, afirmou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ao lado do presidente Lula (PT). A boa notícia, entretanto, esconde um processo de disputa de forças com mineradoras, a silvicultura e políticos locais que resultou na exclusão de parte da proposta original, o Vale do Peixe Bravo, onde está um dos mais preservados ecossistemas ferruginosos do país. E não só isso: uma vasta extensão de Cerrado onde vivem comunidades quilombolas e geraizeiras, além de nascentes e paleotocas. Este é o tema da segunda reportagem feita por Duda Menegassi, de ((o))eco e Daniel Camargos, da Repórter Brasil. Segundo os repórteres, a pressão por trás da redefinição de limites da então Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Tamanduá-Poções-Peixe Bravo envolveu uma promessa bilionária de investimentos atribuída à Vale por prefeitos da região, para transformar o Peixe Bravo numa nova fronteira de exploração minerária.
Apesar do aumento de gastos climáticos nos últimos anos, o Brasil dedica menos de 1% do PIB na prevenção de eventos climáticos e já perdeu cerca de R$110 bilhões por ano do Produto Interno Bruto (PIB) devido a secas e chuvas intensas. A estimativa foi apresentada esta semana no relatório “Impactos Econômicos de Eventos Extremos no Brasil”, elaborado pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento em parceria com o Instituto Clima e Sociedade, que dimensionam o impacto econômico da crise climática e a resposta fiscal do país. O estudo, feito em conjunto com o relatório “Orçamento Climático Nacional”, indica que, em um cenário de aquecimento global de +2°C, as perdas podem chegar a R$144,6 bilhões anuais, reflexo do aumento da frequência e intensidade de eventos extremos, noticia Karina Pinheiro.
Boa leitura!
Redação ((o))eco
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Entre os dias 7 e 9 de junho, a UCBio 2026 chega a Curitiba/PR. A Conferência Nacional de Unidades de Conservação é um espaço que reúne especialistas, gestores, lideranças e pessoas interessadas em discutir o papel estratégico das Unidades de Conservação, dos Parques Nacionais e da proteção da biodiversidade no Brasil. E você, como membro apoiador de ((o))eco, tem uma condição especial: use o cupom OECO30 e garanta 30% de desconto na sua inscrição.
Parques Nacionais: conservar para todos o que é de todos!
· Destaques ·
Nìède, a Serra da Capivara e eu
Governo cria reserva, mas exclui da proteção área com quilombolas e paleotocas
Brasil dedica menos de 1% do PIB em prevenção de eventos climáticos
· Conservação no Mundo ·
Futuro das florestas. Uma nova análise de horizontes identifica dez forças emergentes que provavelmente moldarão as florestas na próxima década, aumentando a incerteza para os ecossistemas e as pessoas que dependem deles. Essas forças vão além de qualquer fator isolado. As mudanças na política, nas finanças e na tecnologia estão ocorrendo simultaneamente, muitas vezes de maneiras que se reforçam mutuamente. O resultado é uma maior incerteza para os ecossistemas e para aqueles que dependem deles. Um novo estudo prospectivo, publicado na revista Forest Policy and Economics e liderado por Matilda Kabutey-Ongor, busca mapear essas mudanças. [Mongabay]
‘Vampiro vegano’ acuado. Uma nova pesquisa revela que pelo menos 254 espécies de morcegos sofrem pressão de caçadores, o que pode levar algumas delas à extinção. Um exemplo é o que ocorre com o morcego-raposa-malaio, uma das maiores espécies de morcego do mundo, que possui uma envergadura de quase 1,5 metro e um nome taxonômico sinistro: Pteropus vampyrus. Mas, apesar do nome que evoca sangue e da aparência imponente, o morcego-raposa não representa uma ameaça, muito menos um vampiro. Como frugívoro, alimenta-se apenas de frutas, flores e néctar. Mesmo assim, virou alvo. No ano passado, a Lista Vermelha da IUCN, que avalia o risco de extinção de espécies em todo o mundo, classificou o morcego-raposa-malaio como espécie em perigo de extinção devido à perda de habitat e à “pressão de caça intensiva e insustentável em toda a sua área de distribuição”. [The Revelator]
· Dicas Culturais ·
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Vitória Régia | Curta-metragem
Ambientado em uma realidade paralela, onde um candidato derrotado nas urnas consegue dar um golpe de Estado no Brasil com apoio dos Estados Unidos, a Amazônia é entregue aos interesses estrangeiros e rebatizada de “Amazon of America”. Nesse cenário, nasce uma resistência formada por Povos Indígenas e Comunidades Quilombolas para defender o território e o futuro. O filme marca uma união histórica entre o audiovisual brasileiro e o movimento indígena (COIAB, APIB e G9). Idealizado pelo coletivo Zero, escrito por Carol Pires e dirigido por Cisma, o curta integra a campanha “A Resposta Somos Nós”, do movimento indígena brasileiro. Protagonizado por Alice Braga, o curta reúne nomes de peso como Caio Horowicz, Marina Person, Marat Descartes, Hodari e as lideranças e artistas indígenas Ywyzar Tentehar e Ayra Kopém.
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Defendendo os oceanos e a interdependência ambiental | Cria Raiz
No último episódio da temporada de verão do CRIA RAIZ, Kamila Camilo recebe os ativistas Nathalie Gil e Paul Watson para uma conversa sobre o trabalho que eles desenvolvem na Sea Shepherd em prol da proteção dos oceanos e da biodiversidade marinha. Durante a conversa eles refletem sobre a interdependência dos ecossistemas, justiça social, território e como todo mundo pode colaborar nessa missão em prol da vida.
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Há mundo por vir? | Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro
O fim do mundo é um tema aparentemente interminável – pelo menos, é claro, até que ele aconteça. O registro etnográfico consigna uma variedade de maneiras pelas quais as culturas humanas têm imaginado a desarticulação dos quadros espaçotemporais da história. Algumas dessas imaginações ganharam uma nova vida a partir dos anos 90 do século passado, quando se formou o consenso científico a respeito das transformações em curso do regime termodinâmico do planeta. Os materiais e análises sobre as causas (antrópicas) e as consequências (catastróficas) da “crise” planetária vêm se acumulando com extrema rapidez, mobilizando tanto a percepção popular quanto a reflexão acadêmica. Este livro é uma tentativa de levar a sério os discursos atuais sobre o “fim do mundo”, tomando-os como experiências de pensamento acerca da virada da aventura antropológica ocidental para o declínio, isto é, como tentativas de invenção, não necessariamente deliberadas, de uma mitologia adequada ao presente.







