O gado que sai da Amazônia já chega em países compradores importantes do mercado internacional, como China, Estados Unidos e União Europeia (UE), mas essas relações comerciais estão instáveis e o setor tem espaço ainda para crescer, especialmente se focar no aumento da produtividade sem novos desmatamentos. É o que avalia Camila Trigueiro, pesquisadora do Imazon, que destaca que o Governo Federal tem se aproximado de outros países que importam carne, como o Japão e a Coreia do Sul.
Segundo Trigueiro, o mercado dos Estados Unidos está instável desde o tarifaço e a cota de importação permitida na China já esgotou neste ano para o Brasil. Então, existe um receio do setor de o Brasil acabar perdendo mercado e, por isso, há um movimento para diversificar as opções de compradores. “São potencialmente mercados interessantes para o Brasil, que ainda não acessamos por vários motivos”, complementa.
Um dos fatores é que os Estados Unidos e a Austrália foram se consolidando ao longo dos anos para venderem carne para o Japão e para a Coreia do Sul, atendendo às exigências desses países e se adequando às burocracia internas. “A Coreia tem acordo de livre comércio com os Estados Unidos, o que acaba facilitando esse comércio entre eles em questão de preço”, informa. Desse modo, Japão e Coreia do Sul já associam o gado da Austrália e dos Estados Unidos com segurança, confiança e sanidade, uma credibilidade que o Brasil ainda teria que conquistar.
Um dos critérios que esses países exigiam há algum tempo é de que o país exportador seja livre de aftosa sem vacinação, o que só aconteceu recentemente no Brasil. “Agora já dá para pleitear esses mercados mais exigentes, mas uma dinâmica comum é que quando esses territórios conseguem a certificação, quase que imediatamente já começam com a implementação da identificação individual dos animais. Porque se acontecer algum surto de doença, eles conseguem rastrear muito rápido e identificar onde está o problema”, explica.
Mas o Brasil ainda não chegou lá. O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), lançado em julho de 2025, estipula que até 2029 sejam identificados individualmente e cadastrados no sistema todos os animais que vão passar por manejo sanitário, como a vacinação contra brucelose, uma doença bacteriana que afeta animais de criação (gado, porcos e cabras).
Já o Programa Pecuária Sustentável do Pará conseguiu identificar apenas menos de 2% do rebanho total nos dois primeiros anos da iniciativa e o prazo se estendeu para mais um ciclo eleitoral: até 2030.
Sustentabilidade aparece em segundo plano em diversos mercados internacionais
Ainda que o debate sobre pecuária sustentável esteja aquecido num contexto internacional, na prática poucos países importadores parecem estar se preocupando efetivamente com isso, conforme análise de Camila Trigueiro. “Em questões de produtividade, creio que o Brasil consegue produzir para atender novos mercados. No entanto, o que precisa é atentar para critérios de sanidade animal. Sobre os critérios de sustentabilidade, outros mercados não parecem estar se movimentando para exigir sustentabilidade, além da União Europeia, China e Estados Unidos”, destaca.
O Oriente Médio e Norte da África (bloco MENA, na sigla em inglês), por exemplo, é um mercado relevante para o gado na Amazônia. Segundo relatório do Radar Verde, publicado em 2025, esse mercado representa um destino comercial estratégico de US$ 1,79 bilhão para a carne brasileira. “As exportações de carne do Brasil para essa região cresceu muito no último ano, talvez porque se mostrou como uma opção para as exportações que iam anteriormente para a China”, diz.
Na Amazônia Legal, existem 72 frigoríficos (pertencentes a 32 empresas) autorizados a exportar para os principais países do bloco MENA, somando 58% da capacidade regional de abate. Essas empresas estão em conformidade com normas sanitárias e com o padrão de certificação estabelecido, mas caso hoje esse mercado começasse a exigir alto nível de controle dos fornecedores diretos, apenas 54% das plantas poderiam atender a esses requisitos (representando 35% da capacidade de abate da Amazônia) e nenhuma das unidades consegue comprovar controle e auditado sobre os fornecedores indiretos.
“Esse é um mercado que ainda não está muito articulado com o tema da sustentabilidade na cadeia da carne, inclusive fazemos recomendações simples que eles poderiam incorporar, como filtrar frigoríficos com menor exposição ao risco de desmatamento, priorizar aqueles com mais transparência, controle, mesmo que seja só a priori sobre os fornecedores diretos”, ressalta Camila Trigueiro.
Ainda assim, a pesquisadora observa que a União Europeia, Estados Unidos e a China têm grande influência sobre as práticas internacionais. “Acredito que apenas nos próximos anos vamos conseguir avaliar se o Brasil vai preferir focar e melhorar as suas práticas para atender à demanda desses mercados mais exigentes ou se vai preferiir conquistar outros mercados, novos mercados que não tem essas essas exigências sustentáveis, mas que possivelmente também não consomem o mesmo volume”, conclui.
Para o gado que sai da Amazônia, atender a um mercado mais exigente do ponto de vista socioambiental seria “ainda mais delicado”, pontua Trigueiro, principalmente pelo histórico de correlação entre pecuária e desmatamento ilegal e de lacunas na regularização fundiária.
Panorama da exportação da Amazônia para UE, China e EUA
Enquanto o bloco MENA no momento não faz muitas exigências ligadas à sustentabilidade, a União Europeia já exige due diligence (uma investigação detalhada de riscos legais, ambientais, fiscais e operacionais) e geolocalização de todas as propriedades por onde os animais passaram. Atualmente, a rastreabilidade individual sanitária oficial do Brasil (SISBOV) cobre apenas os 90 dias anteriores ao abate e não registra o histórico em fazendas anteriores de origem.
Pela análise do Radar Verde, em 2025, 15 frigoríficos localizados na Amazônia Legal (todos situados no estado de Mato Grosso) estavam autorizados a exportar para a UE, mas 87% deles plantas tinham baixo controle e 13% muito baixo controle sobre a cadeia do gado.
Do mesmo modo, os Estados Unidos exigem sistemas públicos de due diligence e rastreamento de fornecedores diretos e indiretos e também há 15 frigoríficos com licença para exportar carne bovina para o país, desde a Amazônia Legal. Embora 93% das unidades sejam signatárias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal, nenhuma respondeu ao questionário do Radar Verde em 2025, por isso 100% dos frigoríficos licenciados obtiveram desempenho classificado como de baixa ou muito baixa efetividade em suas políticas contra o desmatamento.
Para Alexandre Mansur, diretor de projetos do Mundo Que Queremos, já passou da hora da pecuária amazônica correr atrás de garantir um controle alto da cadeia para conquistar maior fatia do mercado global. “Se um comprador grande como a China sinaliza que quer comprar carnes com garantias maiores, é a hora de aproveitar isso, trabalhar para oferecer para esses países pacotes especiais de carne com controle”, acredita.
Mansur afirma ainda que os governantes devem enxergar os programas de pecuária sustentável como uma vantagem de mercado. “É uma medida para melhorar um setor importante do Brasil, melhorar a competitividade, a produtividade, recuperar terras degradadas, empregar mais gente, melhorar a qualidade do emprego no campo, ou seja, investir no controle da pecuária é propor medidas que têm benefícios sociais e econômicos imediatos”, salienta.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Relação Brasil-China pode impulsionar rastreabilidade da carne bovina na Amazônia
Maior comprador de carne e soja brasileiras, país asiático pode ajudar a transformar exigências comerciais em incentivos para integrar sistemas e melhorar a transparência das cadeias →
Dinastia Amazônia
Demanda da China sobre o agronegócio brasileiro impacta na preservação da floresta, mas também pode moldar seu futuro →
Rastreabilidade da soja e da carne esbarra na falta de integração
Estudo do WRI Brasil analisou 21 iniciativas no país e defende um protocolo nacional para conectar sistemas e critérios →

