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“Eu nasci de óculos”

O animal da semana, urso-de-óculos, é típico dos páramos andinos e o único urso característico da América do Sul.

Redação ((o))eco ·
27 de março de 2014 · 8 anos atrás

Esta é Billie Jean, um urso- de-óculos fêmea, hóspede do Zoológico Nacional Smithsonian nos Estados Unidos. Foto:
Esta é Billie Jean, um urso- de-óculos fêmea, hóspede do Zoológico Nacional Smithsonian nos Estados Unidos. Foto:

Os óculos que dão o apelido ao urso-de-óculos (Tremarctos ornatus) são, na verdade, manchas bege ou gengibre que cobrem o peito, pescoço e também o rosto do animal, onde formam padrão que dão esta impressão. O resto dos pelos são totalmente negros, podendo variar para o marrom escuro ou até o vermelho em alguns indivíduos. Ele é o único urso nativo (endêmico) da América do Sul, mais especificamente da região dos páramos andinos.

Também conhecido como urso-andino, oso de anteojos (espanhol), spectacled bear (inglês) ou ainda urso-de-lunetas, a espécie é a última sobrevivente da subfamília dos ursídeos (Ursidae) de focinho curto, os Tremarctinae. As demais espécies estão extintas desde o Pleistoceno e pertenciam a quatro gêneros: Tremarctos floridanus, urso-de-óculos da Flórida; os Plionarctos (P. edensis e P. harroldorum) e Arctodus (A. pristinus e A. simus) norte-americanos; e os ursos de focinho curto gigantes sul-americanos Arctotherium (A. latidens, A. brasilense, A. angustidens, A. vetustum, A. bonariense, A. tarijense, e A. wingei).

O urso-de-óculos é encontrado do oeste da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia ocidental, e noroeste da Argentina, ao longo da Cordilheira dos Andes. Seu habitat ideal são as florestas úmidas de altitude que ocupam uma faixa entre 1.000 e 2.700 m. Geralmente, o quanto mais úmido essas florestas são, maiores e mais variadas as fontes de alimentos para o urso.

Embora possa ser considerado um carnívoro, apenas 5% da dieta do animal inclui carnes. A maior parte da dieta do urso-de-óculos é vegetariana, consistindo principalmente de frutos da época e de bromélias, que são abundantes nas árvores das florestas andinas. Também consomem cactos, brotos de bambu, milho, raízes, insetos, pequenos mamíferos (coelhos e roedores) e até mesmo carcaças de animais mortos (carniça).

Os machos ursos são um terço maiores que as fêmeas em tamanho e, às vezes, duas vezes o seu peso. Eles podem chegar a pesar cerca de 120 kg de peso, enquanto que elas chegam a pesar 60 kg. A espécie mede de 1,20m a 2,00 metros de comprimento, mas os machos adultos não ficam abaixo de 1,50 metros.

Estes ursos são solitários, tendem a isolar-se uns dos outros para evitar a concorrência, mas não são territoriais. Possuem hábitos terrestres e arborícolas, sendo excelentes escaladores. Animais engenhosos, costumam construir plataformas nas árvores, para ajudar na ocultação, bem como para descansar e armazenar alimentos. Seu comportamento é dócil e cauteloso: quando em contato com o homem ou predadores (outros ursos-de-óculos e, dependendo do local, onças pardas), se afastam e partem para seus esconderijos nas árvores. Mas as fêmeas que considerarem suas crias sob alguma ameaça partem para a defesa.

O período de acasalamento pode ocorrer em qualquer época do ano, mas a atividade é mais frequente nos meses de abril e junho, no início da estação das chuvas e que corresponde ao amadurecimento das frutas. O tamanho da ninhada é relacionado à abundância e variedade de fontes de alimentos. Nascimentos geralmente ocorrem na estação seca, entre dezembro e fevereiro. A gestação dura de 6 a 7 meses, nascendo no máximo 3 filhotes, que pesam 300 a 330 g cada um. Após o terceiro mês começam a caminhar e no sexto passam a acompanhar a mãe nos seus passeios.

O Tremarctos ornatus pode ser considerado como a espécie mais vulnerável dentre todos os ursídeos, com exceção ao seu primo mais próximo, o panda gigante da China. A população de ursos-de-óculos está sob ameaça por uma série de razões: perda e fragmentação de habitats, a caça ilegal, bem como a falta de conhecimento sobre a distribuição e status da espécie. As atividades humanas reduzem habitats viáveis, em grande parte pela expansão da fronteira agrícola e também pela mineração, o desenvolvimento de estradas e exploração de petróleo. Outras causas de fragmentação são as comunidades locais, devido à expropriação da terra e contaminação da água e do solo. Hoje, apenas 5% das florestas andinas ainda permanecem de pé.

A caça também é séria ameaça. Ursos são frequentemente mortos após danificar colheitas, especialmente de milho, ou depois de supostamente matar o gado, embora a espécie não possa consumir grandes quantidades de carne. Além disso, produtos derivados do urso andinos são usados para fins medicinais ou rituais e em algumas localidades, a carne de urso andino é altamente valorizada.

A falta de conhecimento (ou o conhecimento desatualizado) sobre a distribuição e status é um problema que impede a realização de ações de conservação adequadas. Com uma população em declínio constante pelos fatores mencionados, a espécie é considerada Vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN.

 

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