Notícias

Após 70 anos, onças-pintadas estão de volta nas zonas úmidas de Iberá, na Argentina

Equipe de conservacionistas trabalha para soltar mais seis felinos no Parque Nacional Iberá. Local virou parque em 2018, após doação de terras para o governo argentino

Daniele Bragança ·
26 de janeiro de 2021 · 4 anos atrás
A mãe, Mariua, e os seus filhotes de quatro meses nascidos em cativeiro, Karai e Porã. Foto: Tompkins Conservation.

Após 70 anos sem a presença da onça-pintada na região, uma fêmea adulta e dois filhotes nascidos em cativeiro voltam a habitar a região do Parque Nacional Iberá, localizado na província de Corrientes, na Argentina. A soltura da família ocorreu na semana passada, após participarem de um longo processo de adaptação para poderem sobreviver na natureza. 

A fêmea Mariua e seus dois filhotes nascidos em cativeiro, Karai e Porã, de 4 meses, são os pioneiros da iniciativa que quer restaurar a espécie na região e salvar a onça-pintada do desaparecimento: atualmente, menos de 200 onças-pintadas vivem na Argentina. 

O restabelecimento de populações de espécies nativas em áreas onde elas haviam sido extintas é uma das principais ferramentas da conservação para restaurar espécies e ecossistemas. Em Iberá, a reprodução em cativeiro, reabilitação, aclimatação e posterior soltura para povoamento é uma iniciativa da organização Tompkins Conservation, com apoio técnico da Fundação Rewilding Argentina e parceiros locais. A própria criação da unidade de conservação contou com a participação ativa das duas fundações, já que as terras foram compradas pelas instituições e doadas para o governo para que ali se criasse uma área protegida. 

O portão do cercado de aclimatação ficou aberto e as três onças puderam seguir rumo à liberdade. Foto: Governo da Argentina.

No Parque, está localizado o Centro de Reintrodução de onças-pintadas, com 9 espécimes sendo preparadas para voltar à natureza. Na segunda-feira (18), o portão da área de cercado da aclimatação permaneceu aberto e a Maiuá e seus filhotes puderam, enfim, sair para viver na área onde seus iguais foram dizimados décadas antes, pela caça e perda de habitat. 

“Hoje libertamos três exemplares neste ecossistema único que são os esteros del Iberá e celebramos dois novos nascimentos de outra ninhada numa área onde esta espécie emblemática esteve ausente durante 70 anos”, disse na ocasião o ministro de Meio Ambiente da Argentina, Juan Cabandié. 

Apesar do trabalho de repovoamento de onças ainda estar em uma fase inicial, a equipe do parque argentino estima que a iniciativa pode se tornar referência para outras regiões do continente americano.  

O Centro de Reintrodução já conseguiu a reprodução em cativeiro de seis filhotes ao todo, contando com Karai e Porã. Os outros quatro deverão também partir até o fim de 2021. As onças adultas serão monitoradas pelo projeto com colar transmissor GPS e VHF. 

Restauração completa 

Além da reintrodução de onças, o projeto tem como objetivo reintroduzir a fauna, controlar o número de presas e reequilibrar o ecossistema local. Tamanduás-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), veados-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), queixadas (Tayassu pecari) e araras-vermelhas e verdes (Ara chloropterus) são alguns dos outros animais que foram assistidos pelo trabalho de repovoamento local. 

O projeto também impactou a economia da região com o aumento das oportunidades de trabalho focado em ecoturismo para os moradores. “As cidades do entorno de Iberá mudaram suas economias e hoje, grande parte do movimento econômico da cidade, de empregos, tem a ver com atividades de ecoturismo baseadas na observação da vida selvagem. Nesse sentido, a onça-pintada é um motor das economias locais porque é uma das espécies icônicas que as pessoas vão querer ver. É um símbolo cultural ”, disse Sebastián Di Martino, diretor de conservação da Fundação Rewilding Argentina, em entrevista ao jornal La Nacion.

Antes de serem liberadas, os animais foram estimuladas a desenvolver habilidades de caça e a acasalarem para se reproduzirem e povoarem os pântanos da região. Foto: Governo da Argentina.

 

Leia Também 

Extintos há 200 anos, jabutis são reintroduzidos no Parque Nacional da Tijuca

Caça e tráfico de onças disparam em estados bolivianos na fronteira com o Brasil

Pescadores alimentando onças são nova dor de cabeça no Pantanal

 

  • Daniele Bragança

    Repórter e editora do site ((o))eco, especializada na cobertura de legislação e política ambiental.

Leia também

Reportagens
12 de agosto de 2020

Pescadores alimentando onças são nova dor de cabeça no Pantanal

Prática está disseminada em vários pontos do Mato Grosso do Sul e oferece riscos às pessoas e aos felinos. Pesquisadores avaliam que problema será contido não só com fiscalização, mas pela educação dos turistas

Reportagens
11 de novembro de 2020

Caça e tráfico de onças disparam em estados bolivianos na fronteira com o Brasil

Investigação reforça que estados bolivianos próximos do Brasil são focos de caça e comércio clandestino de onças. Ilegalidades ganharam força com maior presença chinesa na América do Sul

Reportagens
3 de fevereiro de 2020

Extintos há 200 anos, jabutis são reintroduzidos no Parque Nacional da Tijuca

Animais haviam sido extintos pela exploração humana há tanto tempo que biólogos tiveram que recorrer à naturalista do século XIX para descobrir qual espécie era nativa de lá

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comentários 4

  1. Ricart diz:

    Deus abençoe que dê tudo certo.


  2. Disseram-me que o Jatobazinho, resgatado duas vezes de grande dificuldade, foi cedido ao Parque argentino de Yberá. Confirmado que ele é o pai destas crianças, há planos para sua soltura? Obrigada!


  3. Fernando Fernandez diz:

    Maravilhosa notícia! Parabéns a todos os colegas do Iberá!


  4. Paulo diz:

    Excelente trabalho de Biologia da Conservação.