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Conferência sobre fim dos fósseis aposta em “coalizão de ação” fora da ONU

Fora do formato das COPs, encontro aposta em coalizão de países para avançar na implementação da agenda climática

Karina Pinheiro ·
24 de abril de 2026

Começou nesta sexta-feira (24), em Santa Marta, na Colômbia, a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, encontro que busca acelerar a implementação de compromissos climáticos em um momento de estagnação nas negociações multilaterais sobre energia e clima. Reunindo representantes de 53 países, especialistas, setor privado e organizações da sociedade civil, a conferência foi concebida fora da estrutura formal das Nações Unidas e sem o caráter negociador das Conferências do Clima (COPs). A proposta é funcionar como uma plataforma política para destravar ações concretas e articular países dispostos a avançar além dos consensos mínimos produzidos no âmbito da UNFCCC.

A iniciativa é liderada pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos e ocorre em um contexto de insatisfação com o ritmo de implementação dos compromissos assumidos desde a COP28, em Dubai, quando os países concordaram, pela primeira vez, em “transitar para longe dos combustíveis fósseis”. Embora celebrado como marco diplomático, o acordo deixou em aberto como e em que velocidade esse processo deverá ocorrer. A aposta é que, fora do modelo tradicional de negociações travadas por vetos e interesses geopolíticos, uma coalizão de países possa impulsionar medidas práticas em temas como financiamento, regulação e alternativas econômicas para regiões dependentes da indústria fóssil.

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Segundo o Observatório do Clima, o encontro também pode influenciar a construção do “mapa do caminho” global para a transição energética defendido pela presidência brasileira da COP30 e projetado para ganhar corpo rumo à COP31. A especialista em política climática da rede, Stela Herschmann, avalia que Santa Marta pode funcionar como um ponto de convergência entre processos paralelos e as negociações formais. “O OC está atento a ambos os processos, suas sinergias, complementaridades e principalmente desdobramentos”, afirmou.

Entre os temas que ganham centralidade na conferência está a proposta apresentada por organizações socioambientais para criação de zonas livres de petróleo e gás fóssil, áreas em que governos se comprometeriam a barrar novas licenças, exploração e expansão de infraestrutura fóssil. A ideia, segundo as organizações proponentes, é criar mecanismos territoriais de contenção da expansão petrolífera em regiões ecologicamente estratégicas e de alta vulnerabilidade climática, conectando o debate energético à proteção da biodiversidade, dos oceanos e dos territórios indígenas e tradicionais.

A proposta mira especialmente novas fronteiras de exploração na América Latina, onde a pressão por abertura de blocos petrolíferos tem crescido mesmo em áreas sensíveis. A Amazônia aparece como eixo central dessa discussão. Para a coordenadora de Oceanos do Greenpeace Brasil, Mariana Andrade, a região vem sendo tratada como nova fronteira global da indústria fóssil, tendo a Foz do Amazonas como caso emblemático. “Em Santa Marta, esperamos que os países reforcem a urgência de barrar a expansão da indústria fóssil na Amazônia antes que os danos sejam irreversíveis”, afirmou.

A defesa dessas zonas livres dialoga com a articulação de países e movimentos que tentam deslocar o debate climático do campo da mitigação abstrata para decisões concretas sobre não expansão fóssil. Entre os defensores da proposta está a Colômbia, que vem buscando projetar uma agenda internacional mais assertiva sobre o tema. O governo colombiano tem defendido a construção de alianças políticas que tratem a eliminação gradual dos fósseis não apenas como meta climática, mas como estratégia de segurança ecológica e econômica.

Petrobras quer expandir exploração de reservas de petróleo para outras Bacias, como a da Foz do Amazonas. Foto: Divulgação / ABr

O Brasil chega à conferência em posição ambígua. No plano diplomático, o país vem tentando se afirmar como articulador da agenda climática global, defendendo que o foco das negociações internacionais migre da formulação de metas para sua implementação, com ênfase em financiamento climático, proteção das florestas tropicais e apoio a países em desenvolvimento. Essa linha foi reiterada recentemente no Diálogo Climático de Petersberg, na Alemanha.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta cobranças sobre a coerência entre esse discurso e sua política energética. Embora o governo sustente a redução gradual da dependência de fósseis e argumente que receitas do petróleo poderiam financiar a descarbonização, a defesa de novas frentes exploratórias, sobretudo na Margem Equatorial, tem alimentado críticas de organizações ambientais e parte da comunidade científica.

Para o diretor executivo do WWF-Brasil, Maurício Voivodic, a conferência amplia a pressão para que o país apresente metas e prazos consistentes para uma transição planejada. “O Brasil já possui condições técnicas, econômicas e ambientais para liderar esse processo, mas ainda precisa definir com clareza um mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis”, afirmou.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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