Notícias

Desmatamento no Cerrado cresce 25% e ultrapassa 10 mil km²

Área perdida no bioma em 2022 é equivalente a sete vezes a cidade de São Paulo. Números foram divulgados nesta quarta-feira (14) pelo INPE

Cristiane Prizibisczki ·
14 de dezembro de 2022 · 2 anos atrás

O desmatamento no Cerrado aumentou 25% entre agosto de 2021 e julho de 2022, alcançando a marca de 10.688 quilômetros quadrados (km²). A cifra, que corresponde a uma área equivalente a 7 vezes a cidade de São Paulo, é a maior desde 2015. A taxa anual de destruição do Cerrado foi divulgada nesta quarta-feira (14) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Este é o terceiro ano de alta no desmatamento do bioma. Em 2020, o Cerrado perdeu 7,9 mil km² de vegetação nativa. Em 2021, foram 8.531,44 km² de desmatamento, área equivalente a Rio Branco (AC), a terceira maior capital do país em extensão territorial.

A divulgação dos números acontece apenas uma semana após a aprovação da Lei Europeia anti-desmatamento, que proíbe a entrada no mercado europeu de commodities produzidas em áreas florestais desmatadas após 31 de dezembro de 2020. 

A lei não inclui ecossistemas como o Cerrado e a preocupação é que, ao restringir a produção com desmatamento na Amazônia, na Mata Atlântica e no Chaco, os biomas mais tipicamente florestais da América do Sul, a nova regulação possa causar “vazamento” do desmatamento para a savana brasileira, ampliando sua destruição. 

“Mais uma vez o Cerrado é colocado como bioma de sacrifício. Os europeus deram uma sinalização importante para o mundo, mas perderam a oportunidade de fazer uma lei efetiva. O Cerrado é a principal fonte de desmatamento importado pela Europa hoje. Para nós, aumenta o risco do esgarçamento dos recursos hídricos, crise de abastecimento d’água e energética para os maiores centros urbanos do país, e o acirramento da violência no campo”, diz Guilherme Eidt, assessor de Políticas Públicas do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

Em meados de novembro, o ISPN apoiou a publicação de um estudo mostrando que um terço do volume de águas do Cerrado pode ser perdido até 2050, caso a destruição do bioma continue no ritmo atual. 

A organização explica que a água do Cerrado continua sendo exportada para China, União Europeia e Estados Unidos em forma de “água virtual”, que é aquela consumida na produção de commodities como soja e carne.

O Cerrado concentra oito nascentes das 12 bacias hidrográficas brasileiras, por isso é considerado a “caixa d’água” do país. É também no bioma onde acontece a maior expansão da produção de grãos do Brasil. A atividade foi a responsável por destruir quase 50% da cobertura original do Cerrado.

A mais recente edição das Projeções do Agronegócio, divulgada no final de novembro pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, prevê a expansão de 16% na área plantada na região do Matopiba – nome formado pela junção das siglas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – indo de cerca de 8 milhões de hectares para algo entre 10,3 a 12,7 milhões de hectares até a safra de 2031/2032. Esse território formado pelo MA, TO, BA e PI seria responsável por produzir de 40,2 milhões a 52 milhões de toneladas de grãos.

Desmatamento por estados

Segundo dados do INPE, o estado que mais devastou o bioma foi o Maranhão, com 2.834 km² de desmatamento, seguido pelo Tocantins (2.127 km²) e Bahia (1.428 km²). Esses três estados, junto com Piauí (1.189 km² desmatados), possuem as maiores porções de Cerrado e compõem a fronteira agrícola no Matopiba.

Além deles, Goiás foi responsável por 985 km² de supressão da vegetação nativa de Cerrado no período, Minas Gerais por 803 km², Mato Grosso por 742 km², Mato Grosso do Sul por 315 km², Pará por 244 km², Rondônia por 13 km² de desmatamento, além do Distrito Federal, com 5 km², São Paulo, com 4 km², e Paraná, com 0,18 km².

Novas regras para divulgação

A nota técnica do INPE está datada do dia 8 de novembro e, segundo apurou ((o))eco, os números foram enviados em seguida ao Governo Federal. A data em que ele veio a público, no entanto, representa uma novidade implementada pelo INPE, em acordo com o Governo Federal.

Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), um acordo feito em abril entre o Instituto e o Ministro de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovações (MTCI) determinou que, a partir de agora, a divulgação das taxas anuais de desmatamento dos dois biomas monitorados seguirão um calendário fixo de divulgação: sempre às quarta-feiras, na 50ª semana do ano corrente para o Cerrado, e na 48ª semana do ano corrente para a Amazônia.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

Leia também

Notícias
14 de novembro de 2022

Dados sobre desmatamento na Amazônia são solicitados por equipe de transição de Lula

Em coletiva nesta segunda-feira (14), o coordenador da transição, Geraldo Alckmin, reafirma compromisso do novo governo eleito na reconfiguração das políticas ambientais

Notícias
12 de setembro de 2022

Cerrado perde mais de 2 mil hectares de vegetação por dia, revela nova ferramenta de monitoramento

De janeiro a julho de 2022, cerca de 5 mil km² do bioma foram desmatados, mostra Sistema de Alertas lançado nesta segunda-feira (12)

Reportagens
11 de setembro de 2022

Cerrado é negligenciado em planos de governo de candidatos

Apenas 5 dos 10 presidenciáveis citam bioma. Maioria dos candidatos a governador de estados majoritariamente dentro do Cerrado também não fazem menção a ele. Campanha do ISPN busca mudar este cenário

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.