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Monitoramento de fragatas revela rota das aves marinhas pelo litoral

Os dados coletados através de rastreadores GPS sobre o deslocamento das fragatas das Ilhas Cagarras reforçaram a importância das UCs marinhas como pontos de alimento e abrigo

Duda Menegassi ·
28 de fevereiro de 2022

Ao longo do litoral brasileiro é comum o avistamento  de inúmeras espécies de aves marinhas. Uma das mais comuns são as fragatas, que exibem seus mais de dois metros de envergadura enquanto planam pelos céus. Diariamente, essas aves percorrem grandes distâncias pela costa. Através de um monitoramento de um ano de duração com fragatas do Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no Rio de Janeiro, foi possível identificar parte da rota das aves pelo litoral sul e sudeste do Brasil. A pesquisa, realizada pelo projeto Conhecer para Preservar, do Instituto Mar Adentro, reforça a importância das unidades de conservação marinhas e costeiras, refúgios de descanso e alimentação ao longo do percurso das fragatas.

Além do próprio ninhal no Monumento Natural (MONA) das Ilhas Cagarras, a rota da fragata incluiu outras cinco unidades de conservação litorâneas: a Estação Ecológica de Tamoios, na baía de Ilha Grande, no sul fluminense; a Estação Ecológica Tupinambás e o Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes, ambas no litoral paulista; o Parque Estadual Ilha do Cardoso, no Paraná; e a Reserva Biológica Arvoredo, em Santa Catarina – o ponto mais distante que a fragata monitorada chegou do arquipélago carioca, a 708 quilômetros das Cagarras.

Os principais dados foram colhidos através de rastreadores GPS colocados em duas aves do MoNa, um macho e uma fêmea, batizados de Chico e Maria. O monitoramento teve início em agosto de 2018 e coletou informações ao longo de um ano. A análise dos dados georreferenciados contou com o apoio de outro projeto do instituto, o Ilhas do Rio, que atua nas Cagarras.

O levantamento indicou que os machos realizam os maiores deslocamentos. Em um único dia, por exemplo, Chico voou 538 quilômetros sem parar e foi do MONA Cagarras até o Parque Estadual Ilha do Cardoso, no sul do estado de São Paulo. Na sequência, o macho foi até o entorno da Reserva Biológica do Arvoredo, nas águas catarinenses.

Já as fêmeas, de acordo com o monitoramento, possuem uma maior atividade diária de voo, mas se deslocam por regiões mais próximas da área do ninhal. Em média, Maria teve três vezes mais atividades diárias que Chico.

De acordo com o rastreamento, a Baía de Guanabara e a Baía de Sepetiba, no próprio estado do Rio, são as principais áreas de alimentação das fragatas. 

Entre outros dados coletados está a maior velocidade registrada no voo de uma fragata, de 43 nós, o equivalente a quase 80 km/h. Além disso, a maior altitude alcançada pela ave foi de 4.750 metros – altura maior do que seis morros do Corcovado empilhados.

A colônia reprodutiva de fragatas (Fregata magnificens) em Cagarras tem aproximadamente 5.500 aves e é uma das maiores da espécie no Atlântico Sul. No entanto, a proximidade do santuário com a metrópole carioca – são menos de 10km do arquipélago para costa – oferece riscos para essas aves, que sofrem com impactos da poluição, da pesca e até mesmo da prática de empinar pipas.

Por isso, além de descobrir as principais áreas de alimentação, o objetivo do projeto era também identificar as regiões utilizadas pelas fragatas com potencial contato com poluentes e de interação com a pesca.

Ao todo, quinze fragatas foram rastreadas pelo projeto, tanto do MONA Cagarras quanto da Estação Ecológica Tupinambás, em São Paulo. Deste total, sete rastreadores enviaram alguma informação, sendo que apenas cinco enviaram mais de quatro meses de dados sobre o deslocamento dessas aves e dois, os rastreadores da Maria e do Chico, ainda continuam enviando informações. Os dados foram compilados em um vídeo produzido pelo projeto.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica. Escreve para ((o))eco des...

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