Reportagens

A estrada da cobiça

Expedição do Greenpeace percorre os 1.764 km da BR-163 para divulgar o tamanho das ameaças à Amazônia se a via for pavimentada e o governo continuar ausente.

Andreia Fanzeres ·
5 de agosto de 2005 · 20 anos atrás

Não faltam no Brasil estradas ruins. Ainda assim, em poucos lugares se consegue a proeza de atravessar cerca de 300 quilômetros em onze horas de buracos e nuvens de poeira. Foi esse um dos cenários encontrados pela equipe de ativistas do Greenpeace que caiu na BR-163 para uma expedição de 25 dias que vai registrar o que faz esta estrada ser tão cobiçada.

Seus 1.764 quilômetros ligam Cuiabá, no Mato Grosso, a Santarém, no Pará, e têm hoje uma função que deixa para trás o lema militar da integração nacional -especialmente amazônica – de 1973, quando a rodovia foi inaugurada. O objetivo é muito mais prático. Escoar para o porto de Santarém boa parte da produção agropecuária do norte mato-grossense.

Para isso, os cerca de 900 quilômetros do lado paraense da estrada ainda precisam ser pavimentados, algo que o governo elenca como uma de suas maiores prioridades. E contra isso, o Greenpeace já avisou que não vai brigar. O que querem com essa expedição é chamar a atenção para a situação da estrada, que passou a ocupar espaço privilegiado nos planos de governo de Mato Grosso e Pará quando saiu o anúncio de que o asfalto ia chegar. Foi o que bastou para que se intensificassem desmatamentos, aberturas de estradas ilegais, queimadas, grilagem de terras e a violência numa região onde quase não se vê poder público. Quase. O Greenpeace está percebendo, ao atravessar a rodovia num comboio de cinco veículos, que depois da morte da freira americana Dorothy Stang a governança ali não é mais nula. É, sim, insuficiente, mas há sinais de mudança.

Até agora, a expedição cruzou com poucos caminhões carregados de madeira, viu pátios de estocagem de toras vazios, acampamentos do Exército e relatos dos próprios madeireiros de que está bem mais difícil obter autorização para o corte. “Até dois meses atrás não havia escritório do Ibama em Novo Progresso. Isso é uma novidade positiva, mas longe de garantir alguma coisa”, diz um integrante do Greenpeace. Mesmo assim, as dificuldades da BR-163 superam todos os bons indícios.

A equipe da organização não-governamental se mune do máximo de cuidado para circular naquelas áreas porque sabe que não é difícil tomar um tiro. Provas disso foram as placas da Floresta Nacional do Tapajós (PA) repletas de buracos de balas e o fato de terem sido seguidos em Novo Progresso por madeireiros. Melhor dizendo, os ativistas foram escoltados para fora da cidade. Apesar de tensos e de certo modo esperados, esses momentos não têm sido freqüentes. O comboio do Greenpeace não tem identificação da ong e os automóveis estão equipados com GPS, além de um sistema de rastreamento por satélite.

O apoio e a estrutura para uma aventura séria como essa não poderiam ser menores. Desde setembro do ano passado, quando começaram a surgir pistas de que a taxa de desmatamento na Amazônia seria muito alta e parte do problema estava ao longo da BR-163, o Greenpeace decidiu organizar a expedição. Em maio deste ano uma equipe chegou a percorrer toda estrada e coletou dados que balizaram o andamento do plano para a época de mais intensa atividade madeireira. O planejamento parece tão bom que até agora a expedição não foi atrapalhada por uma gota de chuva.

De fato, não é época disso e sim das queimadas, que estão aparecendo conforme o esperado. “Por outro lado, tem chamado a nossa atenção o aumento sensível de rebanhos vindos de Mato Grosso que chegam ao sul do Pará”, diz Nilo d’Ávila, coordenador da expedição. Mas empreitada do Greenpeace não é só constatação. É também contestação. Os ativistas já interditaram uma estrada clandestina de 135 quilômetros que corta a Floresta Nacional de Altamira e prometem outras ações até o final da expedição, que é atualizada num diário de bordo no site da organização.

  • Andreia Fanzeres

    Jornalista. Coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade da OPAN.

Leia também

Notícias
19 de dezembro de 2025

STF derruba Marco Temporal, mas abre nova disputa sobre o futuro das Terras Indígenas

Análise mostra que, apesar da maioria contra a tese, votos introduzem condicionantes que preocupam povos indígenas e especialistas

Análises
19 de dezembro de 2025

Setor madeireiro do Amazonas cresce à sombra do desmatamento ilegal 

Falhas na fiscalização, ausência de governança e brechas abrem caminho para que madeira de desmate entre na cadeia de produção

Reportagens
19 de dezembro de 2025

Um novo sapinho aquece debates para criação de parque nacional

Nomeado com referência ao presidente Lula, o anfíbio é a 45ª espécie de um gênero exclusivo da Mata Atlântica brasileira

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.