Reportagens

Agora é a hora

As baleias jubarte e franca, como fazem há anos, já estão frequentado o litoral brasileiro. Esse é o mês ideal para quem quiser ir vê-las e vivenciar uma experiência emocionante.

Sílvia Franz Marcuzzo ·
14 de setembro de 2007 · 14 anos atrás

Ficar frente a frente com o maior animal que já habitou o planeta é uma sensação indescritível. E quem quiser e tiver tempo e dinheiro para sentir essa emoção agora é a hora. Setembro é melhor mês para se conferir de perto os contornos gigantescos das baleias franca (Eubalena australis), em Santa Catarina e jubarte (Megaptera novaeangliae), na Bahia.

As maiores, as francas, podem ser observadas da beira da praia mesmo. Já para ver as jubartes é preciso estar a bordo de uma embarcação. A temporada de baleias vai até novembro. Nesta época do ano, elas deixam o extremo Sul do planeta, onde se alimentam e procuram as águas quentes e calmas da costa brasileira para acasalamento, nascimento e cuidados com os filhotes.

E nunca se viu tanta baleia-franca como neste ano. Somente no último sobrevôo do Projeto Baleia Franca, realizado no mês passado, foram avistados 83 indivíduos desde Rondinha, no Rio Grande do Sul, até Garopaba, em Santa Catarina. “Esse número é quase igual ao do ano passado inteiro, que foi de 84. É considerado um recorde para o mês de agosto”, comemora Karina Rejane Groch, coordenadora do Projeto Baleia Franca. Para se ter uma idéia, em 1997, no pico da temporada, em setembro, foram avistadas 20 baleias-franca nessa mesma região.

Em 2007, a temporada dessa espécie começou mais cedo. As baleias-franca deram o ar de sua graça já no mês de abril na costa catarinense. “Nunca tivemos um registro tão antecipado”, aponta Karina. Para justificar a chegada antes do tempo desses grandes mamíferos, que medem até 18 metros de comprimento – mais ou menos três carros populares alinhados , Karina conta que há duas hipóteses. Uma é a tendência natural de crescimento da população, resultado do fim da caça e do trabalho de preservação. Outra, é a entrada da corrente das Malvinas, que traz as águas frias do Sul. “Essa é uma especulação nossa, pois até os pescadores registraram a vinda antecipada das tainhas”, comenta a bióloga.

As francas, que se distinguem dos outros grandes cetáceos por não apresentarem nadadeiras dorsais e pelas calosidades na cabeça, são mais raras que as jubartes. Estima-se que na costa brasileira transitem cerca de uma centena de francas para 6.200 jubartes. A franca, como seu próprio nome em inglês já diz, Right Whale, foi a espécie mais caçada da costa porque era uma presa certa, fácil. Sua espessa capa de gordura servia para a produção de óleo destinado à iluminação.

A reserva das francas

A baleia-franca é uma espécie em perigo, conforme a Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira do Ibama. Por isso, uma das maiores conquistas do Projeto Baleia Franca foi a criação de uma Unidade de Conservação exclusivamente para auxiliar a conservação da espécie: a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca. Além de abranger as enseadas de maior concentração de francas e seus filhotes, a APA compreende costões rochosos, dunas, banhados e lagoas. Sob a responsabilidade do Ibama, a APA foi proposta inicialmente pelo Projeto Baleia Franca em 1999, e efetivada por Decreto Federal em 2000. Com 156.100 hectares da costa centro-sul de Santa Catarina, a APA vai de Pântano do Sul, na Ilha de Santa Catarina, até o Balneário Rincão.

As jubartes ocorrem na costa brasileira desde o Rio Grande do Norte até o Rio de Janeiro, mas é na Bahia e no Espírito Santo que 84% desses animais são avistados. Ao contrário das francas, a vinda das jubartes está no tempo convencional. Pescadores e navegadores da Bahia e do Espírito Santo vêem enxergado-as desde meados de junho. No Litoral Norte da Bahia e em Abrolhos, a época é de julho a novembro. “As variações anuais de chegada e retorno dos animais estão provavelmente relacionadas a temperatura da água e a características ambientais, mas são fatores pouco conhecidos”, explica a diretora geral do Instituto Baleia-Jubarte, Márcia Engel. Ela conta que já se viu fêmeas com filhote, que são as últimas a iniciar migração de retorno para a Antártida, nos meses de janeiro e fevereiro em Abrolhos. A bióloga estima que a cada ano esteja aumentando de 7 a 10% a população de jubartes.

As jubartes têm nadadeiras que podem ser comparadas às asas de uma ave _ chegam a medir um terço do seu comprimento. Essa é a origem inclusive do seu nome científico: Megaptera, que em grego quer dizer grandes asas. Durante o seu salto, quase todo seu corpo fica de fora. Um feito incrível, quando se trata de um animal que pesa entre 35 e 40 toneladas com até 16 metros de extensão.

Incentivo ao turismo

Márcia acredita que a observação de baleias (whalewatching) é uma ferramenta de sensibilização da opinião pública contra o retorno da caça comercial. Ela explica que o instituto também busca incentivar o crescimento ordenado desse turismo, de forma que ele não cause impactos negativos no comportamento da baleias. O Instituto Baleia Jubarte atua em parceria com operadoras de turismo fornecendo informações sobre a biologia e o comportamento desses animais. Orienta mestres e proprietários de embarcações de turismo sobre a importância do cumprimento das normas de observação em águas brasileiras, como a Portaria Ibama 117, de 26/12/1996, alterada pela Portaria 24, de 08/02/2002, que prevê que os barcos mantenham seus motores em neutro ao se aproximarem das baleias, entre outros cuidados.

O whalewatching ainda gera movimento em hotéis, restaurantes, lojas e pontos de venda de artesanato. Segundo o Coordenador de Educação Ambiental do IBJ, o biólogo Sérgio Cipolotti, no ano passado, 3.207 turistas participaram de 126 embarques pelas três empresas que ofereceram o passeio na Praia do Forte. “Apesar do número de turistas brasileiros vir aumentando a cada temporada, a maior parte é estrangeiros, cerca de 65%,” informa Cipolotti. O passeio custa em média 180 reais por pessoa.

Na Praia do Forte, Litoral Norte baiano, o instituto ainda dispõe do Centro de Pesquisa e Educação Ambiental (Centropea) que recebe turistas e comunidade para palestras, treinamento, cursos e encontros sobre a conservação da espécie. Lá é possível conferir de perto um esqueleto de jubarte adulta e uma réplica de um filhote em tamanho natural. O ingresso é R$ 4,00 (meia entrada para estudante e terceira idade). O horário de funcionamento é de terça a sábado das 10h às 21h e domingos das 13h às 17h.

*jornalista, freelancer em Porto Alegre

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