Reportagens

Macacos pagam o pato

A febre amarela, que já matou 10 pessoas, elevou também a morte de macacos de várias espécies. Alguns foram apedrejados e envenenados. Só em Minas há registro de 30 mortos.

Aldem Bourscheit ·
25 de janeiro de 2008 · 14 anos atrás
Macaco prego (cebus xanthosternos). Foto: Ibama.

Como é difícil acertar mosquitos em pleno vôo, nossos parentes no reino animal pagam a conta da febre-amarela. Em Luziânia (GO), pertinho da capital federal, macacos prego são mortos a tiros, como mostrou O Estado de S. Paulo. Também há relatos informais de apedrejamentos e envenenamentos em outras regiões do Brasil central. “Vejo tudo isso com tristeza. O macaco é tão vítima da febre quanto os humanos”, diz Ita de Oliveira e Silva, bióloga e doutoranda da Universidade de Brasília (UnB) em comportamento de sagüis.

Dados de órgãos de Saúde mostram que estados do Centro-Oeste já acumulam nesse início de 2008 dezenas de mortes de macacos das espécies guariba (bugio) e prego. Junto com o mico-estrela, são as principais espécies do Cerrado. Por puro capricho natural, o pequenino sagüi é imune à doença.

De mortes humanas, já são dez no País. A maioria aconteceu em Goiás, mas há casos em Minas Gerais e Distrito Federal. Segundo o Ministério da Saúde, há 40 pessoas com sintomas da doença. Desses, 16 casos foram descartados e cinco estão sob investigação. Em abril de 2007, dois óbitos ocorreram no município de Jataí (GO). Por isso, o estado e outras regiões do País engrossaram o combate a mosquitos transmissores da febre e intensificaram mutirões de vacinação pública.

Ciclos históricos

macaco-prego (cebus apella). Foto: Ibama.

Dados históricos sobre a incidência da enfermidade no Brasil revelam que ela retorna em ciclos de cinco a dez anos, tanto entre gente quanto entre macacos. Os casos humanos mais recentes ocorreram na Virada do Milênio, inclusive no estado da megalópole São Paulo. “Não há uma explicação completa para o fenômeno, mas o que está acontecendo hoje era esperado. O governo tinha registros de mortes de macacos desde o início de 2007”, diz o infectologista Luiz Jacintho da Silva, professor titular da Universidade de Campinas – Unicamp.

Uma hipótese defendida por alguns pesquisadores para o vai-vem da febre é a renovação de grupos de macacos que foram dizimados pela doença. De cinco anos a uma década seria o tempo necessário para uma população se restabelecer e ficar novamente exposta ao vírus carregado pelos mosquitos Aedes haemagogus e Aedes aegypty, esse último o mesmo da dengue.

Cidade e campo

No Paraná, por exemplo, bem distante do calorão amazônico, surtos de febre amarela acompanharam os movimentos de colonização do estado. Grandes derrubadas foram seguidas de perto por vários casos da enfermidade, nas regiões de Londrina, Cascavel e Guarapuava, conta Walfrido Kühl Svoboda, professor de Epidemiologia Veterinária da Universidade Federal do Paraná – UFPR. “Era o homem entrando em um ambiente que não era dele”, diz.

Foto: Ibama.

Entre 2004 e 2006, Svoboda participou de um dos mais interessantes estudos sobre febre amarela já feitos no País. Depois de esperar quase dois anos pela licença do Ibama, equipes da UFPR e do Governo Paranaense capturaram e analisaram quase 150 macacos prego e bugios na região do município de Porto Rico, no noroeste do estado. A idéia era identificar a circulação da febre entre os macacos. Apesar do esforço, nenhum traço de vírus foi encontrado entre os animais, apenas da encefalite Saint Louis, considerada pouco perigosa no Brasil.

Muitas vítimas, poucos vírus

Segundo o Ministério da Saúde, é assim que funciona o sistema de alerta brasileiro sobre casos de febre amarela. Macacos mortos devem acionar municípios para que vacinem suas populações, enviem os animais para testes laboratoriais e avisem o governo federal. “Mas é preciso unir esforços de governos e do meio científico. Sem isso, será muito difícil agir preventivamente contra a febre”, diz Svoboda, da UFPR.

A pesquisa também vai ao encontro dos testes feitos nas dezenas de macacos mortos em 2008. Em praticamente nenhum deles foi encontrado vírus da febre amarela. O Parque Nacional de Brasília (DF) passou dias fechado após a morte de macacos-prego. Mas com as análises prontas, não se chegou a um veredicto sobre o que causou a morte dos animais. “A proporção é sempre baixa de identificação do vírus entre macacos, que também podem morrer de forma natural, contaminados por agrotóxicos e outras formas”, diz o infectologista Luiz Jacintho da Silva, da Unicamp.

Zonas amarelas

Foto: Ibama.

No Brasil, as áreas de risco para a ocorrência de febre amarela são as regiões Norte e Centro-Oeste, Maranhão e Minas Gerais, além do sul do Piauí, oeste e sul da Bahia, norte do Espírito Santo, noroeste de São Paulo e o oeste dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Nem todo mundo que adquire a doença morre. Quem sobrevive fica imune, assim como quem toma a vacina”, explica Silva.

Apesar da relativa calma no meio científico em relação à incidência de febre amarela no Brasil, um sinal está aceso entre as autoridades de Saúde Pública. Com as mudanças climáticas, doenças transmissíveis tendem a ganhar força, principalmente em regiões tropicais, como o Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que os países afetados e o número de casos não páram de crescer nas duas últimas décadas.

Mais informações sobre o que o governo brasileiro está fazendo em http://bvsms.saude.gov.br/.

 

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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