Reportagens

População de micos-leões-dourados cresceu 30% na última década

Os hoje estimados 4.800 animais driblaram até impactos da febre amarela, mas sofrem com desmate e comércio ilegal

Aldem Bourscheit ·
2 de agosto de 2023

Uma nova contagem revela um salto nos números do mico-leão-dourado, exclusivo do Sudeste. Manter sua população inclui conter a perda e a fragmentação florestal, bem como banir seu comércio ilegal.

A população do primata saltou de 3.700, em 2013, para cerca de 4.800, este ano. Um crescimento de 29,7%. A conquista foi consolidada por um novo censo na natureza. Na década de 1970, havia menos de 200 primatas. 

“O resultado veio com esforços de conservação e reforça a esperança quanto ao futuro de uma espécie tão simbólica”, comemora Luís Ferraz, secretário-executivo da Associação Mico Leão Dourado (AMLD).

A entidade lidera desde 1992 o trabalho de proteção dos grupos de micos-dourados, apoiado por outras ongs, órgãos de governo, entidades de pesquisa e de financiamento, no Brasil e no Exterior.

“70% do aumento no número de micos se deve à colonização de quatro grandes áreas que não tinham ou tinham poucos animais em 2014”, revela James Dietz, responsável pelo censo e conselheiro da AMLD.

As maiores populações da espécie estão em matas de baixada nas bacias dos rios São João e Macaé, no estado do Rio de Janeiro. A contagem visual e sonora exigiu 9 meses de campo.

No balanço não pesaram populações isoladas em pequenas matas de municípios como Búzios e Araruama. Elas têm pouca chance de sobreviver no longo prazo, inclusive pelo contato excessivo com pessoas. 

Os números de hoje são ainda mais importantes porque a febre amarela encolheu a população para 2.500 animais, entre 2014 e 2018. Em certas áreas, a doença reduziu os grupos em mais de 90%.

Na Reserva Biológica de Poço das Antas, uma das áreas que os protegem na Mata Atlântica, o número de animais caiu de 380 para 32. A reserva foi a primeira de sua categoria no país, criada em 1974.

“Alguns animais foram mortos por pessoas, mas a grande maioria faleceu por efeitos diretos da doença”, conta Ferraz, da AMLD. A entidade vacinou mais de 300 micos contra a febre, desde 2020.

Juntando os cacos

A celebração pelo retorno das populações de micos não afasta mais esforços para conservá-los no longo prazo. Para isso é preciso conter o desmatamento e a fragmentação florestal, bem como o tráfico. 

O Rio de Janeiro é um dos oito estados da Mata Atlântica que mais perderam vegetação nativa entre outubro de 2021 e de 2022, mostra uma análise da Fundação SOS Mata Atlântica. 

Além disso, estimativas científicas indicam que o risco de extinção será afastado de vez quando ao menos 2 mil animais habitarem 25 mil ha de florestas protegidas e conectadas. Isso garantiria a movimentação e o enriquecimento genético da espécie.

Hoje, o maior bloco contínuo de vegetação natural dos primatas tem 15,7 mil ha, e não está totalmente protegido. Implantar a legislação florestal ajudaria a recuperar e conectar fragmentos da Mata Atlântica.

“Já temos mais de 2 mil micos somados, mas eles vivem em fragmentos de floresta inferiores ao que precisamos. Conectar e restaurar as florestas é nosso maior desafio no longo prazo”, reconhece Ferraz, da AMLD.

O dourado é uma das quatro espécies de micos no país. As demais vivem na Bahia, São Paulo e entre esse estado e o Paraná. Há cerca de 550 micos-dourados em 150 zoológicos no Brasil e em outros países.

Mico-dourado repousa na vegetação nativa da Mata Atlântica. Foto: Andréia Martins / AMLD

Na Bacia do Rio São João, a Mata Atlântica cresceu 2 mil ha de 1985 a 2021, mostra o MapBiomas. Isso ajuda os micos e outras espécies, além de fornecer água e outros recursos às pessoas, indústria e agropecuária.

A espécie também vive em 25 reservas particulares (RPPNs) e numa Área de Proteção Ambiental (APA) na Bacia do Rio São João, bem como nos parques Estadual dos Três Picos e Natural Municipal do Mico-Leão-Dourado (Cabo Frio). 

A APA recebeu o primeiro viaduto para passagem de fauna no país, em 2020. Ele permite o trânsito de espécies entre a Rebio Poço das Antas e áreas preservadas rumo ao Parque Estadual dos Três Picos.

Cachorros-do-mato, seriemas, cutias e pacas já usam a estrutura. Os micos-leões-dourados e outros primatas aguardam o crescimento das árvores lá plantadas.

Ameaça fantasma

Um mico-leão-dourado junto a uma carga de armamento pesado. Foto: Plantão dos Lagos / Reprodução

Ao mesmo tempo, uma antiga ameaça volta a assombrar os micos-dourados. Órgãos ambientais e ongs flagraram ao menos 6 pontos com armadilhas para a espécie nos últimos meses.

Os animais capturados seriam traficados. Há primatas mantidos como “pets” e apreendidos no Brasil e no Exterior. Esses crimes foram grandes motores para encolher suas populações ao longo das décadas.

No início de junho, uma fêmea vítima de comércio ilegal foi acolhida no Zoológico de Brasília. Ela foi resgatada em Petrolina, a 700 quilômetros de Recife (PE).

Como mostrou ((o))eco, há duas semanas 7 micos foram confiscados por autoridades no Suriname, junto com 29 araras-azuis-de-lear. Os animais seriam vendidos na Europa, apontam as investigações iniciais.

“A volta do tráfico preocupa muito e pode estar ligada à cultura de caça e de desprezo pela conservação promovida no último governo. Não podemos baixar a guarda”, diz Luís Ferraz, da AMLD.

Em setembro passado, um mico-dourado levou um tiro de chumbinho em Saquarema (RJ). A bala ficou alojada na coluna do animal, que foi encaminhado a um centro de reabilitação.

Seis meses antes, em março de 2022, fotos de primatas junto a fuzis e pistolas circularam em redes sociais. À época, a Polícia Civil comentou que os animais eram mantidos por criminosos no Rio de Janeiro.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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