
A reserva de Boa Nova é muito recente no cadastro de unidades de conservação do Instituto de Chico Mendes da Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ainda não completou seu primeiro ano de vida. No entanto, a atenção e o interesse da sociedade são grandes. O parque nacional e o refúgio de vida silvestre possuem mais de 30 mil hectares no sudoeste baiano com árvores que oferecem abrigo para 14 aves que têm a existência ameaçada na natureza. Com a descoberta de roubo sistemático de madeira, um novo risco ronda a vida selvagem na reserva.
O decreto que oficializou o parque nacional não tinha feito seis meses de assinado e uma denúncia deixou ambientalista em alerta. Foi descoberta no distrito de Valentim uma pequena serraria. A oficina de beneficiamento de madeira estava na propriedade de Aguinaldo Lima e tinha tábuas e dezenas toras de árvores nativa (mourão) da Mata Atlântica empilhados. A denúncia partiu das ONGs Cyaverd e Casa 3º Setor. Teve o apoio das polícias civil e militar, que fizeram a apreensão da maquinaria, dos equipamentos e da madeira – que foram levados para a prefeitura.




O pessoal do Instituto do Meio Ambiente (IMA) da Bahia também foi chamado, num segundo momento, porque o prefeito Antônio Oliveira (PV), chegou a entregar a carga para o comerciante de madeira William Sande. O IMA pediu para a prefeitura reaver a madeira e solicitou a participação do Ministério Público no caso.
A apreensão ocorrida em dezembro continua a provocar ondas de reação. O coordenador-geral de Proteção Ambiental do ICMBio, Paulo Carneiro, por exemplo, acusou o recebimento de mais de dez denúncias sobre a mesma sequência de atos ilegais: a instalação de serraria, o roubo de madeira e a entrega da carga para um comerciante. Carneiro conta que tudo foi irregular. “A carga pode até ser doada, mas existem critérios bastante claros. Na falta de instituições sem fins lucrativos, costumamos entregar o produto para a igreja local”, esclarece.
A fiscalização das diversas unidades de conservação existentes na Bahia é, assumidamente, problemática. Paulo Carneiro estima que cada um dos 30 fiscais do ICMBio na Bahia sejam responsáveis por 30 mil ha. A Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga baianas sofrem com a ausência de fiscais, no entanto a situação é pior no bioma Amazônia. “Nós temos um fiscal para cada 200 mil ha. Não é suficiente, mas já foi bem pior: antes era um fiscal para cada 1 milhão de ha”, revela Paulo Carneiro.


A região é exuberante. Nas palavras de Jean-François Timmers, fotógrafo e técnico do Ministério do Meio Ambiente, em Boa Nova se encontra Mata Atlântica em transição com a Caatinga. “É uma floresta decidual, baixa, com orquídeas e lianas, rica em bromélias, que só ocorre numa faixa de 10km de leste ao oeste, nessa transição”, conta. “A mata úmida é a floresta ombrófila densa ocorrendo ao leste da mata de cipó, na vertente das Serras com influência oceânica e chuvas”, detalha Jean-François. Ali, também ocorrem espécies recém descobertas de pássaros e de plantas endêmicas.
Com as fotos datadas de 2006 de Jean-François, chega-se a uma conclusão: a retirada de madeira de uma mata que une a transição entre dois biomas é antiga e, nem mesmo a decretação do parque nacional, foi capaz de interromper este crime.
O prefeito Antônio Oliveira (PV) foi procurado na prefeitura de Boa Nova e tentado contato pelo seu celular. Na prefeitura foi deixado recado com a chefia de gabinete, em diferentes dias da semana. Também foi gravada mensagem na caixa postal do seu celular. Ele não retornou.
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