Reportagens

Fernando de Noronha, o paraíso ameaçado

A ilha de Fernando de Noronha, idolatrada pelos turistas, é uma das paisagens mais bonitas que existem no país. Mas nem só de sol e belezas vive o arquipélago.

Alice Watson ·
10 de maio de 2011 · 11 anos atrás

Copie o código e cole em sua página pessoal:

Ninguém esquece o primeiro encontro com Fernando de Noronha. Lembro como se fosse hoje do frio na barriga que senti quando avistei aquele intenso azul turquesa lá de cima. Paz igual a esta só nos dias de mar tranqüilo, boiando na Praia do Sancho e apreciando de dentro d’água como os atobás no alto dos paredões rochosos se encaixavam na imensidão daquele paraíso. Seja do céu ou do mar, o deslumbramento é inevitável. Nas palavras de Américo Vespúcio, seu descobridor oficial, Noronha é uma “verdadeira maravilha da natureza” e promete te marcar para sempre.

Localizado a 540 km de Recife (PE), este “pedaço de terra, aparentemente perdido em meio a lindos tons de azul”**, encanta os turistas com seus 17 quilômetros quadrados (km²) de preciosa beleza cênica. Ilha principal do arquipélago de 26 km² e 21 ilhotas, Fernando de Noronha recebe cerca de 60 mil turistas por ano. Todos atraídos pela exuberância de seu patrimônio ambiental, que inclui três das dez praias mais lindas do Brasil: o Sancho, a Baía dos Porcos e o Leão.

A distância do continente, somada à criação, em 1988, do Parque Nacional Marinho e da Área de Preservação Ambiental de Fernando de Noronha (FN)- Rocas – São Pedro e São Paulo que abrangem todo o território da ilha (70% e 30%, respectivamente), contribui para tamanha conservação. Todo este capricho da natureza conquistou o reconhecimento internacional quando, em 2001, ganhou da Unesco o título de “Sítio do Patrimônio Mundial Natural”.

Afinal, em que outro lugar do mundo você pode nadar no compasso das tartarugas, alimentar aves marinhas direto na boca e passear de barco escoltado por simpáticos golfinhos rotadores? Tudo isso sob o olhar atento do imponente guardião da ilha, o Morro do Pico, que ao entardecer se une ao Morro Dois Irmãos para realçar a explosão de cores que invade o horizonte.

Tantos atrativos fizeram com que Noronha se transformasse no sonho de consumo de qualquer turista. Não por acaso, o fluxo total de visitantes na ilha aumentou em torno de 500% de 1995 a 2005. Segundo o Estudo de Capacidade de Suporte (ECS) e Indicadores de Sustentabilidade da APA- FN, realizado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 2007, Fernando de Noronha recebe, de avião, uma média de 150 pessoas por dia, número que chega a 300 nos períodos de pico. De outubro a fevereiro, navios atracam no Porto trazendo uma carga diária de cerca de 650 turistas.

Um olho na beleza, outro no problema

Para sustentar o turismo crescente, Fernando de Noronha se desenvolve sacrificando, paradoxalmente, seu principal atrativo turístico: os recursos naturais. O ECS revela que o complexo turístico emergente na ilha sofre com a ameaça de um colapso geral e já extrapolou em vários aspectos o nível de risco. O arquipélago corre o risco de esgotar seus atributos naturais nas próximas décadas se não adotar um modelo sustentável de desenvolvimento. Os danos são reais e muitos deles irreversíveis.

Considerando que a população de Noronha é de cerca de quatro mil pessoas, o ECS estima que a ilha opera com uma sobrecarga de dois mil habitantes. Este excedente populacional, juntamente com os conflitos socioambientais e o turismo descontrolado, têm tido consequências desastrosas para o sistema. Como exemplos, podem-se citar a geração excessiva de resíduos, a favelização, a falta de água, a desigualdade social e a perda de habitat de espécies endêmicas.

A fama de destino voltado para o ecoturismo mascara uma relação contraditória entre a imagem vendida de “paraíso ecológico” e a realidade vivida pelos moradores. Prova disto é a pegada ecológica de Fernando de Noronha, 14% maior que a média mundial (também de acordo com o ECS). Em 2006, chegou a 2,54 hectares per capita, enquanto a do Brasil foi de 2,1 e a do mundo, 2,23. Uma ilha considerada sustentável não produziria toda a sua energia em uma termelétrica, nem deixaria que fossem descartadas 3,5 toneladas de lixo por dia sem qualquer intervenção para o consumo consciente ou coleta seletiva, entre outras incoerências.

Neste contexto, é fundamental que o turista se conscientize sobre sua responsabilidade na reversão deste quadro. Pequenas atitudes podem amenizar os impactos ambientais e ainda agregar valor à sua experiência na ilha. Como, por exemplo, caminhar pelas areias douradas das praias em vez de alugar um buggy para ir até elas. Você pode pegar uma carona até o Boldró, por exemplo, (sim, a carona é uma prática muito comum por lá) e ir andando até a Baía dos Porcos, contemplando calmamente cada pedacinho do Americano, Bode e Cacimba do Padre em um mesmo dia.

Outra dica é economizar água e energia elétrica, itens que podem não faltar aos turistas, mas certamente são escassos para os moradores. Procure pousadas que reaproveitam a água e evite o consumo de produtos com embalagens descartáveis. Prefira a exclusividade dos destinos. Conhecer o Sancho com mais 15 pessoas a tiracolo pode não ter o mesmo encanto de se chegar ao alvorecer na Baía dos Golfinhos e andar até esta preciosidade noronhense, que estará completamente deserta. “Diante da beleza que magoa” *, respeite os limites da natureza e receba a melhor das recompensas: a tranqüilidade de quem contribuiu para salvar um dos lugares mais lindos do Brasil.

*Alice Watson é jornalista em Brasília e morou em Fernando de Noronha entre abril e julho de 2007. Voltou à região, tema de sua monografia de mestrado, em setembro de 2010.

**Citações da historiadora, poeta e admiradora de Fernando de Noronha, Marieta Borges.

Links Externos

Fernando de Noronha Oficial
Gol
TAM

{iarelatednews articleid=”24362, 24839″}

Leia também

Notícias
20 de maio de 2022

Alto custo é principal barreira para visitação de parques

De acordo com estudo, alto custo da viagem, distância e falta de informações disponíveis são os principais obstáculos para visitação de parques naturais

Notícias
20 de maio de 2022

Presidenciáveis recebem plano para reverter boiadas ambientais de Bolsonaro

Estratégia ‘Brasil 2045’ propõe medidas para reconstruir política ambiental brasileira e fazer país retomar posição de liderança global em meio ambiente

Análises
20 de maio de 2022

O dilema de Koniam-Bebê

Ocupação indígena no Parque Estadual Cunhambebe realimenta falsa dicotomia entre unidades de conservação e territórios indígenas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 1

  1. Cássio Garcez diz:

    Brilhante análise, Beto. Parabéns e obrigado por ela.