Reportagens

Águas melhores virão

Em 2010, será possível nadar e pescar no Rio das Velhas, que corta Belo Horizonte. É a ambiciosa meta do Projeto Manuelzão, presente em 51 municípios mineiros.

Roselena Nicolau ·
14 de outubro de 2004 · 18 anos atrás

O Projeto Manuelzão definiu uma meta ousada para o ano de 2010. Quer tornar navegáveis e adequadas ao banho e à pesca as águas do degradado Rio das Velhas, que passa pela região metropolitana de Belo Horizonte.

Trata-se da mais importante iniciativa de recuperação de uma bacia hidrográfica em Minas Gerais. A “Meta 2010” do Projeto Manuelzão ganhou o compromisso oficial do governador Aécio Neves durante o 3º Fórum das Águas para o Desenvolvimento de Minas Gerais, em março de 2004. Ela será incluída no Plano de Bacia do Rio das Velhas, a ser apresentado pelo Instituto das Águas de Minas Gerais até o final de outubro.

Tudo começou em 1997, quando alunos e professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que prestavam atendimento básico nos municípios da bacia constaram que era impossível promover a saúde da população sem resguardar o meio ambiente da degradação óbvia e alarmante que observavam. Lixo e esgoto doméstico e industrial eram atirados no rio sem qualquer tratamento. Foi deles a iniciativa do Projeto Manuelzão, que por isso traz de berço uma visão integrada entre preservação do meio ambiente e saúde.

Hoje, entretanto, o Manuelzão – nome escolhido em homenagem ao vaqueiro Manuel Nardi, morto há sete anos, que inspirou um personagem de João Guimarães Rosa – engloba não apenas outros cursos da UFMG, mas uma rede na qual sociedade civil, governos, instituições públicas e empresas estão representados. Foi dividido em 14 subprojetos, que promovem ações específicas nas áreas de saúde, meio ambiente e cidadania, a partir de 54 Comitês espalhados ao longo da bacia do Rio da Velha. O subprojeto “Manuelzão vai à Escola”, por exemplo, leva a quase 1,5 mil escolas públicas dezenas de atividades de educação ambiental.

Múltiplas realizações vão pipocando pela bacia e reforçando a idéia de que é natural trabalhar pela volta dos peixes ao rio, com todas as implicações dessa demanda que alimenta o imaginário de um meio ambiente saudável. O peixe é o símbolo do Projeto Manuelzão. Os Comitês realizam eventos que mobilizam e motivam a população ao mesmo tempo em que criam fatos que forçam a tomada de atitude pelo poder público. São iniciativas simples, como um abraço de moradores no pequeno córrego Tamboril, que recebe o esgoto de seis bairros da região norte da capital. Ou mais complexas, como uma visita técnica à mineradora MBR para avaliar o projeto da Mina Capão Xavier, uma nova área de exploração de minério de ferro da empresa que, por décadas, carregou o estigma da destruição da Serra do Curral, símbolo de Belo Horizonte.

Em avaliação recente do Manuelzão, foi detectado que 82% dos Comitês acreditam que tiveram interferência em soluções sobre o lixo, já aplicadas ou decididas nas cidades da bacia. Dos 51 municípios, o único que possui aterro sanitário com licença para operação é Belo Horizonte. Em 80% dessas cidades, o que funciona é o lixão. O trabalho de “formiguinha” do Manuelzão vai aos poucos mudando esta situação. “Quando iniciamos o levantamento sobre o lixo a situação era bem pior. Hoje existem três aterros sanitários em construção e em 26 cidades os lixões receberam melhorias”, afirma o professor Thomaz da Mata Machado, um dos coordenadores do projeto.

A situação do esgoto também é dramática. Somente 40% do esgoto de Belo Horizonte é tratado, e esse índice foi conquistado recentemente. Todo o restante é despejado no Rio das Velhas. Segundo Mata Machado, hoje é o esgoto doméstico que causa os maiores impactos no rio. No início do Manuelzão, lembra ele, 35 empresas estavam na lista poluidora, mas hoje 32 delas operam de acordo com as normas da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). O controle biológico feito nas águas indica a inexistência de peixes em toda a calha do rio na região metropolitana, mas há sinais claros de vida nas águas da região de Santo Hipólito, a cerca de 200 quilômetros da capital. Ali o Rio da Velha recebe as águas do Paraúna, afluente do Cipó – este preservado no Parque Nacional da Serra do Cipó.

Coordenador-geral do Projeto Manuelzão e presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, o médico e professor Apolo Heringer Lisboa diz que a Meta 2010 é a forma mais concreta “de se conseguir resultados, deixando de lado o blá-blá-blá que não ajuda a operacionalizar ações”. A Meta 2010 defende a concentração das iniciativas de governo na área do rio que atinge a região metropolitana, onde está a maior concentração populacional da bacia (4,5 milhões de pessoas) e os principais e mais poluídos afluentes do rio: o córrego do Onça e os ribeirões Arrudas, da Mata, Caeté-Sabará e Jequitibá. “Se espalharmos os recursos financeiros e humanos não teremos resultado nenhum”, afirma Lisboa, garantindo que existe um consenso, por onde o rio passa, de que salvando o chamado “epicentro” da bacia será possível salvá-la por inteiro.

A Meta 2010 foi idealizada a partir da Expedição Manuelzão que, exatamente há um ano, transportou três navegadores por toda caudalosa calha do rio, que nasce em Ouro Preto, a 101 quilômetros da capital, e vai até Barra do Guaicuí, a cerca de 370 quilômetros de distância. A expedição durou 29 dias e os navegadores, em caiaques, enfrentaram o desafio de vencer trechos do rio onde a poluição atinge níveis insuportáveis. Isto ocorre na região metropolitana de Belo Horizonte, especialmente em General Carneiro, próximo da histórica Sabará, onde deságua o ribeirão Arrudas, e em Santa Luzia, onde está a foz do córrego do Onça. Nesse trecho, de aproximadamente 200 quilômetros, os expedicionários tiveram que usar máscaras especiais para não sofrerem com a alta contaminação das águas, onde o volume de esgoto e lixo é enorme.

A aventura dos três navegadores da Expedição Manuelzão será contada no livro Navegando o Rio das Velhas das Minas Gerais, com lançamento previsto para novembro. A publicação relaciona a Expedição Manuelzão ao relato do desbravador inglês Richard Francis Burton que, no século XIX, fez viagem semelhante no Velhas e escreveu o livro Viagem de Canoa de Sabará ao Atlântico.

Com 761 quilômetros, o Rio das Velhas é o maior afluente do Rio São Francisco em extensão e por isso existe uma íntima ligação entre a revitalização de ambos. A transposição do Rio São Francisco é ferozmente criticada pelos coordenadores do Manuelzão. O projeto foi um dos primeiros a combatê-la. “A transposição é uma mistura de ignorância com corrupção deslavada. Ela não resolve e não vai ser feita. Vão gastar milhões em projetos e estudos mas tecnicamente já se sabe que é desnecessária e inviável. O próprio PT era contra, mas hoje o pessoal do partido está de cadeado na língua porque, se não, perde o emprego”, desabafa Lisboa. A transposição afetaria muito o Rio das Velhas. Primeiro, ao reduzir a possibilidade de recuperação do Baixo São Francisco (já muito alterado pelas oito hidrelétricas existentes ao longo da bacia) e de repovoamento de peixes no rio, o que interfere diretamente no Rio das Velhas. Além disso, a transposição diminuiria o potencial de irrigação da bacia do São Francisco, aumentando a pressão por barragens nos rios Paracatu e das Velhas.

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