Reportagens

Com acordos, carta aberta e sinal verde de autoridades, Congresso impulsiona agenda de trilhas

O 1º Congresso Brasileiro de Trilhas alinhou o discurso dos Ministérios do Turismo, Meio Ambiente e ICMBio em prol da agenda de trilhas de longo curso no Brasil

Duda Menegassi ·
30 de maio de 2022

Depois de cinco dias intensos, com muitos debates, apresentações e trocas de experiências, chegou ao fim o 1º Congresso Brasileiro de Trilhas, sediado em Goiânia. No saldo do evento estão a assinatura de acordos de cooperação e uma carta aberta à sociedade, que chama os Ministérios do Meio Ambiente, Turismo e ICMBio a darem os próximos passos necessários para o fortalecimento das trilhas como política pública e instrumento de geração de renda e conservação da natureza em todo o país.

Ao todo, o evento que ocorreu entre os dias 25 e 29 de maio reuniu 683 participantes presencialmente e um total de 1.994 inscritos, entre aqueles que acompanharam de forma online a programação, transmitida no canal do Youtube da Rede.

Na cerimônia de encerramento, na noite deste sábado, estiveram presentes: a diretora do Departamento de Concessões da Secretaria de Áreas Protegidas, Daiane dos Santos Rocha, em nome do Ministério do Meio Ambiente; Mario Mantovani, presidente da Fundação Florestal; a coordenadora-geral de Produtos Turísticos, Tatiana Petra, do Ministério do Turismo; o presidente do ICMBio, Marcos Simanovic; o presidente da Goiás Turismo, Fabrício Amaral; o prefeito de Niterói – próximo município que sediará o Congresso – Axel Grael; e o presidente da Rede Brasileira de Trilhas, Hugo de Castro.

Através da Carta dos Goyazes, os participantes do 1º Congresso Brasileiro de Trilhas solicitam a articulação e instituição oficial de “uma instância legítima, representativa e permanente de governança da Rede Trilhas, incluindo as três esferas federativas, a sociedade civil organizada, as universidades e a iniciativa privada, com foco e atuação em todo o território do Brasil”.

Ainda durante o evento, a diretora de Concessões do Ministério do Meio Ambiente deu uma resposta imediata à demanda e convocou a primeira reunião de governança para esta sexta-feira (3 de junho). “Ao longo do Congresso, nós falamos das razões pelas quais precisamos de uma governança, no âmbito da Rede Trilhas. Uma vez que dispomos de recursos para implementação dessa política pública, nós precisamos ter atores que são relevantes nesse processo para que a gente consiga, de forma convergente, pensar a nível de Brasil na execução desses recursos, para disseminar essa política pública”, pontuou Daiane Rocha.

Entre os objetivos desta governança estão apoiar e capacitar os órgãos nas três esferas no planejamento de trilhas de longo curso e elaborar e implementar um programa de monitoramento continuado dos impactos positivos e negativos do uso das trilhas. 

Outra demanda, solicitada diretamente ao Ministério do Meio Ambiente, foi a criação de mecanismos de fomento ou de alocação de recursos para a constituição de uma equipe de capacitação para implementação, sinalização, restauração, manejo e governança que possa apoiar os atores envolvidos com a Rede.

Além disso, a carta também pede a elaboração de uma proposta legislativa para o aperfeiçoamento da legislação para criar e implementar a política pública nacional da Rede Nacional de Trilhas e Conectividade.

Ao ICMBio, a Carta dos Goyazes encaminha demandas específicas como: a inclusão em seus planejamentos orçamentários da implementação e manutenção continuada das trilhas de longo curso que se conectam às unidades de conservação; a conciliação entre a Rede e as concessões de serviços; e que as trilhas sejam consideradas na elaboração de planos de manejo e outros instrumentos de planejamento de uso público.

Durante sua fala, o presidente do ICMBio compartilhou a ideia de fazer um gabinete itinerante na rota da Oiapoque x Chuí, trilha estruturante entre os extremos norte e sul do país, ao longo de 30 dias. “Durante esse caminho, a ideia é parar em algumas unidades de conservação, parar em algumas regiões de referência e conversar com os atores locais para fomentar melhorias nesses pontos-chave. E nessas paradas convidar também outros atores de Brasília, dos Ministérios do Turismo e de Infraestrutura, para que possam participar de parte dessa jornada”, sugeriu Simanovic.

Leia a carta na íntegra.

A carta, que foi lida integralmente durante o encerramento do Congresso, foi assinada por participantes e autoridades, entre eles o presidente da Goiás Turismo, Fabrício Amaral, que indicou a anuência das outras secretarias estaduais de turismo com a pauta. “Vocês estão muito organizados. Acho que o momento é muito convergente do poder público participar. Vão para cima, traçam prazos, traçam metas e a gente vai estar com vocês. Eu conversei com minha diretoria do Fórum Nacional de Turismo e eles me autorizaram a assinar, em nome de todos os secretários de turismo do Brasil, a carta”, parabenizou Fabrício.

O representante da World Trails Network – América, Nathaniel Scrimshaw, também assinou a carta.

O documento, endereçado a toda sociedade, será entregue aos atuais gestores ambientais e do turismo, aos chefes do executivo e aos representantes do legislativo. A carta também será entregue aos candidatos à presidência e governos dos estados, já que estamos em ano de eleição.

Participantes e voluntários que ajudaram na contrução do Primeiro Congresso Brasileiro de Trilhas. Foto: Duda Menegassi

Acordos firmados com a Rede

Foram assinados cinco acordos com diferentes entidades que também visam alavancar a agenda de trilhas no Brasil. Um deles, diretamente com a Fundação Florestal, órgão responsável pela gestão das áreas protegidas estaduais de São Paulo, no qual foi autorizado o estabelecimento de parcerias com o objetivo de mapeamento e sinalização de trilhas nas unidades de conservação do estado. 

Outros dois acordos, com a reserva Legado das Águas, da Votorantim, e com a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS) e Grande Reserva Mata Atlântica, visam a sinalização das trilhas nas reservas privadas e no âmbito da Grande Reserva com o padrão estabelecido pela Rede de Trilhas. 

Também foram assinados um acordo de cooperação técnica entre a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) e a Rede Brasileira de Trilhas; e uma carta de intenção de incremento e cooperação da Associação Brasileira de Trilhas e a Associação Rota Vicentina (de Portugal).

Domingo de trilha

O último dia do evento foi dedicado a pôr em prática a teoria dos dias anteriores, com a realização de visitas técnicas que caminharam, pedalaram e até sinalizaram trilhas, como foi o caso dos grupos que foram aos recém-criados Caminho dos Ipês, em Bela Vista, e Caminho dos Jatobás, no município de Hidrolândia. Os dois destinos, situados na região metropolitana de Goiânia, fazem parte do Desafio das Flores, um circuito de trilhas em localidades no entorno da capital goiana.

Próximo destino: Niterói

Antes mesmo desta edição inaugural do Congresso chegar ao fim, uma coisa já estava decidida: a próxima sede do evento, em 2023, será o município de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. O prefeito, Axel Grael, recebeu das mãos do presidente da Goiás Turismo a chave simbólica do Congresso.

“Os parques precisam estar à disposição das pessoas e a forma mais eficiente de fazer com que as pessoas sintam participantes e que aquilo é um patrimônio coletivo que tem a ver com eles, e a melhor forma de fazer isso é através das trilhas. Por isso, o que estamos fazendo aqui é fundamental para a economia, para fortalecer as unidades de conservação como uma estratégia de proteção e de geração de renda, emprego e lazer e recreação”, disse Axel, que destacou ainda que o município de Niterói possui mais da metade do seu território (56%) protegido por unidades de conservação e uma rede de trilhas já implementadas. 

“Visitem Niterói e venham participar conosco do 2º Congresso Brasileiro de Trilhas”, convidou o prefeito.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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Comentários 1

  1. Janine Soares Maffei diz:

    Evento importante para que possamos dar continuidade ao belo trabalho da Rede Brasileira de Trilhas.
    Á Duda Menegassi, obrigada por dar uma excelente cobertura ao 1º Congresso Brasileiro de Trilhas. Que venha o 2ª!