Boa Vista (RR) – Nos bairros de maior renda em Boa Vista, telhados cobertos por placas solares passaram a fazer parte da paisagem. Sob o sol intenso, moradores buscam na própria casa uma alternativa para reduzir a conta de luz em um estado que por anos conviveu com apagões e a dependência da energia da Venezuela e de termelétricas caras e poluentes.
Apesar do alto potencial solar de Roraima, a geração distribuída ainda alcança uma parcela limitada dos consumidores. Das cerca de 218 mil unidades consumidoras registradas no estado, 8.857 (a maioria na capital) possuem sistemas de microgeração, como painéis fotovoltaicos instalados em residências e empresas. Os dados são da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O número representa aproximadamente 4% do total, indicando que a produção própria de energia ainda está longe de se tornar realidade.
A engenheira eletricista Conceição Escobar, integrante do Fórum de Energias Renováveis de Roraima, ressalta ao ((o))eco que a localização geográfica do estado é propícia para esse tipo de geração. “Na maior parte do território a irradiação média anual é da ordem de 5,1 kWh por metro quadrado por dia, um índice bastante favorável para projetos solares”, avalia. A média é de 237 dias sem chuvas, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), e mesmo nos períodos com precipitação a luz solar não demora para aparecer.
O engenheiro eletricista e consultor de projetos, Lucas dos Santos, ressalta que a privatização da empresa (a distribuidora Roraima Energia, em 2025 do grupo JBS, antes Eletrobras) é um dos principais motivos pelos problemas. “O bem público deixou de ser a maior prioridade e o lucro passou a orientar as decisões. Quando o consumidor gera a própria energia e injeta na rede, ele deixa de pagar pelo quilowatt-hora e ainda utiliza a infraestrutura da distribuidora”, critica.
Além disso, Lucas ressalta que a rede elétrica foi planejada há mais de dez anos, para uma realidade de consumo muito menor. “Hoje há muito mais equipamentos elétricos e tecnologias nas casas, o que exige reforços e investimentos que a concessionária nem sempre prioriza”, reclama.
Clientes apostam na geração solar para pagar menos

Fabíola Wickert, de 47 anos, planeja se mudar para a casa recém reformada no fim de março. A nova residência, no bairro Cidade Satélite, foi reestruturada do chão ao teto onde ficam 14 painéis solares suficientes para sete cômodos (contando áreas internas e externas). Ela diz que finalmente vai realizar os planos que iniciaram em 2022, quando fez o primeiro orçamento – algo em torno de 20 mil reais.
“Eu quero ter conforto e como tenho trabalhado muito em home office, no calor de Boa Vista, o ar condicionado é necessário para ter um rendimento melhor”. Foi por isso que a autônoma climatizou toda a casa e espera não se preocupar com outra cobrança além das taxas de iluminação pública (R$ 26,43) e pelo uso da rede (a chamada TUSD – Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição), atualmente, aproximadamente R$ 0,16 por kWh.
“Além de ter facilidades dentro de casa como lava-louças e secadora, porque tenho uma vida muito corrida”, disse, complementando que não vai se preocupar em pagar mais caro pela conta de energia caso consuma mais já que ela tem uma geração de cerca de 1.000 kWh por mês que serão jogados na rede da distribuidora e ela receberá de volta – é o chamado sistema on-grid.
No campo empresarial, Luiz Brito é um dos primeiros de Roraima a produzir energia solar em grande escala. Em 2022, ele criou uma usina fotovoltaica com 230 placas para manter o seu complexo de empresas de construção civil composta por 92 funcionários e atuação na capital e no interior.
O valor final do investimento, com isenções, foi de R$ 2 milhões. “Se não tivesse feito, teria que pagar [para a distribuidora] uma conta de energia de 28 a 30 mil reais por mês. Passados sete anos, já recuperei, zerei o investimento. Eu estou no azul”, avalia o empresário ao destacar que Roraima tem 13 horas de sol por dia, mas ainda apresenta a menor produção entre todos os estados.

Apesar do crescimento recente, a expansão da energia solar enfrenta barreiras. Empresários do setor relatam que novos projetos têm sido barrados pela Roraima Energia, que alega limitações na infraestrutura da rede e riscos de inversão de fluxo, quando a energia gerada pelos consumidores retorna ao sistema em volume superior ao previsto. Na prática, dizem os instaladores, a justificativa tem adiado ou inviabilizado a conexão de novos sistemas, frustrando clientes que buscam reduzir a conta de luz por meio da geração própria.
Segundo o técnico em eletrotécnica Elan Kardec, sócio de uma empresa de instalação de sistemas solares em Boa Vista, a procura pela tecnologia cresceu rapidamente nos últimos anos. A empresa, que começou a operar em 2022, instalava cerca de cinco sistemas por mês no início das atividades. Em 2023, o número chegou a cerca de 10 a 15 instalações mensais, mas voltou a cair depois das mudanças regulatórias e das dificuldades de conexão à rede.
Kardec explica que o argumento da inversão de fluxo está ligado à capacidade dos transformadores que atendem cada circuito. “Se o transformador tem capacidade de 75 e já existem 60 de geração instalada naquele ponto, sobra pouco espaço para novos sistemas”, diz. Nesses casos, segundo ele, a concessionária pode limitar a potência do projeto ou exigir adaptações técnicas. Para o empresário, a solução passa por investimentos na infraestrutura elétrica. “Para atender a população e expandir a energia renovável, é preciso melhorar a rede, ampliar transformadores e criar novos alimentadores”, afirma.
Documentos técnicos da própria concessionária ajudam a entender por que alguns projetos acabam barrados. Em um dos relatórios analisados pelo ((o))eco, a Roraima Energia avaliou a instalação de um sistema solar residencial com 11,7 kWp de potência e inversor de 8 kW em uma casa de Boa Vista. O estudo concluiu que o transformador que atende o circuito, com capacidade de 112,5 kVA, já abastece outras cinco unidades com geração solar, somando 50,56 kW instalados. Com a entrada do novo sistema, a simulação indicou inversão de fluxo em determinados horários do dia, quando a energia gerada pelas placas voltaria para a rede da distribuidora.
Para o engenheiro eletricista Yuri Venâncio, presidente da Frente Roraimense de Geração Distribuída, os números apresentados no próprio relatório levantam dúvidas sobre a justificativa. “Se somar tudo, daria cerca de 58 kW, metade da capacidade do transformador”, afirma após analisar o caso.
“Do ponto de vista técnico, não haveria sobrecarga. A concessionária alega problemas na rede, mas muitas vezes não consegue demonstrar isso de forma clara”, diz Yuri.
Conforme apurado pela reportagem, com outros empresários, de cada dez projetos seis a concessionária alega inversão de fluxo. “Eles alegam problemas, mas não conseguem comprovar tecnicamente”, denunciam com receio de terem mais dificuldades em projetos futuros.
Em outro caso analisado pela empresa, um projeto de 12,2 kW de geração solar também esbarrou no mesmo problema. O transformador do circuito tem capacidade de 45 kVA e já atende duas unidades com microgeração distribuída. Pelos cálculos da concessionária, a nova usina provocaria retorno de energia para a rede entre 9h e 15h, justamente no período de maior produção dos painéis solares.
A Roraima Energia afirma que não veta a instalação de sistemas solares, mas segue as regras estabelecidas pela regulação federal. Em nota, a empresa explica que os pedidos de conexão passam por análise técnica baseada na legislação da Aneel e no marco legal da geração distribuída.
“Circuitos saturados com alta penetração fotovoltaica podem apresentar elevação de tensão acima da capacidade nominal, o que pode gerar prejuízos como a queima de equipamentos elétricos ou riscos operacionais”, acrescenta a empresa, orientando que consumidores interessados em instalar sistemas solares consultem previamente a distribuidora para verificar a viabilidade técnica da conexão antes da contratação do serviço.
Por outro lado, a pesquisadora Conceição Escobar, do Fórum de Energias Renováveis, critica a falta de investimentos na rede. “A distribuidora precisa planejar e executar a expansão das redes de distribuição considerando o crescimento da geração solar, seguindo as normas regulatórias e mantendo o equilíbrio do sistema.”
Potência solar de Roraima atrai empreendedores de outros estados
De Goiânia, Yuri Venâncio percebeu o potencial solar de Roraima durante uma viagem em 2017. Depois disso, se consolidou como um dos pioneiros na instalação de painéis fotovoltaicos no estado. Ele acompanhou de perto essa expansão e foi responsável por instalar sistemas em centenas de residências. De 2019 a 2025, apenas a empresa dele montou 766 sistemas fotovoltaicos.

Os projetos mais simples custam cerca de R$ 20 mil e podem ser financiados, com parcelas que ficam abaixo de R$ 500 por mês. Segundo ele, o crescimento inicial seguiu a lógica comum de novas tecnologias. “No começo da energia solar a gente vendia muito pouco. Era algo para quem tinha mais dinheiro. Com o tempo, os preços foram caindo e mais gente passou a ter acesso”, afirma.
Em 2025, tanto os projetos de Yuri quanto os de outros instaladores diminuíram. Mas o aumento de 24,13% na tarifa de energia após a interligação de Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN) voltou a estimular a procura por sistemas próprios de geração. Diante das limitações da Roraima Energia, uma das alternativas que começam a surgir é a geração híbrida, que combina painéis solares e baterias para armazenar energia.
“A tendência agora é a tecnologia híbrida com baterias”, diz Yuri. Segundo ele, o sistema permite guardar a energia gerada durante o dia para uso à noite ou em caso de apagões, reduzindo a dependência da rede elétrica. “Hoje ainda é caro, como era a energia solar lá atrás. Mas a expectativa é que o preço caia e, no futuro, todo mundo possa ter uma bateria em casa para armazenar energia.”
Luiz Brito defende redução nos impostos para aquisição “das placas solar ou do sistema, como os inversores e baterias, para um sistema off-grid”, que para ele “é o ideal”. Atualmente há a chamada “taxação do sol”, prevista na lei 14300/2022, conhecida como marco legal de geração distribuída.
Leis e incentivos

Em Roraima, duas leis estaduais buscam estimular a transição energética e ampliar o uso de fontes renováveis. A Lei nº 1.341, de 2019, trata do aproveitamento de energia solar e da instalação de painéis fotovoltaicos para reduzir gastos públicos, especialmente em escolas estaduais e empreendimentos da rede hoteleira. Já a Lei nº 1.109, de 2016, institui a Política Estadual de Incentivo à Geração e ao Aproveitamento de Energia Solar, Eólica e de Biomassa no estado, que prevê, na prática, isenção de ICMS para equipamentos e sistemas de geração distribuída.
Procurado pela reportagem, o governo de Roraima foi questionado sobre quantas escolas e outros prédios públicos já possuem sistemas de geração solar e de que forma a política estadual de incentivo vem sendo aplicada na prática. Em nota, o executivo ressalta que “a legislação é uma norma de caráter autorizativo e programático (e não impositivo), abrindo espaço para a adoção progressiva dessas soluções no setor público.”
Em resposta ao ((o))eco, a nota informa que no momento “não dispõe de base consolidada com essas informações operacionais, já que essas iniciativas de eventuais projetos dessa natureza envolvem diferentes órgãos executores da administração estadual”. Dados de 2020 mostram que o governo estadual chegou a acumular uma dívida de cerca de R$ 739 milhões com a Roraima Energia. Posteriormente, a concessionária e o Executivo firmaram acordos para renegociação do débito.
No âmbito legislativo, a Assembleia Legislativa de Roraima aprovou o Projeto de Lei nº 263, que obriga a concessionária a divulgar, a cada seis meses, dados sobre a capacidade das subestações para conexão de sistemas de geração distribuída. Durante a apuração do ((o))eco, o texto ainda aguardava sanção do governador, que ocorreu dias apóso pedido de resposta da reportagem, tornando-se a lei 2.337/2026.

No âmbito municipal, a prefeitura de Boa Vista afirma que já utiliza energia solar em parte da estrutura pública. Em nota, informou que o município possui sete unidades de geração fotovoltaica, que “somam em torno de 19.006 módulos fotovoltaicos e 5.898 kW de potência instalada”. A principal usina fica às margens da BR-174, na região de Monte Cristo, com 14.520 módulos e potência de 4.500 kW, sendo “responsável pela maior parte da geração do sistema, chegando a abastecer aproximadamente 75% das unidades consumidoras dos órgãos municipais.”
O Teatro Municipal também possui sistema próprio, com 2.880 módulos e potência de 1.000 kW, constituindo, segundo a prefeitura, “a principal usina integrada diretamente a um prédio público”. Outras unidades complementam o sistema municipal de geração distribuída, instaladas no Mercado Municipal, Palácio 9 de Julho, Mini Terminal Luiz Canuto Chaves, sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e na comunidade indígena Darora, na zona rural.
Contexto nacional
Especialistas avaliam que o problema não é a ausência total de incentivos públicos à energia solar, mas a insuficiência, fragmentação e instabilidade das políticas existentes. A dificuldade de conexão à rede é analisada pelo Instituto Internacional ARAYARA que aponta, apesar do crescimento, “sinais claros de gargalo regulatório e de infraestrutura”, informa John Wurdig, engenheiro ambiental e gerente de transição energética da instituição.
O ((o))eco questionou o Ministério de Minas e Energias sobre quais políticas estão sendo colocadas em prática atualmente, mas até o fechamento da reportagem não teve resposta. Assim que o órgão se posicionar o material será atualizado.
O projeto Monitor Energia da ARAYARA.org apresentou que o país encerrou 2025 “com mais de 60 GW de potência operacional solar, o que colocou a fonte como a segunda maior da matriz elétrica brasileira, com 24% de participação no parque de geração, a fonte adicionou 11 GW e mobilizou R$ 33 bilhões em investimentos”, diz George Mendes, gerente de Geociências.

Na geração distribuída, sistemas instalados em telhados e pequenos terrenos, São Paulo e Minas Gerais lideram o mercado nacional, com mais de 6 GW e 5,5 GW de capacidade instalada, respectivamente. A expansão também avança em estados como Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás e Bahia.
Embora o potencial solar seja alto em todo o país, os melhores índices de radiação se concentram no Semiárido, no Nordeste e no norte de Minas Gerais. Segundo o Atlas Brasileiro de Energia Solar, o maior nível de irradiação ocorre no norte da Bahia, próximo à divisa com o Piauí, com cerca de 6,5 kWh/m² por dia.
Mendes afirma que a energia solar em todo o Brasil tem grande potencial em comparação com outros países e, por isso, precisa ocupar um papel central na transição energética brasileira, mas não pode ser tratada como solução isolada. Além de reduzir emissões de gases de efeito estufa quando comparada à geração por carvão, gás natural ou petróleo, a fonte também ajuda a diversificar a matriz elétrica e ampliar a geração descentralizada, com potencial de reduzir custos para famílias, pequenos negócios, produtores rurais e equipamentos públicos.
“A expansão da fonte no Brasil é crucial para a mitigação climática, mas depende de um desenho regulatório adequado, planejamento territorial e mecanismos de incentivo. Em outras palavras, a solar é parte essencial da transição, mas precisa operar em conjunto com redes mais robustas, armazenamento, eficiência energética e outras renováveis, como eólica e biomassa”, avalia o especialista ao criticar que ao mesmo tempo, políticas para combustíveis fósseis continuam recebendo impulso no planejamento energético.
Conforme resposta enviada ao ((o))eco por Wurdig, o Ministério de Minas e Energia mantém previsão de contratação de usinas a carvão mineral até 2040 e prepara a realização do Leilão de Reserva de Capacidade de 2026. Dados da Empresa de Pesquisa Energética indicam que 332 empreendimentos termelétricos foram cadastrados para participar do certame, sendo 311 usinas a gás natural, três a carvão mineral e 18 movidas a óleo diesel.
Para especialistas, o contraste evidencia uma contradição no ritmo da transição energética no país. “Novas térmicas continuam avançando no planejamento do setor elétrico, enquanto em estados como Roraima, onde a dependência de termelétricas ainda é significativa e o potencial solar é elevado, essa contradição se torna ainda mais evidente”, finaliza.
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