Salada Verde

Na ONU, Bolsonaro tenta, mais uma vez, pintar o Brasil de verde

Em discurso mais contido que o usual, presidente brasileiro confunde porcentagem de vegetação nativa com preservação, exalta energia limpa e mente sobre violência no campo

Redação ((o))eco ·
20 de setembro de 2022 · 1 anos atrás
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente

O presidente Jair Bolsonaro moderou o discurso na abertura da Assembleia das Nações Unidas (ONU), realizada na manhã desta terça-feira (20), nos Estados Unidos. Sua fala durou cerca de 20 minutos e, desta vez, ele não culpou os indígenas pelos incêndios na Amazônia, como fez ao discursar em 2019 e em 2020. Como sempre, exaltou a biodiversidade brasileira – que seu governo nada fez para proteger -, e mentiu sobre a diminuição dos conflitos no campo – as mortes no campo cresceram

“Dois terços de todo o território brasileiro permanecem com vegetação nativa, que se encontra exatamente como estava quando o Brasil foi descoberto, em 1500. Na Amazônia brasileira, área equivalente à Europa Ocidental, mais de 80% da floresta continua intocada, ao contrário do que é divulgado pela grande mídia nacional e internacional”, exagerou o presidente. 

O Brasil foi o país que mais desmatou floresta primária no mundo em 2021. Apenas nos três primeiros anos do governo Bolsonaro, 34 mil km² foram derrubados na Amazônia brasileira. Isoladamente, os dados de vegetação nativa não significam que a floresta está “como em 1500”. Parte desta vegetação encontra-se em propriedades privadas, ou são fragmentos florestais isolados por estradas ou empreendimentos. Ao menos 9% desse contingente já foi desmatado ao menos uma vez e 20%, queimado ou degradado.

Mais adiante em sua fala, Bolsonaro acusou os países da Europa de sujar a própria matriz por causa da guerra na Ucrânia e chamou isso de “grave retrocesso para o meio ambiente”. Na mesma parte do discurso, ele aproveitou para chamar  atenção para a confortável matriz energética brasileira. “No ano passado, o Brasil foi escolhido pelas Nações Unidas como país ‘campeão da transição energética’. Temos capacidade para ser um grande exportador mundial de energia limpa. Contamos com um excedente, já em construção, que pode chegar a mais de 100 Gigawatts entre biomassa, eólica terrestre e solar, além da oportunidade, ainda não explorada, de eólicas marítimas de 700 Gigawatts, com um dos menores custos de produção do mundo. Essas fontes produzirão hidrogênio verde para exportação”, prometeu. 

O Brasil é um país que não depende de fonte de energia suja, mas a administração Bolsonaro priorizou o uso de termelétricas, de modo que elas sejam usadas na matriz energética de forma permanente, e não apenas como emergenciais, como antes. Ao contrário da Europa, que não tem muita manobra para limpar a própria matriz, o Brasil escolheu como política de governo sujar a sua

“É fundamental que, ao cuidarmos do meio ambiente, não esqueçamos das pessoas: a região amazônica abriga mais de 20 milhões de habitantes, entre eles indígenas e ribeirinhos, cuja subsistência depende de algum aproveitamento econômico da floresta”, complementou Bolsonaro. 

No resto do discurso, o presidente fez um balanço positivo dos feitos do próprio governo nas demais áreas e terminou citando a primeira dama, a quem atribui protagonismo no “novo significado ao trabalho de voluntariado desde 2019” e as manifestações do dia 7 de setembro.

Leia o discurso na íntegra aqui

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