Notícias

Satélites e inteligência geoespacial reforçam proteção da Mata Atlântica

Operação de MPs e órgãos ambientais já aplicou R$ 116 mi em multas por desmates e outros delitos em estados do bioma

Aldem Bourscheit ·
29 de outubro de 2025

A Mata Atlântica é uma das regiões mais devastadas e ameaçadas no Brasil, onde as imparáveis pressões do desmate e da fragmentação da vegetação natural ameaçam a biodiversidade, o clima e as fontes de água que abastecem pessoas e economias, nas cidades e no campo.

Diante desse cenário, aperfeiçoar a vigilância e a punição dos crimes ambientais é crucial para conservar e recuperar o bioma – lar de sete em cada dez brasileiros. Agora, esse trabalho ficou mais fácil com uma ferramenta desenvolvida no Rio Grande do Sul que detecta e mapeia mudanças na flora nativa.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Usando imagens de satélite e dados geoespaciais, ela permite análises mais rápidas e precisas sobre os delitos ambientais, sejam desmatamentos ou conversão de campos de altitude, ambos muitas vezes eliminados ilegalmente para a agropecuária ou o cultivo de árvores exóticas, como eucaliptos e pinus.

Para tanto, o sistema automatizado – criado por pesquisadores do Instituto-Geral de Perícias (IGP), UFRGS e Unisinos – usa o NDVI (sigla em Inglês do Índice de Vegetação por Diferença Normalizada) para comparar a vegetação antes e depois das intervenções humanas.

O NDVI já é usado por setores como o agronegócio, por exemplo, para monitorar lavouras, identificar falhas em plantios, detectar pragas, falta d’água ou de nutrientes, bem como acompanhar o crescimento e a produtividade de diferentes cultivos.

Exemplo da ferramenta detectando e dimensionando desmates ilegais. Imagem: IGP / Divulgação

Geosistemas integrados

Além de apontar de forma mais certeira os crimes, os relatórios da ferramenta podem ser integrados a outros sistemas de geoinformação, como do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (SiCAR), ajudando a elucidar até se Áreas de Preservação Permanente (APPs) foram afetadas.

Para os pesquisadores, isso tudo mostra como análises de vegetação podem ser automatizadas com imagens satelitais e apoiar investigações criminais, além de abrir caminho para o uso da inteligência artificial e à aplicação em outros delitos, como em pantanais e demais áreas úmidas.

“A pesquisa integra um projeto maior para criar e aprimorar ferramentas que apoiem a perícia ambiental e tornem os laudos periciais mais qualificados”, disse Renata Cardoso Vieira, chefe da Seção de Perícias Ambientais do Instituto-Geral de Perícias do RS.

O Parque Estadual do Rio Turvo (SP) guarda uma das maiores porções contínuas de Mata Atlântica do Brasil. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Ataques à floresta litorânea 

A ferramenta desenvolvida em solo gaúcho também poderia aprimorar ações inovadoras ou costumeiras contra a criminalidade ambiental num dos biomas mais devastados do país – do qual restam apenas 24% da floresta original, sendo apenas 12,4% de matas maduras e bem preservadas.

Criada em 2017 no Paraná como uma força-tarefa entre Ministério Público e órgãos ambientais para coibir o desmatamento ilegal no bioma, a Operação Mata Atlântica em Pé ganhou escala nacional e vem revelando algumas das maiores frentes de devastação.

Este ano, não foi diferente. Após constatar que ao menos 12,3 mil ha foram eliminados desde o ano passado, agentes aplicaram R$ 116 milhões em multas, mas o valor pode subir quando forem consolidados dados dos 17 estados do bioma. Até agora, Minas, Piauí e Ceará lideram a devastação.

Do total desmatado, 2,8 mil ha se devem a enxurradas e outros eventos climáticos extremos, como os ocorridos no Rio Grande do Sul em 2024.

Em alguns estados, pessoas foram presas em flagrante ou foram apreendidos máquinas e equipamentos como escavadeiras, carregadeiras e motosserras. A fiscalização é direcionada por alertas do sistema MapBiomas.

Promotor para os vales do Jequitinhonha e do Mucuri no MP-MG, Rauali Kind Mascarenhas destacou a importância da operação. Ele lembrou que a Mata Atlântica fornece água para cerca de 120 milhões de pessoas e explicou os passos que levaram às autuações.

“A primeira fase foi o levantamento dos desmates, seguidos pela identificação dos proprietários e pela fiscalização presencial. Na quarta fase, há responsabilização por meio do Ministério Público para interrupção dos desmatamentos e reparação dos danos ambientais”, descreveu.

Já para o promotor de Justiça do Ministério Público do Paraná (MP-PR) e coordenador nacional da operação pela Abrampa (Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente), Alexandre Gaio, a iniciativa ultrapassa gestões e se fortalece a cada edição. 

“A Mata Atlântica em Pé se tornou uma política pública estruturada e permanente. Ela demonstra que, com articulação, tecnologia e inteligência, é possível fiscalizar quase a totalidade do desmatamento ilegal no bioma e avançar na sua proteção e recuperação”, avaliou.

*Com informações do IGP, Governo do RS, MP-PR e MP-MG.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
31 de janeiro de 2025

Apenas 5% das condenações do MPF a infratores na Amazônia são pagas

Análise do Imazon em mais de 3,5 mil ações do Ministério Público relacionadas a desmatamento ilegal mostrou lentidão no pagamento das indenizações

Salada Verde
11 de outubro de 2024

Aplicativo permite a denúncia de crimes ambientais pela população

Além da geolocalização, a ferramenta possibilita que o usuário acompanhe o andamento da denúncia. O aplicativo está disponível para Android e IOS

Notícias
24 de junho de 2025

Bioma mais destruído do país, menos de 10% da Mata Atlântica é protegida por UCs

A maioria das UCs no bioma são reservas particulares. Já as Áreas de Proteção Ambiental são paralelamente as maiores e as que menos possuem vegetação nativa de pé

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.