O futuro climático sob diferentes perspectivas e o impacto da cobertura jornalística nas crises ambientais guiaram os debates da tarde no Seminário Jornalismo e Clima. O encontro compõe a programação da Rio Nature and Climate Week (RNCW) e foi dividido em duas partes, manhã e tarde. Na segunda metade do evento, o debate trouxe à mesa nomes centrais como Sônia Bridi, Mateus Fernandes, Andréia Coutinho, Pedro Mota e Ray Baniwa para discutir os caminhos da comunicação dentro da cobertura climática.
No primeiro momento da tarde, a conversa começou com uma reflexão sobre a necessidade de romper com a cobertura tradicional sobre o meio ambiente. Andréia Coutinho, diretora executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática, destacou a urgência de inserir a justiça racial dentro da agenda do clima, apontando para as estruturas que reforçam o racismo ambiental. Segundo ela, o excesso de informações catastróficas e frias muitas vezes desanima e paralisa o público.
Para Andréia, o papel do jornalismo comprometido deve ser o de traduzir a gravidade do cenário, transformando a exaustão em inquietude e direcionando o debate para a busca pelo “bem viver”.
“Vim aqui dizer que acredito no jornalismo, porque ele me salvou. Ele salva a gente de uma opinião rasa”, declarou a jornalista.
Na sequência, Pedro Mota, vindo de Belém do Pará e jornalista do COJOVEM, trouxe dados alarmantes que ilustram como a crise climática é diretamente proporcional à vulnerabilidade social de determinados grupos. Para ele, a pauta ambiental é, acima de tudo, uma questão de sobrevivência identitária.
“Minha terra é meu organismo e meu DNA; se ela perde, eu perco também”, afirmou Pedro.
Complementando essa perspectiva, Ray Baniwa, do Instituto da Hora, abordou o papel ambíguo da internet nas comunidades indígenas, funcionando tanto como vetor de desinformação quanto como ferramenta de defesa. Ele destacou a criação da Rede Kaiure para produzir informações locais e o avanço da Associação de Jornalistas Indígenas.
“A comunicação indígena vem se fortalecendo e dando espaço para os jovens”, pontuou Ray. “A gente precisa ser ouvido. Quando não somos, acabamos não fazendo parte desses debates.”
Encerrando o primeiro momento do encontro, a jornalista da Globo, Sônia Bridi, compartilhou experiências marcantes de sua trajetória profissional, destacando aprendizados sobre o papel do jornalismo diante da crise climática. A reflexão serviu como ponte para a segunda etapa do debate, que teve início com uma frase que sintetizou a discussão da tarde: “O jornalista que não está falando do clima não está fazendo jornalismo”.
Ao ser questionada por Mateus Fernandes, do InfoPeriferia, sobre como comunicar a gravidade do tema sem afastar o público, a repórter defendeu que a exaustão deve ser combatida com foco nas soluções apontadas pela ciência.
Ao longo da conversa, Sônia relembrou crises humanitárias marcantes, como as tragédias envolvendo povos indígenas e o desastre de Brumadinho, para demonstrar que os impactos da emergência climática já ultrapassam as discussões econômicas e políticas tradicionais.
“O que estamos discutindo não é o modelo de desenvolvimento, o que estamos discutindo é a capacidade de continuar habitando esse planeta”, concluiu.
Em um cenário cada vez mais marcado pelos efeitos das mudanças climáticas, o evento destacou o papel fundamental do jornalismo na construção de informação qualificada e no fortalecimento do debate público sobre o futuro do planeta.
O Seminário de Jornalismo e Clima de ((o))eco integra programação da Rio Nature and Climate Week e está disponível na íntegra pelo YouTube.
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