O crescimento populacional e as técnicas agrícolas aplicadas na África ameaçam acabar com o solo e com as florestas do continente. Segundo estudo divulgado na quinta-feira, dia 30, em Nova York, três quartos das terras africanas agricultáveis estão inutilizadas devido à perda de nutrientes.
Além de agravar o problema da fome, o quadro representa uma ameaça ao meio ambiente. Pelo menos seis em cada dez africanos dedicam-se diretamente à agricultura. E eles costumam abandonar as terras inférteis e derrubar florestas e savanas para plantar novas lavouras. Hoje, aproximadamente 70% do desmatamento que ocorre na África é realizado para abrir espaço para plantações.
Antes, o processo tinha um impacto menor porque a terra era abandonada para descansar e recuperar os nutrientes perdidos. Mas a pressão populacional por comida levou os fazendeiros a usarem o solo até exauri-lo. Como eles têm pouco acesso a fertilizantes, o avanço sobre as matas acontece sempre. Cerca de 50 mil hectares de floresta e 60 mil de savanas são perdidos anualmente na África para dar lugar à agricultura.
O desmate contribui para a perda de nutrientes, junto com erosões e lixiviações provocadas pelo mau uso da terra. O estudo — realizado por um centro internacional dedicado à fertilidade do solo e desenvolvimento agrícola conhecido como IFDC — analisou a saúde do solo africano de 1980 a 2004. Os pesquisadores descobriram que nesse período o declínio substancial da qualidade da terra se tornou uma realidade nas principais regiões da África subsaariana. Entre 2002 e 2004, por exemplo, 85% das áreas agricultáveis do continente perderam mais de 30 quilos de nutriente por hectare a cada ano. Em países como Congo, Angola, Ruanda e Burundi, essa taxa sobe para 60 quilos. Os pesquisadores também concluíram que 95 milhões de hectares na África foram degradados a tal ponto que apenas investimentos de grandes proporções poderiam torná-los produtivos novamente.
A crise do solo — como o problema se tornou conhecido — é a principal causa da pobreza e da fome que assombram a região. Ao mesmo tempo, aumentar a produção agrícola no continente é uma urgência diante da expectativa de que a população chegue a 1,8 bilhão de pessoas até 2050. Em 2003, os países africanos foram obrigados a desembolsar 7,5 bilhões de dólares com importação de cereais. Se a curto prazo nada mudar na política agrícola, os gastos podem dobrar até 2020. Enquanto isso, perde-se anualmente uma quantidade de nutrientes avaliada em 4 bilhões de dólares nos campos da África.
Em junho, a Nigéria sedia um encontro internacional para discutir estratégias para revitalizar o solo africano. Um dos temas principais será o uso de fertilizantes. A África é o local do mundo onde menos se usa esse tipo de tecnologia. Lá os agrotóxicos custam até seis vezes mais do que a média mundial. Os organizadores do evento prometem não deixar a questão ambiental de lado. Dizem que os fertilizantes orgânicos serão lembrados. Também garantem que o objetivo é desenvolver técnicas que não necessitem de muita química para não pesar no bolso dos agricultores.
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