Reportagens

Terra morta

Três quartos das terras agricultáveis da África estão inutilizáveis. Os motivos são mau uso do solo, inchaço populacional e derrubada de florestas e savanas.

Carolina Elia ·
30 de março de 2006 · 21 anos atrás

O crescimento populacional e as técnicas agrícolas aplicadas na África ameaçam acabar com o solo e com as florestas do continente. Segundo estudo divulgado na quinta-feira, dia 30, em Nova York, três quartos das terras africanas agricultáveis estão inutilizadas devido à perda de nutrientes.

Além de agravar o problema da fome, o quadro representa uma ameaça ao meio ambiente. Pelo menos seis em cada dez africanos dedicam-se diretamente à agricultura. E eles costumam abandonar as terras inférteis e derrubar florestas e savanas para plantar novas lavouras. Hoje, aproximadamente 70% do desmatamento que ocorre na África é realizado para abrir espaço para plantações.

Antes, o processo tinha um impacto menor porque a terra era abandonada para descansar e recuperar os nutrientes perdidos. Mas a pressão populacional por comida levou os fazendeiros a usarem o solo até exauri-lo. Como eles têm pouco acesso a fertilizantes, o avanço sobre as matas acontece sempre. Cerca de 50 mil hectares de floresta e 60 mil de savanas são perdidos anualmente na África para dar lugar à agricultura.

O desmate contribui para a perda de nutrientes, junto com erosões e lixiviações provocadas pelo mau uso da terra. O estudo — realizado por um centro internacional dedicado à fertilidade do solo e desenvolvimento agrícola conhecido como IFDC —  analisou a saúde do solo africano de 1980 a 2004. Os pesquisadores descobriram que nesse período o declínio substancial da qualidade da terra se tornou uma realidade nas principais regiões da África subsaariana. Entre 2002 e 2004, por exemplo, 85% das áreas agricultáveis do continente perderam mais de 30 quilos de nutriente por hectare a cada ano. Em países como Congo, Angola, Ruanda e Burundi, essa taxa sobe para 60 quilos. Os pesquisadores também concluíram que 95 milhões de hectares na África foram degradados a tal ponto que apenas investimentos de grandes proporções poderiam torná-los produtivos novamente.

A crise do solo — como o problema se tornou conhecido — é a principal causa da pobreza e da fome que assombram a região. Ao mesmo tempo, aumentar a produção agrícola no continente é uma urgência diante da expectativa de que a população chegue a 1,8 bilhão de pessoas até 2050. Em 2003, os países africanos foram obrigados a desembolsar 7,5 bilhões de dólares com importação de cereais. Se a curto prazo nada mudar na política agrícola, os gastos podem dobrar até 2020. Enquanto isso, perde-se anualmente uma quantidade de nutrientes avaliada em 4 bilhões de dólares nos campos da África.

Em junho, a Nigéria sedia um encontro internacional para discutir estratégias para revitalizar o solo africano. Um dos temas principais será o uso de fertilizantes. A África é o local do mundo onde menos se usa esse tipo de tecnologia. Lá os agrotóxicos custam até seis vezes mais do que a média mundial. Os organizadores do evento prometem não deixar a questão ambiental de lado. Dizem que os fertilizantes orgânicos serão lembrados. Também garantem que o objetivo é desenvolver técnicas que não necessitem de muita química para não pesar no bolso dos agricultores.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
30 de outubro de 2026

Brasil tem mais de 3,7 mil plantas ameaçadas de extinção

Lista atualizada pelo Ministério do Meio Ambiente alerta para aumento do grau de ameaça do pau-brasil e para possível extinção de duas plantas da Mata Atlântica →

Análises
30 de outubro de 2026

Proteger a biodiversidade exige conectar territórios

Brasil levou a COP 17 da Biodiversidade proposta que reforça necessidade de investir em corredores de biodiversidade e redes ecológicas que não se limitem às áreas protegidas →

Salada Verde
30 de outubro de 2026

MMA abre inscrições para sete vagas da sociedade civil na Comissão Nacional de Biodiversidade

Organizações ambientalistas podem se inscrever até 8 de novembro para participar da eleição de representantes no colegiado durante o biênio 2027–2028 →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.