Eu já estive em Piracanga algumas vezes ao longo dos anos. A pequena comunidade no litoral sul da Bahia, cercada por mata, rio e mar, é um daqueles lugares onde a paisagem parece guardar memória e recarregar as nossas energias de fato. Mas esse território também precisa de atenção.
Voltei depois de quatro anos e senti um estranhamento imediato, impossível não observar e não se preocupar com o avanço do mar sobre a comunidade. Onde antes havia uma faixa mais larga de areia, hoje o mar chega mais perto da vegetação. Em alguns trechos, a linha da água avançou metros em direção às árvores.
A erosão costeira é parte da dinâmica natural das praias. Areia se move constantemente sob a influência de ventos, correntes e marés. A linha da costa nunca foi fixa. O problema começa quando cidades e empreendimentos passam a ocupar justamente essa zona de movimento. Além disso, o aumento do nível do mar, agravado pelo aquecimento global e intensificado pela queima de combustíveis fósseis, atingiu níveis recordes na região, subindo cerca de 0,59 cm apenas em 2024.
Segundo diagnósticos do Ministério do Meio Ambiente, cerca de 40% do litoral brasileiro apresenta algum grau de erosão costeira. No Nordeste, onde muitas praias são mais estreitas e sensíveis às mudanças de sedimentos, os impactos costumam ser ainda mais visíveis.
Diante da perda de faixa de areia, muitas prefeituras recorrem a soluções de engenharia pesada: alargamento artificial de praias, reforço de bancos de areia, muros de contenção ou enrocamentos de pedra para tentar conter o avanço das ondas.
Essas obras podem oferecer alívio temporário, mas frequentemente alteram o transporte natural de sedimentos que mantém o equilíbrio das praias. Em alguns casos, resolvem o problema em um trecho da costa enquanto intensificam a erosão em outro. Recentemente, o governo do Paraná foi multado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em R$ 2,5 milhões pelo uso de sacos plásticos com areia para conter a erosão no litoral de Matinhos.
Enquanto isso, uma solução conhecida há séculos continua sendo negligenciada: restaurar os ecossistemas que naturalmente protegem a linha de costa.
O litoral brasileiro abriga mais de 550 mil hectares de praias e restingas, ecossistemas fundamentais para a estabilidade costeira e para a proteção de comunidades que vivem próximas ao mar. Ainda assim, essas áreas continuam sendo removidas ou degradadas para dar lugar a condomínios, estacionamentos improvisados ou expansões urbanas voltadas ao turismo.
Ela também ameaça modos de vida que historicamente aprenderam a conviver com a dinâmica do litoral. Comunidades tradicionais costeiras, como pescadores artesanais e populações caiçaras, sempre entenderam que o mar e a areia estão em movimento. Suas práticas de ocupação do território respeitam essa instabilidade natural.
Quando a vegetação costeira desaparece e a urbanização avança até a linha da praia, não é apenas o ecossistema que se fragiliza. É também a relação histórica entre território e cultura que começa a desaparecer.
Em vez de tentar conter o oceano com pedras, a estratégia passa a ser reconstruir os sistemas naturais que sempre ajudaram a equilibrar essa relação, cada metro de restinga preservado pode fazer diferença na proteção da costa. Restaurar esses ecossistemas não é apenas uma ação ambiental, é também uma estratégia de adaptação climática.
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