Reportagens

Entre ficar e sair: os desafios da juventude nas comunidades da Amazônia

Falta de educação, poucas oportunidades e ausência de políticas públicas impulsionam o êxodo rural entre jovens nas comunidades do Rio Arapiuns, no oeste do Pará

Natália Dias Viana ·
31 de março de 2026

Nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, viver entre a floresta, os rios e as tradições culturais sempre fez parte da identidade dos povos da região. No entanto, para muitos jovens do Rio Arapiuns, próximo a Santarém, a decisão entre permanecer na comunidade ou buscar oportunidades na cidade tornou-se um dilema cada vez mais presente. O êxodo rural entre jovens tem sido motivado principalmente pela busca por educação, trabalho e novas perspectivas de vida. Ao mesmo tempo, lideranças comunitárias e jovens da região apontam que iniciativas como o cooperativismo, o turismo comunitário e novos projetos socioprodutivos podem contribuir para fortalecer a permanência da juventude no território.

Na comunidade de Atodi, localizada no Rio Arapiuns, a escola local oferece ensino apenas até o 9º ano do ensino fundamental. A partir dessa etapa, os jovens precisam deixar a comunidade para continuar os estudos. Atualmente, há apenas 38 alunos. A comunidade só possui 48 famílias. A historiadora Naira Castro Matos, de 27 anos, moradora da comunidade e presidente da Cooperativa de Turismo e Artesanato da Floresta (Turiarte), afirma que essa realidade é um dos principais fatores que estimulam o êxodo rural entre os jovens. Segundo ela, quem deseja cursar o ensino médio precisa estudar em Santarém, a cerca de 6 horas de barco da comunidade ou tentar frequentar escolas em comunidades vizinhas.

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“O transporte depende de combustível e não existe uma linha pública para levar os estudantes todos os dias. Muitas vezes esse custo sai do bolso da própria família”, explica.

Diante dessa dificuldade, muitos jovens acabam se mudando para Santarém para continuar os estudos. A própria Naira viveu essa experiência: em 2014 teve que se deslocar para Santarém, a cidade mais próxima da sua comunidade.

“Eu fiz o primeiro ano do ensino médio na comunidade de Animã, que fica próxima de Atodi. A gente ia todos os dias de rabeta, mas era muito cansativo. Acabei vindo para Santarém para continuar os estudos”, relata.

Segundo ela, essa é uma realidade comum entre os jovens da comunidade. “A maioria dos alunos que termina o 9º ano acaba vindo para Santarém”.  

Depois de formada, não conseguiu retornar para a sua aldeia, pois não havia oportunidade de emprego e com isso uma das alternativa de ainda manter o contato com suas raízes foi através da Cooperativa, onde começou sua atuação na área de vendas em 2021 e atualmente atua na diretoria. A cooperativa Turiarte atua em 14 comunidades ribeirinhas na região da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, onde desenvolve o turismo de base comunitária e incentiva o artesanato produzido pelas mulheres, utilizando a palha de tucumã, uma palmeira nativa da região.

Santarém (PA), com 331 mil habitantes, possui mais de 100 escolas de ensino médio e é destino de quase todo jovem morador de comunidade ribeirinha para finalizar os estudos. .Foto:: Agência Santarém/Prefeitura de Santarém.

Juventude entre o sonho da cidade e o pertencimento à comunidade

Para muitos jovens das comunidades amazônicas, sair para a cidade representa a possibilidade de estudar, conseguir emprego e construir um futuro profissional.

A jovem Eliza Amorin, moradora da comunidade de Anã e estudante de Turismo, explica que a juventude vive constantemente entre o desejo de permanecer na comunidade e a necessidade de buscar oportunidades fora dela.

“Viver na comunidade hoje, como jovem, é viver entre o questionamento de ficar ou sair”, afirma.

Segundo ela, muitos jovens deixam suas comunidades com o objetivo de estudar ou encontrar um emprego melhor, mas nem sempre conseguem alcançar esses objetivos.

“Muitos saem com o sonho de fazer uma faculdade, mas enfrentam dificuldades para se manter na cidade. Acabam arrumando um trabalho, formando uma família e não conseguem realizar o sonho inicial de estudar.”

Barraca na comunidade de Atori. Foto: Natália Dias Viana

Eliza também aponta que existe um imaginário muito forte entre os jovens de que todas as oportunidades estão nas cidades. “Muitos crescem ouvindo que o que é melhor está na cidade. Isso faz com que a comunidade seja vista como um lugar sem oportunidades.”

No entanto, a experiência de participar de projetos comunitários ligados ao turismo, à piscicultura e à produção local fez com que ela mudasse sua visão: “Hoje eu vejo que é possível construir uma vida boa dentro da comunidade, com renda e qualidade de vida.”

Cooperativismo e projetos comunitários como alternativa 

Diante dos desafios enfrentados pelas comunidades ribeirinhas da Amazônia, iniciativas coletivas têm surgido como caminhos importantes para fortalecer a economia local e criar oportunidades para a juventude. O cooperativismo, nesse contexto, aparece como uma estratégia de organização comunitária capaz de gerar renda e valorizar os saberes tradicionais das populações da floresta.

Naira Castro Matos, presidente da Cooperativa de Turismo e Artesanato da Floresta. Foto: Arquivo Pessoal.

Na região do Rio Arapiuns e Rio Tapajós, no oeste do Pará, a Turiarte (Cooperativa de Turismo e Artesanato da Floresta) é um exemplo dessa organização. Formada por moradores de comunidades ribeirinhas, a cooperativa atua no fortalecimento do turismo de base comunitária e na valorização do artesanato produzido pelas famílias locais, fundada no dia 01 de maio de 2015 com 70 sócios de 7 comunidades. Por meio dessas atividades, a cooperativa busca promover alternativas econômicas sustentáveis que permitam às comunidades gerar renda sem abrir mão de seus modos de vida tradicionais. Além disso, iniciativas como essa também contribuem para criar oportunidades para os jovens dentro do próprio território, incentivando sua participação em atividades ligadas à cultura, ao turismo e à economia local.

Falta de políticas públicas também contribui para o êxodo

Outro fator apontado por lideranças comunitárias para o êxodo é a ausência de políticas públicas voltadas para a juventude rural.

O jovem líder comunitário Darlon Neres, morador da comunidade Cabeceira do Marco, no Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, afirma que muitos jovens deixam suas comunidades principalmente para estudar.

“Muitos terminam o ensino médio e vão para cidades como Santarém ou Manaus em busca de universidade e trabalho”.

Segundo ele, a falta de instituições de ensino superior próximas às comunidades dificulta a permanência dos jovens no território.

“Temos um território com cerca de 40 mil habitantes e não existe um polo de universidade dentro da floresta”, diz.

Apesar disso, a chegada da internet tem permitido que alguns jovens permaneçam nas comunidades enquanto estudam por meio do ensino à distância.

No entanto, ele ressalta que o ensino presencial ainda oferece melhores condições de aprendizado. “Precisamos discutir por que as universidades não podem estar dentro da floresta.”

Barcos na comunidade de Atori. Foto: Natália Dias Viana

Juventude como guardiã da cultura e dos territórios

Além das questões econômicas e educacionais, a saída da juventude das comunidades também ameaça a continuidade de práticas culturais e saberes tradicionais.

Para Darlon, manter os jovens nos territórios é essencial para garantir a continuidade das culturas amazônicas.

“A gente só vai manter a cultura viva se os jovens conhecerem e valorizarem o lugar onde vivem.”

Segundo ele, muitos jovens saem para estudar ou trabalhar, mas é importante que retornem para contribuir com suas comunidades.

“A gente precisa estudar, aprender coisas novas, mas também voltar para o território e devolver aquilo que aprendemos.”

Enquanto isso, iniciativas comunitárias, projetos de geração de renda e o fortalecimento do cooperativismo seguem sendo caminhos possíveis para que os jovens continuem construindo seu futuro dentro das comunidades da Amazônia.

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