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A ignorância como estratégia de poder

Em um mundo político saturado de informação induzida, imprecisa e altamente manipulada, a ignorância deixou de ser ausência. Tornou-se projeto

6 de abril de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

Em conflitos contemporâneos, a disputa não se limita ao território, aos recursos ou à supremacia militar. Há uma dimensão menos visível, porém igualmente decisiva: o controle do conhecimento. Ou, mais precisamente, a produção deliberada da ignorância. Esse fenômeno, estudado no campo da Agnotologia, revela que, em muitos contextos, não é a falta de informação que molda a realidade, mas a sua manipulação estratégica.

O conceito, desenvolvido pelo historiador da ciência Robert N. Proctor, ajuda a compreender a complexidade das narrativas do mais polêmico contexto que hoje ameaça o equilíbrio global: a guerra entre Estados Unidos e Irã. Em torno do Irã construiu-se ao longo das últimas décadas um ambiente informacional marcado por ambiguidade, disputas interpretativas e seletividade narrativa. A questão central não é apenas “o que sabemos”, mas “o que nos é permitido saber”. Guardadas as proporções do estímulo ao terrorismo, a mais condenável e covarde prática de guerra, que vitima civis de forma indiscriminada, outros elementos que justificam a massiva onda de destruição no Oriente Médio necessitam de reflexão e boa dose de informação qualificada.

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O debate sobre o programa nuclear iraniano ilustra esse cenário com precisão. Relatórios técnicos da AIEA, frequentemente complexos e condicionais, são convertidos em discursos políticos categóricos. Incertezas inerentes à investigação científica tornam-se instrumentos retóricos. A dúvida, nesse contexto, não é um estágio transitório rumo ao conhecimento, mas uma ferramenta de poder. Mantém-se uma zona cinzenta permanente e suficiente para justificar sanções, mas ambígua o bastante para evitar consensos internacionais estáveis.

Essa dinâmica não é inédita. A história recente mostra como a produção de dúvida foi utilizada para legitimar decisões geopolíticas de alto impacto. No caso iraniano, entretanto, a agnotologia opera de forma mais sofisticada, articulando diplomacia, inteligência, mídia e interesses econômicos – especialmente no campo energético.

Outro vetor fundamental dessa construção da ignorância reside nas sanções econômicas. Apresentadas como mecanismos de pressão política, elas são frequentemente dissociadas de seus efeitos concretos sobre a população civil. A inflação, a escassez de medicamentos e o colapso de cadeias produtivas raramente ocupam o centro do debate internacional. Há uma tendência sistemática de invisibilização dos impactos humanitários e ambientais, como se estes fossem externalidades inevitáveis, e não elementos centrais da equação política. Trata-se de forma silenciosa de agnotologia: não pela distorção direta, mas pela omissão estruturada.

No ambiente digital, essa lógica atinge um novo patamar. Redes sociais transformaram-se em arenas de guerra híbrida, onde informações são amplificadas, distorcidas ou fabricadas em escala industrial. Bots, campanhas coordenadas e ecossistemas de desinformação criam realidades paralelas, reforçando percepções previamente moldadas. A ignorância deixa de ser um subproduto do conflito e passa a ser um de seus principais instrumentos operacionais.

As consequências desse processo são profundas. A opinião pública global passa a operar com percepções fragmentadas e frequentemente contraditórias. Decisões políticas são tomadas com base em narrativas incompletas ou enviesadas. E a própria ideia de verdade factual torna-se instável, sujeita a disputas permanentes. Além disso, a corrida armamentista lança a humanidade para uma realidade sombria. Os Estados Unidos estão no caminho de aumentar o orçamento militar para 2027 em 1,5 trilhão de dólares, o maior aumento desde a Segunda Guerra Mundial, o que já está sendo comemorado pelos fabricantes de artefatos mortais.

A indução do “budget” letal irá modular os sistemas de defesa geopolíticos globais correspondentes, como China e Rússia. O mundo passará a girar com base nas perspectivas do orçamento de defesa norte-americano sem mais atentar para imprescindíveis recursos necessários para equacionar a verdadeira armadilha humanitária do aquecimento global, que as emissões da maquinaria bélica certamente irão agravar.  

Essa é uma dimensão frequentemente negligenciada: os impactos ambientais dos conflitos bélicos. A ausência de dados consolidados sobre danos ecológicos – seja por ações militares diretas, seja por efeitos indiretos como sanções e colapsos econômicos – revela um campo adicional de ignorância produzida. Em um contexto de crise climática global, essa lacuna informacional é particularmente grave. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU tem reiterado que conflitos e instabilidade política ampliam vulnerabilidades ambientais, mas a mensuração desses impactos permanece insuficiente.

Nesse sentido, a agnotologia não é apenas uma ferramenta de poder geopolítico, mas também um obstáculo à governança ambiental global. Sem dados confiáveis, não há responsabilização. Sem responsabilização, não há prevenção. E sem prevenção, perpetua-se um ciclo de degradação e as emissões de gases efeito estufa que ultrapassam fronteiras nacionais. Os efeitos que serão sentidos por todo o planeta.

A guerra – mesmo quando não declarada – não se trava apenas no campo de batalha. Ela ocorre também no plano simbólico, informacional e cognitivo. Controlar o que se sabe, o que se ignora e o que se acredita tornou-se tão estratégico quanto controlar territórios.

De outro lado, enquanto a guerra atrai a atenção da sociedade, uma intensa guerra ambiental é travada internamente nos Estados Unidos, com a destruição total da estrutura governamental de proteção de florestas nacionais.

O setor de pesquisa florestal mais respeitado do planeta, que determinou o conhecimento sobre ecologia das florestas primárias e adaptação climática, envolvendo comportamento de incêndios florestais e saúde de bacias hidrográficas, caiu por terra nesta semana. O governo de Donald Trump fechou nada menos que cinquenta estações estatais de pesquisa florestal em 31 estados.   O sistema florestal, que depende de pesquisas específicas regionais, foi “consolidado” em apenas um local, em Fort Collins, Colorado.

Até onde as estratégias da agnotologia podem chegar, com a destruição das estruturas do conhecimento científico, desmantelamento das organizações humanitárias e de saúde? Essa dimensão deve ser imediatamente colocada sob observação.

Palavras fáceis como “consolidação” e “modernização” são amplamente utilizadas na prática da governança ambiental distorcida pela agnotologia, o que no Brasil é perfeitamente observável na atual prática legislativa lobística que destruiu instrumentos importantes da proteção florestal existentes no Código Florestal Brasileiro.

Além disso, devastou  a percepção sobre impactos ambientais, com o ataque legislativo aos princípios que regem o licenciamento ambiental brasileiro, que simplesmente ignorou princípios de essência sobre a concepção de impacto ambiental. Nas duas situações ficou evidente a inação do próprio Governo Federal do Brasil, demonstrando que a agnotologia não é apenas prerrogativa legislativa, mas também permeia o Executivo. A leniência federal, em conluio com ignorância induzida, pode ser observada nas declarações e decisões relacionadas a extração de combustíveis fósseis, como na região da foz do rio Amazonas.           

No caso do Irã, compreender essa dimensão de produção da ignorância é essencial para qualquer análise que pretenda ir além das aparências. Não se trata de escolher entre narrativas concorrentes, mas de reconhecer os mecanismos que as produzem. E, sobretudo, trazer à luz os impactos humanitários e ambientais. Em um mundo político saturado de informação induzida, imprecisa e altamente manipulada, a ignorância deixou de ser ausência. Tornou-se projeto.

E, se não for contida, certamente será uma das armas estratégicas mais eficazes e letais do nosso tempo.

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