Meu querido Agro Sustentável,
Escrevo para você esta carta aberta porque não consigo encontrar seu endereço, nem mesmo de algum representante seu. Mas eu sei que você existe, ainda que esteja escondido, talvez envergonhado por ser confundido com essa “bancada do agro” no Congresso nacional, talvez por medo dos jagunços que os patrões desses sujeitos possam contratar para abafar a sua voz. Eu espero que esta modesta missiva chegue até você e, quem sabe, que ela o inspire a sair do anonimato em que encontra.
Meu prezado Agro Sustentável, durante décadas você remou contra a maré, e a gente viu. A gente viu você preservar as APPs na sua propriedade, conservar as fontes hídricas, manejar o solo com responsabilidade, reduzir o uso de agrotóxicos e buscar conquistar os mercados mais exigentes do mundo com essas práticas. Isso tudo na sua própria terra, sem grilar florestas públicas ou invadir terras indígenas. Enquanto os criminosos do campo amealhavam centenas de bilhões em subsídios indevidos, desviando boa parte do imposto extorquido dos trabalhadores para comprar carrões, aviões e viagens à Flórida e a Paris, e com “seguros agrícolas” que garantiam seu enriquecimento mesmo na incompetência e nas consequências climáticas da destruição ambiental provocada por eles mesmos, você persistiu no caminho certo. Contra toda essa concorrência desleal, amplamente majoritária entre seus “colegas” do campo que seguem devastando os biomas, envenenando tudo e metendo a mão no que não é seu, você persistiu, e o seu trabalho passou a ser, pasme, a fachada falsa dessa malta de meliantes, que agora arrota que todo o agro brasileiro é “sustentável”, quando sabemos muito bem qual é a verdade. Para cada ruralista preocupado com sustentabilidade há um milhão de devastadores, essa é a verdade.
Nós sabemos da sua desvantagem numérica atroz, amigo Agro Sustentável. Mas se quisermos que a sua existência continue, você precisa sair da toca. Porque em seu nome a Máfia da Devastação, mais conhecida como Bancada do Agro, está tentando e conseguindo destruir o futuro do Brasil – não apenas beneficiando seus cafetões no campo, mas também condenando o país inteiro ao desastre, desconstruindo toda a gestão ambiental do país para facilitar a continuidade do desmatamento, da destruição dos rios e fontes hídricas, do massacre de espécies ameaçadas. Querem acabar com a biodiversidade que sustenta o próprio agro a longo prazo. Querem continuar destruindo o ciclo das águas, confiando que seus poços artesianos e pivôs de irrigação das monoculturas imensas vão resolver sua demanda eternamente. Estão se lixando para potencializar as catástrofes ambientais repetidas como a do Rio Grande do Sul, Nordeste. Sudeste cada vez mais frequentes.
Amigo Agro Sustentável, sabemos que essa corja confia que nenhum presidente da República terá coragem de restringir ou ao menos auditar seus subsídios bilionários, nem sequer fiscalizar adequadamente o uso dessa dinheirama. Também sabemos que a quadrilha do latifúndio confia em que sempre haverá mercados para sua produção originada do estupro da Natureza e do Brasil como um todo. Ignoram que uma hora dessas até a China vai passar a exigir um mínimo de padrões de sustentabilidade ambiental – ou então não se importam, já que estarão todos milionários de qualquer jeito, parasitas longevos do trabalho alheio e do impacto ambiental terceirizado, que atinge a todos nós. Mas a primeira vítima desse descalabro é você, que tentou produzir sem devastar e sem roubar, e que acabará sofrendo junto com o resto do país os efeitos dessa insanidade criminosa.
Não é possível, caro Agro Sustentável, que você continue se deixando representar pela elegância demagógica e nefasta de uma Tereza Cristina no Senado, que dizia não ser necessário derrubar mais nenhuma árvore para produzir, mas segue apoiando firmemente toda legislação que apoie a derrubada de florestas inteiras, ou pela boçalidade troglodita de um Alceu Moreira na Câmara, que vive prometendo acabar com Parques Nacionais (sem felizmente ter conseguido, até agora) e apoia tudo que for contra a boa gestão ambiental. Isso não é “o agro”, é um conluio para beneficiar quem mais devasta com um manto de impunidade absoluta, acabando de vez com a vantagem competitiva de quem produz respeitando as leis e a Natureza. O “Dia do Agro” recentemente defecado sobre o Brasil pela Câmara dos Deputados, ao avançar na destruição da legislação ambiental e dificultar a fiscalização dos crimes, não é do agro, é dos bandidos.
Me veio um terrível pensamento enquanto escrevia esta carta: o de que você, Agro Sustentável, não esteja mais entre nós. Que tenha morrido de inanição no seu esconderijo, ou pior, de infecção generalizada contraída dos bandidos do campo que seguem financiando a guerra política contra a Natureza brasileira e a sustentabilidade da produção agrícola. Mas sigo tendo esperança, de que você ainda viva, e mesmo gravemente ferido consiga voltar à luz do dia para denunciar os sacripantas que se apropriaram do seu bom nome para cometer esses desvarios a que estamos assistindo. Para erguer sua voz contra a destruição das leis ambientais e dizer claramente que elas o beneficiam e abrem mercados, e só atrapalham quem é realmente ladrão de terras públicas, desmatador ilegal, enfim, criminoso ambiental mesmo.
Apareça, por favor, o Brasil precisa de você.
(Se alguém que ler esta carta souber onde se encontra o Agro Sustentável, por favor leve até ele, porque realmente está difícil de encontrar.)
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