Análises

Caminhos do Pampa: uma trilha, múltiplos desafios e possibilidades

No coração do Pampa, no Rio Grande do Sul, a trilha de longo curso surge como ferramenta de conectividade e oportunidade de valorização do bioma e seus atributos ambientais e culturais

Tarcísio Cunha ·
12 de junho de 2026

No coração do bioma Pampa, um caminho nasce curiosamente onde também nasce o rio Ibirapuitã. E, assim como rio cruza o território e se transforma em diferentes cursos, a trilha se desdobra em múltiplas rotas. Como o espinilho, árvore nativa do Pampa, admirada por uns e incompreendida por outros, ela surge como uma coluna dorsal que atravessa a paisagem, cresce, ramifica-se e revela uma imensidão de possibilidades, mas também de desafios, incertezas e aprendizados.

É desse cenário que emerge o Caminhos do Pampa, no Rio Grande do Sul, nos municípios de Quaraí, Santana do Livramento, Alegrete e Rosário do Sul (com planos de conexão internacional com Rivera, no Uruguai).  Um circuito de trilhas de longo curso reconhecida no âmbito da Política Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade – RedeTrilhas. A iniciativa materializa um conceito de conectividade que vai muito além da ligação física entre caminhos ou corredores ecológicos. Ela conecta paisagens, saberes, histórias, culturas e pessoas, revelando a riqueza cultural e natural de um dos biomas mais singulares do Brasil, marcado por trajetórias de resistência, identidade e pertencimento.

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São cerca de 360 quilômetros de trilha multimodal que atravessa campos nativos, estradas vicinais, cursos d’água e paisagens moldadas pela interação entre seres humanos e natureza ao longo de gerações. Muito além de um trajeto para caminhantes, ciclistas, cavaleiros ou remadores, a trilha representa um espaço de convivência e encontro. São locais onde o lazer se mistura à vida cotidiana, onde momento de trocas amenizam o árduo, mas digno, trabalho do campo.

Sua identidade está refletida na própria marca da trilha: uma pegada preta e amarela que reúne símbolos emblemáticos da cultura regional: a cuia do chimarrão com referências aos povos originários que por lá viveram, o cavalo, o gaúcho e seu chapéu, e o quero-quero, sentinela dos campos. Esses elementos, comuns talvez para muitos que vivem no Pampa, despertam o imaginário de quem chega para conhecê-lo.

A identidade visual dos Caminhos do Pampa. Imagem: Reprodução

A trilha está inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, unidade de conservação de uso sustentável administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e protege uma das mais importantes áreas remanescentes do bioma Pampa. Em paralelo, ali, a pecuária extensiva, a criação de ovinos e a vida no campo constituem as principais atividades econômicas local.

Todavia, a APA evidencia que ao mesmo tempo em que as unidades de conservação desempenham papel fundamental na proteção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, elas convivem com o desafio de garantir condições para que as populações locais mantenham seus modos de vida em harmonia com os objetivos de conservação. Em territórios rurais, esse desafio torna-se ainda maior diante das transformações econômicas e sociais que impulsionam o êxodo rural e ameaçam a permanência das novas gerações no campo.

É nesse contexto que o uso público surge como uma ferramenta de transformação territorial. Quando planejada de forma participativa e responsável, a visitação pode gerar oportunidades de valorização cultural, fortalecimento da identidade local, geração de renda e permanência das presentes e futuras gerações em seus territórios. Conforme dados do ICMBio, a visitação nas Unidades de Conservação federais movimentou R$ 40,7 bilhões na economia brasileira em 2025, gerou R$ 20,3 bilhões em contribuição ao PIB e sustentou mais de 332,5 mil postos de trabalho em todo o país.

Mas além dos benefícios econômicos, o uso público pode ser uma importante estratégia para aproximar comunidades e gestores das áreas protegidas. Muitas vezes, a presença do Estado é percebida principalmente por meio da fiscalização e do cumprimento das normas ambientais, o que pode gerar tensões naturais em territórios marcados por múltiplos interesses e diferentes visões de mundo. Iniciativas de promoção da visitação podem criar espaços de diálogo, cooperação e sensibilização, fortalecendo a relação entre a unidade de conservação e seus moradores.

Nesse cenário, políticas públicas como a recém-criada Política Nacional de Incentivo à Visitação em Unidades de Conservação, que incentivam o desenvolvimento do uso público, a RedeTrilhas e até mesma a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), embora ainda pouco aplicada ao reconhecimento dos serviços ecossistêmicos culturais, são cruciais e apresentam potencial para ampliar oportunidades econômicas associadas à recreação, ao turismo sustentável e à conservação da natureza.

Essas políticas podem reconhecer e valorizar tanto os benefícios gerados pela natureza quanto o papel desempenhado pelas comunidades que conservam paisagens, preservam conhecimentos tradicionais e mantêm modos de vida que permitem aos visitantes vivenciar o território, suas histórias e sua cultura. Em paralelo, investimentos oriundos de fundos para o meio ambiente e editais socioambientais, disponibilizados pelo poder público ou entes privados, são fundamentais para viabilizar iniciativas locais e ampliar o acesso de comunidades e instituições aos meios necessários para implementar seus projetos.

Os recursos aplicados no desenvolvimento da Trilha Caminhos do Pampa, por meio do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), representam um exemplo de como investimentos estratégicos podem fortalecer capacidades locais, estimular a participação social e promover a conservação da natureza associada à geração de oportunidades para as populações do território através do turismo baseado na natureza. 

Contudo, é importante reconhecer que a visitação também pode gerar impactos negativos, ainda mais quando não planejada adequadamente. Entre eles, a descaracterização cultural, a perda de identidade dos destinos e a pressão sobre os recursos naturais e sociais.

Por isso, o turismo, uma das formas de uso público mais significativas para gerar contribuições, deve adaptar-se ao território, às comunidades e aos seus ritmos de vida, e não o contrário. A atividade turística não deve substituir a cultura local, mas contribuir para sua valorização. O diagnóstico territorial, o planejamento participativo e o monitoramento contínuo são ferramentas fundamentais para prevenir conflitos e potencializar benefícios.

As propriedades rurais precisam continuar exercendo sua função produtiva, tendo a visitação como atividade complementar e não substitutiva. Os moradores tornam-se protagonistas na interpretação do território, compartilhando conhecimentos, histórias e práticas que fazem do Pampa um lugar único.

Nesse processo, a gestão da unidade de conservação e seus órgãos administrativos emergem como atores indispensáveis na construção de soluções capazes de conciliar os múltiplos interesses presentes no território. Cabe a eles, enquanto implementadores do uso público, compreender as dinâmicas locais, identificar quem se beneficia e quem permanece à margem das oportunidades geradas pela visitação, além de promover o diálogo e construir caminhos que favoreçam a convergência de interesses entre moradores, visitantes, instituições e a própria conservação da natureza.

No coração do Pampa, a trilha carrega consigo a esperança de novos horizontes para o território. Horizontes que não substituem o que existe, mas fortalecem aquilo que torna o Pampa único e demonstram que o amanhã pode ser tão belo quanto o pôr do sol observado do alto dos inúmeros cerros que marcam a paisagem. Um sol que desaparece no horizonte, mas sempre retorna para iluminar novamente os campos.

Pode ser também como a neblina das manhãs frias, que por alguns instantes encobre a vista, mas que aos poucos se dissipa e revela a imensidão dos campos nativos.

Ou ainda como o espinilho, árvore do território, que mesmo diante das incertezas e dos olhares muitas vezes reticentes, permanece firme, profundamente enraizado na terra.

Assim também são os Caminhos do Pampa, sua fauna, sua flora, suas histórias e suas comunidades. Resistentes, adaptáveis e profundamente conectados ao território que ajudaram a construir ao longo das gerações e que quer ser visto, investido e visitado.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Tarcísio Cunha

    Mestre em Ecoturismo e Conservação pela UNIRIO, é especialista em Gestão e Governança de Áreas Marinhas Protegidas (UACh) e membro da Comissão Mundial de Áreas Protegidas (WCPA) e do Grupo de Especialistas de Turismo em Áreas Protegidas (TAPAS Group) da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)

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