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A defesa da democracia é a defesa das vozes que lutam pela conservação da natureza

Alerta do ecologista norte-americano John Terborgh destaca como a desigualdade está na base de regimes fascistas regidos por uma visão utilitarista e mercantilista da natureza

Duda Menegassi ·
16 de junho de 2026

O empresário Elon Musk acaba de tornar-se o primeiro ser humano trilionário do planeta. Fundador da SpaceX, o sul-africano teve o patrimônio avaliado na casa do trilhão. Mais do que uma notícia do campo da economia, a concentração de tanta riqueza nas mãos de tão poucos é sintoma de problemas maiores, inclusive para aqueles que lutam pela conservação da natureza. O alerta vem de alguém que já viu muitos governos. O ecologista norte-americano John Terborgh, de 90 anos, é direto no recado: os Estados Unidos viraram uma oligarquia, onde o poder está concentrado nas mãos de um pequeno grupo de bilionários, para quem prevalece uma visão utilitarista e mercantilista da natureza. 

Professor emérito da Universidade Duke e uma das vozes mais influentes da ecologia tropical, Terborgh destaca a desigualdade social e econômica como um dos principais desafios na defesa da biodiversidade. “A desigualdade leva ao surgimento de oligarquias, o que leva ao fascismo e à rivalidades entre superpotências. E então temos que lidar com guerras. Além dos desafios da inteligência artificial e mudanças climáticas, que afetarão a todos nós de maneiras diferentes”, resumiu o pesquisador durante sua participação na Conferência Nacional de Unidades de Conservação para a Biodiversidade (UCBIO).

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O ecologista explica que em particular a criação de áreas de proteção integral da natureza, como parques, fundamentais para a biodiversidade, sempre dependeram do fator político, ainda que com influência direta tanto da comunidade científica quanto de filantropos e ativistas. Porém, numa lógica oligárquica, ainda que camuflada de democracia, essa voz “de fora” tem cada vez menos espaço.

“Nós, como membros de sociedades democráticas, precisamos nos organizar ou todos nós corremos o risco de um futuro de oligarquias nas quais nossas vozes não irão mais contar. Foram as nossas vozes que fizeram os sucessos da conservação do século 20 e início do século 21 possíveis. Mas se perdermos essa voz, ficaremos encurralados em um mundo que nenhum de nós teria escolhido. Isso é sério e iminente, e apenas o poder das pessoas pode vencer isso”, afirma Terborgh.

Diante de uma plateia de brasileiros, o professor emendou com um apelo: “não deixem isso acontecer no Brasil”.

Terborgh acrescenta ainda que o mundo precisa de países que liderem pelo exemplo, mostrando que as medidas necessárias para enfrentar as mudanças climáticas e proteger a biodiversidade não irão destruir a economia nem gerar desemprego.  

“Para conservar a natureza, temos que vencer uma batalha contra uma força poderosa e persistente, e temos que continuar vencendo-a indefinidamente, pois aqueles que têm uma visão diferente do valor da natureza são persistentes e determinados. Por isso, não podemos descansar”, conclui o ecologista, ele próprio um incansável aos 90 anos.

Terborgh fundou o Centro Tropical para Conservação da Duke University, na qual é professor emérito. Foto: Acervo Pessoal

Caminhos para proteger (e restabelecer) a biodiversidade

A pesquisa do norte-americano ajudou a evidenciar o papel dos predadores na regulação de ecossistemas, associado ao equilíbrio da cadeia alimentar e às relações planta-animal. Para manter esses predadores de topo e, com isso, sustentar a biodiversidade, é fundamental ter grandes áreas de proteção integral, algo cada vez mais difícil num mundo com uma população superior a 8 bilhões de pessoas. 

“Se você quer ter espécies como lobos, ursos, onças… você precisa de áreas grandes de reserva. Se a área for muito pequena eles serão extintos. Os únicos locais onde você consegue manter populações viáveis e reprodutivas, capazes de sobreviver no longo prazo, desses predadores de topo, são em grandes áreas”, explica. 

Com uma relação afetiva com a América Latina, em especial com a Amazônia peruana, onde trabalhou por mais de trinta anos, o ecologista publicou mais de 250 artigos e oito livros, que ajudaram a consolidar debates sobre biodiversidade, biogeografia e o funcionamento das áreas protegidas.

O pesquisador defendeu ainda a importância do “rewilding”, conceito que no Brasil traduz-se comumente para “refaunação”, que é trazer de volta animais extintos localmente para restaurar o equilíbrio ecológico de uma área.

Rewilding vai ser a principal ferramenta para recuperar a estabilidade de ecossistemas, porque se peças importantes estão faltando, o ecossistema colapsa. Você não consegue manter a biodiversidade de um ecossistema se faltam elementos-chave como os predadores de topo”, comentou antes de citar o exemplo bem-sucedido da reintrodução de onças-pintadas e outras espécies no norte da Argentina.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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