“O Oceano é o planeta”, resumiu o ativista ambiental e defensor da vida marinha, Paul Watson. O fundador da Sea Shepherd continuou: “O planeta é água em circulação contínua. Às vezes está no mar, às vezes no gelo, às vezes nas nuvens e às vezes no subsolo, e às vezes nas células de cada planta e animal vivo. É a água se movendo por todos esses diferentes meios. E é isso que conecta todos os seres vivos deste planeta”. As palavras ecoaram pelo auditório da Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade (UCBIO), em Curitiba, durante a palestra de encerramento do evento.
O conceito por trás do que Watson falou é o “biocentrismo”, perspectiva ética e filosófica que coloca todos os seres vivos no centro do universo, de forma conectada e reconhece seu valor intrínseco, fugindo da visão utilitarista sobre a natureza.
Em sua missão como porta-voz da vida marinha, o ativista vê como prioritária essa mudança de paradigma, que faça as pessoas entenderem o Oceano pelo o que ele é e o quanto é importante proteger a biodiversidade dentro dele. “Estamos matando o planeta por causa do Antropocentrismo e matando a nós mesmos. É ecologicamente insano”, afirma.
Fundador da Sea Shepherd em 1977, organização global que atua na luta direta contra ameaças à vida marinha, como a pesca predatória e ilegal, Watson reforçou ainda a necessidade de uma fiscalização efetiva para que as áreas protegidas em todo mundo não fiquem só no papel. “Temos as regras, os regulamentos e as leis, mas sem fiscalização isso é praticamente sem sentido”, aponta.
O capitão citou ainda o Tratado do Alto-Mar, ratificado por mais de 80 países, que entrou em vigor em janeiro com a ambição de garantir a proteção da biodiversidade em águas internacionais. “Mas o que isso significa? Neste momento, é um pedaço de papel. Não significa nada sem fiscalização”, ressalta Watson em conversa com ((o))eco.
Carta de Curitiba
Após três dias e longos debates sobre os caminhos, desafios e estratégias para fortalecer as unidades de conservação brasileiras e a defesa da vida selvagem, a UCBIO terminou com um recado em uníssono: “já que a biodiversidade não fala, nós falamos por ela”. O compromisso é o trecho final da Carta de Curitiba, documento aprovado pelos participantes na sessão de encerramento.
A declaração conjunta dos participantes reforça o protagonismo do Brasil enquanto detentor da maior biodiversidade do planeta, como líder na implementação dos compromissos da Convenção sobre a Diversidade Biológica e com um dos maiores sistemas de unidades de conservação (UCs) estabelecidos, porém ressalta a situação de carência de pessoal e fiscalização, os enormes passivos de regularização fundiária e abandono de muitas dessas áreas protegidas.
“Destacando-se que o processo de ocupação do território brasileiro segue sendo efetuado de forma desordenada, sem se basear em levantamentos econômicos-ecológicos que permitam cotejar de maneira apropriada a proteção de ecossistemas críticos, assegurar a mitigação e a adaptação às mudanças do clima, e alavancar o crescimento econômico sustentável”, afirma trecho da carta.
Com o apelo de que cabe “ao Poder Público a defesa do patrimônio biológico do País” e que as UCs de proteção integral, menos representativas em termos de cobertura territorial, porém fundamentais para conservação da biodiversidade, tenham prioridade de “criação, implantação e adequada gestão”.
A Carta de Curitiba aponta ainda o potencial de utilizar fontes alternativas de recursos, como o Fundo Social do Pré-Sal, para realizar a regularização fundiária das UCs.
A Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade (UCBIO) foi realizada em Curitiba, entre os dias 7 e 9 de junho. O evento reuniu mais de 700 participantes, entre especialistas, técnicos, pesquisadores, estudantes universitários e ambientalistas. A cobertura completa da UCBIO por ((o))eco pode ser consultada aqui.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
A hora de agir pelos oceanos é agora, um chamado de Sylvia Earle
“Ainda há tempo, mas não muito”, alerta a oceanógrafa que falou com ((o))eco sobre o declínio da vida marinha, a resiliência do oceano e os motivos para ter esperança →
SP Ocean Week debate o futuro da vida marinha com foco em áreas protegidas
Evento abre o diálogo sobre sustentabilidade oceânica e oferece atividades artísticas, científicas e formativas para todos os públicos →
Ex-ministros apontam Congresso como maior obstáculo à agenda das UCs
"Nosso dilema hoje está situado no Congresso Nacional", afirma ex-ministro do Meio Ambiente, José Carlos de Carvalho, durante palestra na UCBIO ao lado da também ex-ministra Izabella Teixeira →

