Análises

O Pampa não tem um dia de paz

Espera-se que a Sema seja a principal referência técnica do Estado na elaboração de normas ambientais. E isso precisa se refletir no rigor conceitual e diálogo com a ciência

Rogerio Chimanski da Fontoura ·
29 de junho de 2026

Há expressões que chamam atenção pela elegância. Outras, pela precisão técnica. E há aquelas que parecem ter escapado de uma reunião de roteiristas.

A mais nova candidata pertence a uma minuta da SEMA-RS, que trata do Cadastro Ambiental Rural no Bioma Pampa. Após uma década de judicialização até que se reconhecessem os campos nativos como sendo a vegetação original do bioma, a regularização ambiental no Pampa agora enfrenta outro desafio. Em determinado momento, o texto da minuta que está em consulta pública faz referência às “áreas rurais com espécies exóticas invasoras cujo início da invasão é posterior a 22 de julho de 2008”.

Início da invasão

A leitura desperta uma dúvida inevitável: estamos falando de Ecologia ou de geopolítica? Afinal, invasões têm início quando tanques atravessam fronteiras, paraquedistas se lançam em queda livre ou tropas desembarcam em praias. Espécies exóticas não recebem ordens, não executam estratégias e não atravessam fronteiras em um único dia.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Uma invasão biológica é um processo contínuo, progressivo e, sobretudo nos estágios iniciais, passível de reversão mediante manejo adequado. Pode começar com poucas plantas dispersas, expandir-se lentamente durante anos e somente décadas depois dominar uma área – ou sequer se estabelecer, a depender das práticas de manejo.

A minuta, porém, trata a invasão biológica do capim-anonni como se fosse um marco temporal jurídico quando, na realidade, representa um processo de degradação ambiental. Perguntar quando foi o “início da invasão” é como perguntar em que dia exatamente começou uma erosão ou quando teve início o assoreamento de um rio.

Reduzir sistemas ecológicos complexos a um marco temporal está muito aquém da grandeza que se espera de uma instituição de Estado. Mas o problema não está apenas na expressão. Existe algo muito maior por trás dela.

Espera-se que a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (e Infraestrutura) seja a principal referência técnica do Estado na elaboração de normas ambientais. Seus atos deveriam refletir rigor conceitual e diálogo com a ciência para que assim se concretizem em segurança jurídica. Quando uma minuta em consulta pública incorpora conceitos sem significado operacional, cria critérios praticamente impossíveis de comprovar e utiliza expressões que não encontram respaldo na Ecologia, deixa de oferecer segurança e passa a produzir insegurança.

É justamente por isso que a frase chama tanta atenção. Não porque represente apenas um erro técnico grosseiro, mas porque dificilmente poderia resultar de um amplo debate técnico dentro da SEMA-RS. Ao contrário, transmite a impressão de que a experiência e o conhecimento acumulados por seus servidores tiveram pouca ou nenhuma influência na elaboração da minuta.

Minutas existem para serem debatidas e aperfeiçoadas. Esse é o propósito da discussão pública. O problema começa quando erros tão elementares aparecem justamente em um texto elaborado pelo órgão que deveria estabelecer o padrão de excelência técnica na política ambiental do Estado.

O Pampa enfrenta estiagens e enchentes, a fragmentação dos campos nativos, invasões biológicas reais – como a do javali e do cervo-axis – e uma longa lista de desafios ambientais. Não precisava enfrentar também uma invasão de conceitos mal formulados em uma minuta colocada em consulta pública.

O Pampa, definitivamente, não tem um dia de paz.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Rogerio Chimanski da Fontoura

    Engenheiro agrônomo, mestre em zootecnia com enfase nas pastagens nativas do Pampa. Presidente da Associação dos Servidores da SEMA-RS e coordenador do Movimento Salve o Pampa.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
13 de março de 2024

Cultivando a invasão biológica

Invasão biológica de espécies botânicas causam prejuízos ao meio ambiente. Cultivar plantas ornamentais exóticas potencialmente invasoras deveria ser proibido

Reportagens
9 de maio de 2017

“Foi uma invasão biológica”, diz José Augusto Pádua

Em entrevista a ((o))eco, o historiador fala sobre o gado bovino como instrumento de conquista desde os tempos de colônia até a recente ocupação da Amazônia

Colunas
6 de janeiro de 2025

A negação do Pampa ante o desafio de conservar a biodiversidade não florestal e a identidade gaúcha

É certo dizer que, na grande imprensa, o Pampa segue invisibilizado. E mais, o uso econômico que compatibiliza campos naturais com a preservação do meio ambiente é ignorado na pauta

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.