Reportagens

“ANTA – o filme” leva às telas o maior mamífero terrestre da América do Sul

Documentário celebra 30 anos da pesquisa liderada por Patrícia Médici, acompanha o trabalho da INCAB na conservação das antas e apresenta a importância da jardineira da floresta

Duda Menegassi · Marcio Isensee e Sá ·
30 de junho de 2026

“Anta é elogio”. A frase afirmativa transformada em lema e adesivo pela equipe da Iniciativa Nacional para Conservação das Antas no Brasil (INCAB-IPÊ) é um teaser da mensagem apresentada em “ANTA – o filme”, dirigido por João Marcos Rosa. Ou melhor, uma das mensagens, importante dizer, pois o documentário de 80 minutos nos leva por uma verdadeira expedição por cinco biomas brasileiros no rastro do maior mamífero terrestre da América do Sul, na qual nos deparamos com diferentes contextos e desafios de conservação, acompanhando de perto o trabalho hercúleo dos pesquisadores em campo, que tentam garantir sua sobrevivência. Na frente desse esforço está a bióloga Patrícia Médici, que há 30 anos lidera a pesquisa e o maior banco de dados sobre anta do mundo.

“Vivemos num país e num mundo que ainda sabe muito pouco sobre esse animal. Muita gente ainda se confunde, acha que a anta é uma capivara, um tamanduá, um porco. Existe um desconhecimento. É o maior mamífero terrestre da América do Sul, a jardineira da floresta. As pessoas têm que saber o que é esse animal antes de a gente poder avançar nessa conversa com eles. (…) qual é a importância desse animal para a criação e manutenção de biodiversidade é chave. A gente precisa que as pessoas saibam disso”, destaca Patrícia, coordenadora da INCAB. 

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O trabalho da bióloga com a anta (Tapirus terrestris) começou em 1996 e resultou na criação da INCAB, iniciativa voltada para pesquisa de longo prazo e conservação do animal em cinco biomas – Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado, Amazônia e, mais recentemente, Caatinga, onde a espécie foi redescoberta em 2025 – com o objetivo de garantir sua sobrevivência em todos eles.

O filme, dirigido por João Marcos Rosa e produzido pela NITRO Histórias Visuais, estreou na semana do Meio Ambiente, em junho, e ((o))eco acompanhou a pré-estreia no Rio de Janeiro. 

Confira a entrevista completa de ((o))eco com João Marcos Rosa e Patrícia Médici:

((o))eco: O que motivou vocês a fazerem esse filme?

João Marcos Rosa: O filme surgiu de forma super casual, num café, uma coisa bem espontânea, mas a essência mesmo vem, na minha perspectiva como diretor e documentarista, de uma admiração muito grande por esse trabalho que é conduzido há muitos anos, com muito esforço, dedicação e resiliência. Homenagear essas pessoas, fazer com que essas trajetórias sejam expostas, com elas ainda em ação, é um estímulo para que elas sigam operando na alta, como a Patrícia faz, como a equipe dela toda faz, e que também é uma inspiração para quem não está envolvido com o tema ou para quem está envolvido com o tema também. Pra mim, a motivação de contar essa história, de fazer esse filme, é fazer com que essa força motriz siga rodando, as pessoas se inspirem e que as próprias pessoas que estão sendo retratadas ali no filme também sigam se inspirando com o próprio trabalho. Às vezes é difícil olhar para o seu trabalho e falar, “cara, o meu trabalho tem algum valor”, as pessoas estão ali presas no cotidiano e na burocracia e não conseguem ter essa dimensão. E esse trabalho da Patrícia e da INCAB-IPÊ, tem essa dimensão de escala micro e macro, que vai desde o pontinho ali onde eles estão, o território do bicho, até uma escala global.

Patrícia Médici: Só para contar um pouquinho mais sobre essa conversa informal no cafezinho porque na verdade é bacana esse nascimento da história do filme. Eu fui falar com o João no cafezinho do nosso curso de Comunicação para a Conservação: “João, ano que vem estamos fazendo 30 anos de trabalho e acho que queria fazer uns conteúdos para as redes, uns videozinhos”. Aí o João virou e falou “mas por quê videozinho? Vamos fazer logo um filme”. E eu perdi a chance de sair correndo naquela hora e aí estamos aqui né, o João me falou mais, me ensinou sobre essa potencial caminhada e rolou. [risos]

Patrícia Médici lidera equipe da INCAB-IPÊ em campo para monitorar antas e entender os melhores caminhos para sua conservação. Foto: João Marcos Rosa
((o))eco: E por que um filme, não um “videozinho”? Por que comunicar com um longa-metragem?

João: A escolha do filme vem muito em contraponto dessa palavra que a gente tem hoje, que é o tal do “videozinho”, que é uma ferramenta muito dinâmica de comunicação, mas ela trabalha na superficialidade. Tanto de conteúdo quanto de plataforma de suporte. Estamos falando de dispositivos digitais, celular, computador, tablet… onde você está geralmente trabalhando e tendo sua atenção dissipada ali com outras milhões de coisas, com conteúdos diversos. Essa atenção hoje está muito dividida. A ideia era levar essa história para as telas, porque a gente queria que as pessoas que fossem assistir tivessem essa carga de informação, de sentimento e da mensagem muito mais forte. Eu vejo pelas pessoas que foram impactadas até agora – já foram mais de 500 pessoas nessas primeiras exibições no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. E o retorno que temos é de pessoas que realmente começaram a se envolver, trouxeram alguma troca, passaram pra frente, já colaboraram de alguma forma. É um nível de impacto muito maior. Eu tinha certeza e continuo tendo de que assistir esse filme num auditório, numa sala de cinema, numa sala de aula futuramente, vai fazer com que essas pessoas estejam muito mais atentas e possam absorver essa mensagem de uma forma mais forte. E nós estamos com a premissa de estar presentes nessas exibições, pelo menos nesse primeiro momento, para que possamos ter essa troca também.

E o filme é bem imersivo, a história acontece o tempo todo no campo, sem entrevistas paradas, com muito diálogo. Queria que você explicasse o que levou a essas escolhas de narrativa.

João: Nós tínhamos desde o início uma visão das personagens, já na pesquisa ali, entendendo que tinha uma conexão de várias personagens no processo. A gente trouxe o Gustavo Nolasco, que é quem fez o argumento do filme e ele trouxe a ideia desses diálogos da Patrícia com as pessoas que permeiam esse universo. E a gente viu que funcionou. Eu acho que na primeira grande entrevista que foi com a Rita Jurgielewicz, que é a proprietária da Fazenda Baía das Pedras, lá no Pantanal, percebemos que a Patrícia conseguia levar essa dinâmica e que aquilo ajudava as pessoas também a entender um pouco mais dela. Então esse bate-papo também ajudava. A Patrícia participou de praticamente todas as entrevistas, perguntando também, dialogando. Só teve uma que a gente precisou extraí-la, que foi a do Arnaud [Desbiez], o marido dela, porque realmente tinha uma carga mais emotiva, e a gente queria que ele tivesse essa liberdade para poder falar dela, e realmente ele conseguiu trazer coisas que talvez ninguém tivesse essa tranquilidade para falar, com tanta autoridade do assunto amor.

Patrícia: Revoltante ter que ter saído [risos].

Patrícia você é realmente a alma do filme, tanto levando o público para acompanhar a pesquisa em campo, quanto participando das entrevistas. Se você tivesse que resumir, quais são as principais coisas que você queria que as pessoas entendessem sobre a Anta e a sua pesquisa com esse filme.

Patrícia: Nós temos uma lista de bullet points, que são as mensagens que a gente já “tatuou na pele” e anda com elas pra cima e pra baixo, isso está embebido em toda a nossa comunicação, que é um aspecto muito importante do trabalho. E essas mensagens principais são voltadas a fazer com que as pessoas saibam o que é uma anta, porque vivemos num país e num mundo que sabe muito pouco sobre esse animal. Muita gente ainda se confunde, acha que a anta é uma capivara, que a anta é um tamanduá, um porco. Existe um desconhecimento sobre o que é uma anta. É o maior mamífero terrestre da América do Sul, jardineira da floresta. As pessoas têm que saber o que é esse animal antes de a gente poder avançar nessa conversa com eles. Eu acho que o filme mostra isso bastante bem. 

Segundo lugar, quais são as problemáticas? O que compromete a sobrevivência desse bicho? O filme também aborda isso lindamente. Esses dias até me falaram, o filme aborda temas complexos e até mesmo tristes, mas não de uma forma melancólica. E eu achei bem bacana essa descrição. A questão da jardineira da floresta, qual é a importância desse animal para a criação e manutenção de biodiversidade é chave. A gente precisa que as pessoas saibam disso. E o filme traz imagens incríveis, até do cocô com as sementinhas… o João foi lá em Carajás, alguém achou um cocô e ele saiu correndo porque precisava filmar esse cocô que tinha as mudinhas e mostra isso bem. 

De maneira geral todas as mensagens que a gente busca passar foram cobertas pelo filme de uma forma muito acessível, as pessoas sacam. Tinha muita gente, em todas as exibições, que não são da área de conservação e que deram esse retorno de que entenderam a mensagem. O filme fala de verdade com as pessoas, convertidos ou não. 

Acho que essas são algumas das mensagens: ciência, anta e conservação. Mas tem também de que a conservação é um estilo de vida. Tem que se entregar, não é uma coisa que dá pra fazer nas horas vagas. Acho que aí estamos falando mais com a galera mais jovem, que está entrando nesse universo, com os profissionais da conservação que estão aí estressados, deprimidos… esse filme também leva essa mensagem de que é sofrido, é murro em ponta de faca, como eu gosto de dizer, mas estamos juntos. Vamos fazer o que precisa ser feito. Parece que o filme conseguiu colocar tudo isso ali. 

Após examinada, anta é solta sob as lentes atentas de Patrícia Médici. Foto: João Marcos Rosa
O filme realmente não é melancólico, tem até momentos engraçados, descontraídos, mas é um filme duro. Tem a efemeridade dos 30 anos do projeto, mas e os próximos 30? O filme deixa até uma certa dúvida na continuidade da existência da anta. Como vocês veem isso dentro do filme?

Patrícia: O filme é de uma dureza delicada. Ele dá umas agulhadas fortes, a gente fala forte. Nós tivemos essa conversa com o Gustavo Nolasco lá no comecinho, quando estávamos preparando o argumento sobre como imaginávamos esse filme. E nós decidimos que queríamos que fosse um filme que falasse transparentemente sobre essas questões mais difíceis. Acho que foi na medida certa e bem dosada para que as pessoas tenham esse banho de realidade. Sobre pensar no futuro, acho que o filme deixa no ar. O João brinca que vamos fazer “Anta 2 – a revanche”. E acho que está instigando a curiosidade das pessoas, para que elas pintem nas suas próprias cabeças qual vai ser a continuidade: “Será que eu aqui, posso ser parte dessa continuidade?”. É bem bacana se a gente puder ter também esse tipo de posicionamento. 

Lá em Belo Horizonte, uma pessoa que estava na plateia perguntou, “e aí, quem que vai ser a próxima Patrícia?”. E a minha resposta foi que, na realidade, não tem muito espaço para a gente ficar pensando nisso porque o presente é tão intenso. O presente requer tanto de nós que é bem complexo estar pensando no futuro ou em quem que vai assumir o projeto. Nós temos que estar no presente, estar focados no que a gente tá fazendo e acreditar que tem um valor. E sim, treinar pessoas. Ter todos os esforços possíveis e imagináveis para que os nossos projetos sejam centros de treinamento e capacitação para os conservacionistas do futuro, e essa galera vai levar essa responsabilidade. Esperamos que seja um legado, não necessariamente clones dos conservacionistas que estão trabalhando aqui agora.

João: Acho que o filme tem uma mensagem sobre essa efemeridade, quando o Zé [José Maria de Aragão, assistente de campo] fala do que ela [Patrícia] é, do que ela representa, e depois, o que as pessoas vão lembrar? Eu quero que elas lembrem agora, que elas pensem agora, para que isso seja uma inspiração. E foi muito interessante na exibição em São Paulo que tinha uma nova geração de documentaristas, que também estão bebendo dessas fontes e se inspirando, claro. Acho que o filme tem essa coisa de trabalhar em esferas diferentes, que não só dá conservação e ciência. 

O papel do Zé traz uma coisa muito importante também desse componente humano, Brasil do interior, do papel desses assistentes de campo, os mateiros. Se os pesquisadores que são os expoentes, já são invisíveis pro mundo como um todo, os assistentes de campo são totalmente invisíveis. Mostrar esse tripé, porque tem a Patrícia, tem o Zé e vários outros personagens que estão ali numa outra base, formata esse processo, né?

Patrícia cercada por equipe de assistentes de campo que a acompanharam desde o início na pesquisa com a anta. Foto: João Marcos Rosa
Durante a pré-estreia no Rio de Janeiro você comentou que seu pai te reconhecia como um fotógrafo de natureza, mas que você passou a se entender como um documentarista de gente. Conta um pouco sobre essa mudança de perspectiva.

João: Eu vou um pouco além, eu acho que, de uns anos pra cá, há uma tendência de valorizar as pessoas que estão por trás dessas batalhas da ciência e conservação. Mas ainda temos, principalmente na comunicação, milhões e milhões a mais de libras esterlinas, como eu gosto de falar, porque esse dinheiro vem principalmente da Inglaterra, investidos nessas histórias naturais que fazem “traquitanas” para documentar a aura do golfinho, por exemplo, e não tem tratado as histórias humanas de quem tá nessa batalha da mesma forma. São essas pessoas que estão morrendo junto com esses bichos. E somos nós que estamos morrendo junto com esses bichos. 

Não é uma crítica exatamente, mas um direcionamento de esforço. Eu percebia que pra fazer uma coisa de bicho, o consumo do meu tempo, da minha energia, da minha grana, de equipamento e de tudo mais, era uma coisa que sempre pulava ali os zeros, muito mais do que uma coisa de eu estar convivendo com uma pessoa. Se a gente fosse fazer um filme de história natural sobre anta, a gente teria gasto muito mais e com muito mais gente em campo, pra contar essa história. E será que essa mensagem chegaria da mesma forma? Será que essa mensagem seria absorvida da mesma forma? Isso eu tenho refletido há algum tempo, de tentar conectar.

Com o “Mulheres na Conservação” [projeto multimídia e documentário de 2023] teve muito disso, de você colocar uma espécie, uma pessoa e uma causa. A conexão é maior do que simplesmente alguém achar que você está ali fotografando aquela harpia ou aquela anta e você está no meio do mato sozinho e não tem ninguém por trás disso, de que você não bebeu de nenhuma informação para conseguir realizar aquilo. 

Tudo que eu fiz até hoje foi graças ao apoio de pesquisadoras como a Patrícia ou todas as outras que me colocaram na cara do gol. Pra mim hoje faz mais sentido também essa homenagem. É meio que uma retribuição a tudo que eu pude ver, a tudo que eu pude fotografar, graças a essas pessoas. É uma forma de retribuir. E pra mim é um prazer ver essas pessoas, vê-las em campo, trabalhando com tanta maestria, é um negócio muito bonito. É mais do que só um trabalho, é uma retribuição que eu faço a tudo que eu recebi até hoje.

O filme se refere várias vezes ao Pantanal como o paraíso das antas. Mas a gente sabe que a crise climática, as secas, incêndios… tudo isso ameaça o Pantanal que conhecemos hoje. O filme acaba não abordando muito isso, mas eu queria ouvir de você, como você vê esse paraíso? Esse Éden está ameaçado?

Patrícia: Com certeza. Talvez esse seja o tópico principal de Anta, o filme 2. A gente iniciou na Mata Atlântica num contexto de área protegida, que é um grande fragmento de Mata Atlântica do interior, o Parque Estadual do Morro do Diabo, na região do Pontal do Paranapanema. Ali era o nosso objeto de estudo, uma população de antas dentro de um parque estadual protegido. Tínhamos um contexto de nem paraíso nem inferno. Quando a gente chegou no Pantanal, 18 anos atrás, foi que eu tive essa sensação [de paraíso]: são 170 mil quilômetros quadrados de área contínua, da iniciativa privada, enormemente comprometida – vamos usar comprometida com leveza –, com a conservação, porque tem as recompensas de você manter o método tradicional pantaneiro de pecuária, porque isso sim aumenta a sua produtividade. E de garantir que a bicharada tá lá, porque agora estão trabalhando com o turismo, quer que os seus hóspedes vejam uma onça, uma anta, uma ariranha. O Pantanal não é adequado para agricultura e isso gerou um contexto nessa planície alagável que favoreceu a manutenção do Pantanal por 200 anos de colonização, basicamente como ele era, com a inserção da pecuária em larga escala, métodos tradicionais pantaneiros. Se você muda isso, aí danou-se. A gente tinha essa sensação, de verdade, de paraíso. A fazenda onde a gente trabalha tá no coração da Nhecolândia, que é uma das sub-regiões melhor conservadas do Pantanal, ali no meio do nada, seis, sete horas de viagem sacolejando pelo meio de fazenda, com proprietários pioneiros da ocupação do Pantanal, uma das famílias mais tradicionais da região, e que usa, mantém e aplica ali os preceitos da pecuária tradicional e turismo. 

Só que com o passar dos anos, esse é um processo de duas décadas, essas coisas estão mudando, muita gente está tendo dificuldades econômicas e estão vendendo suas terras. Essa é a grande mudança, porque o tradicional pantaneiro vende a fazenda para uma pessoa de São Paulo que chega e a primeira coisa que faz é cortar a floresta, que o pantaneiro raiz não vai cortar porque quer sombra para o gado e sabe que aquilo é importante para a produtividade. Plantam braquiária, algo que o pantaneiro não faz, porque ele sabe que manter a pastagem nativa porque é mais nutritiva… e isso muda tudo. 

E aí aquilo deixa de ser um Pantanal. É isso que está acontecendo, pouco a pouco. Somado aos impactos das mudanças climáticas, que são imprevisíveis, mas já estão acontecendo. É um bioma que está secando, que tem bem menos disponibilidade de chuva e um bioma que está queimando todo ano. 

O fato é que o Pantanal vai deixar de ser o paraíso das antas em breve e a gente já está sentindo isso há algum tempo. Eu acho que ainda dá, estamos no último suspiro desse paraíso. Por ora, o paraíso ainda está lá.

Pantanal, o “paraíso das antas”, está com futuro ameaçado. Foto: João Marcos Rosa
Para além do Pantanal, o filme navega por outros biomas, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e brevemente a Caatinga, onde vocês também atuam, com pesquisa e conservação. Como é organizado esse trabalho e esse acúmulo de dados da anta por todo país?

Patrícia: Nós começamos como um projetinho pequeno e acabou abrindo as asas e hoje em dia a gente se autointitulou Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira [INCAB]. Evoluímos nesse sentido mesmo e foi orgânico, foi um processo de ir se dando conta de que éramos necessário aqui e ali, em diferentes momentos, e fomos abrindo as asas mesmo. Foi muito planejado, foi muito cuidadoso, inclusive financeiramente. 

Eu prometi para muita gente, falei publicamente que a Amazônia ia ser o último bioma. Hoje em dia eu pago por isso, porque aí veio a Caatinga na nossa vida [risos]. A gente trabalha com uma equipe pequena e atarefada. São oito pessoas em tempo integral, eu e o Zé inclusos, com veterinária, geneticista… Temos um ecólogo especializado em gestão e análise de dados, o Yuri Souza, que é quem toma conta desse “acúmulo”, que é o maior banco de dados sobre a espécie no mundo, que fomos acumulando ao longo desses 30 anos em cada uma dessas áreas: da ecologia, da saúde, da genética, as ameaças que estão operando, quais são os impactos numéricos, quantitativos dessas ameaças, enfim, tudo que é gerado de dados. Esse bolo de dados que estamos trabalhando para organizar, gerir e sugar as informações. Publicamos três artigos este ano graças ao trabalho do Yuri. É todo um esforço para injetar esses dados em tudo que fazemos, em outros projetos e para outras pessoas que precisam dessas informações. 

Nós nos organizamos com expedições. Cada ano tem um foco. Esse ano estamos lidando com a agenda e demandas do filme, mas estamos dando um foco maior na Caatinga. Estamos com várias frentes em campo nesse momento, pessoas que contratamos temporariamente para fazer pequenas coisas e assim a gente vai. Então no início do ano pensamos qual é a prioridade, quais são os principais focos, organizamos as expedições, montamos nosso cronograma anual e vemos toda a operação logística. 

E todo mundo faz tudo na equipe. Quando chega uma pessoa na equipe, normalmente essa é a primeira coisa que eu falo, você é veterinário, mas você não vai ser só veterinário aqui. Vamos precisar que você se envolva com logística, com captação de recursos, com divulgação, com comunicação, você vai ter que dar entrevista, você vai ter que escrever post… Por isso que todo mundo é sobrecarregado, mas está todo mundo feliz.

E como foi amarrar toda a amplitude desse trabalho na narrativa de um filme de 80 minutos? Qual o maior desafio em traduzir essa história e toda essa pesquisa para as telas?

João: O maior desafio era fazer jus a essas histórias que nos foram contadas. Eu acho que não tinha desafio maior que esse. A gente ficou ouvindo essas pessoas durante tanto tempo e tínhamos que fazer jus a essa trajetória tão poderosa e tão importante. O dia que eu fiquei mais nervoso foi o dia que eu mostrei o corte pra Patrícia. Porque era a história dela. Pra mim era o maior desafio, que ela se sentisse representada e que isso fizesse algum sentido. Eu acho que fez, mas aí é uma pergunta a ser feita pra ela [risos]. 

E houve um cuidado de todos nós, tanto da Patrícia quanto nós na ilha de edição, para contar esse trabalho de forma prática e didática. “Ó, nós estamos fazendo isso aqui, para isso aqui”. É uma pesquisa aplicada à conservação. Esses são os dados, de forma muito clara, sem ofender ninguém e chamando pro diálogo.

Um desafio mais técnico e também de escuta, era ouvir todas as entrevistas e conseguir conectar essas histórias, juntar a fala de um com o outro, às vezes feitas em momentos diferentes também.

A questão das viagens por um Brasil imenso e com seus desafios, com suas paisagens incríveis e totalmente diferentes também foi um ponto. Dos seis biomas terrestres, visitamos cinco. E a história dos biomas ajudou bastante a costurar o filme tanto numa questão geográfica, quanto numa viagem temporal também, que não é linear, mas nos ajuda ter um começo ali no Pantanal e finalizar com o começo do projeto, na Mata Atlântica, no Morro do Diabo. Tem uma inversão, mas que ela acaba ajudando no arco dramático do filme.

Patrícia e João Marcos Rosa (diretor do filme) durante a conversa com Tasso Azevedo, coordenador do Mapbiomas. Foto: Raquel Alves
Qual foi o período de gravação das imagens pro filme?

João: Nós usamos imagens do acervo da INCAB, que são imagens mais antigas, de 1998. Gravamos a primeira entrevista que eu e a Paulina [Chamorro] fizemos com a Patrícia em setembro de 2019, na Baía das Pedras, para o Mulheres na Conservação. Depois voltei pro Pantanal em dezembro para gravar outra entrevista e mais imagens pro documentário do Mulheres. Então houve esses dois tempos de entrevista, no final de 2019, e ao longo de 2025 e começo de 2026, já na produção do filme da Anta. 

Quem assistir esse filme vai começar a usar a palavra “anta” como elogio?

Patrícia: Eu vou responder que sim e um sim firme, porque eu acredito que o filme passa as mensagens de uma maneira bem clara. Esse “sim” vem do retorno que temos recebido nas exibições. A forma como as pessoas têm nos abordado, tanto pesquisadores, comunicadores, acadêmicos… quanto um monte de gente que está vindo acompanhando os “convertidos” e que também têm trazido esse retorno positivo. Eu sinto que as pessoas estão saindo do filme infinitamente melhor informadas sobre várias coisas e eu creio que mais inspiradas para contribuir com a causa. 

João: Fora que elas são obrigadas, para conseguir o ingresso, a colar um adesivo de “Anta é elogio” atrás do celular [risos].

Quais serão os próximos passos do filme? Haverá novas exibições locais? O que vocês planejam?

João: Já temos exibições marcadas em Campo Grande (MS), no dia 28 de julho de 2026, e em Teodoro Sampaio (SP), em 1º de agosto [acompanhe o calendário de exibições na página da INCAB]. Estão surgindo oportunidades de levar o filme para Manaus (AM), Fortaleza (CE), Paraty (RJ). O filme está aberto para convites e queremos que essa mensagem seja compartilhada, desde eventos ligados ao meio ambiente a festivais de cinema. E, futuramente, trabalhar ele dentro da escola, entender com qual faixa etária de estudante ele pode conversar melhor. Em algum momento, ele vai pra essa esfera digital de streamings ou qualquer tipo de plataforma. 

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

  • Marcio Isensee e Sá

    Marcio Isensee e Sá é comunicador e gestor de conteúdo, especializado em jornalismo e audiovisual socioambiental. Atua na lid...

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